EZLN | QUARTA PARTE: MEMÓRIA DO QUE VIRÁ

Outubro de 2020.

Faz 35 outubros.

O Velho Antonio vê a fogueira resistindo à chuva. Sob o chapéu de palha pingando acende, com um tição, seu cigarro forjado [com dobrador]. O fogo se mantém, escondendo-se às vezes sob os troncos, o vento ajuda-o e com seu alento reaviva as brasas que se avermelham de fúria. 

O acampamento é o nomeado “Watapil”, na chamada “Sierra Cruz de Plata” que se ergue entre os úmidos braços dos rios Jataté e Perlas. Corre o ano de 1985 e outubro recebe o grupo com a tormenta, pressagiando assim suas manhãs.

O alto [almendro] (que renomeava essa montanha na língua insurgente), compassivo olha a seus pés a esse punhado pequeno, pequeníssimo, insignificante, de mulheres e homens. Rostos demarcados, peles magras, o olhar brilhante (talvez a febre, a obstinação, o medo, o delírio, a fome, a falta de sono), as roupas marrons e pretas desgarradas, as botas deformes pelos [bejucas] que pretendem manter as solas em seu lugar.

Com palavra pausada, permanece, apenas perceptível entre o ruído da tormenta, o Velho Antonio lhes fala como se fosse chamado a si mesmo:

“Para a cor da terra virá de novo o [Mandón] a impor sua palavra dura, seu EU assassino da razão, seu suborno disfarçado de esmola.

Virá o dia em que a morte vestirá suas roupas mais cruéis. Adornados seus passos com engrenagens e guinchos, a máquina que adoece os caminhos, mentirá dizendo que traz bonança enquanto semeia destruição. Quem se apega a esse ruído que apavora as plantas e animais, será assassinado em sua vida e em sua memória. Com chumbo uma, a outra com mentira. A noite será assim mais longa. Mais dilatada a dor. Mais mortal a morte.

Os Aluxo’ob alertarão então a mãe e assim dirão: “Vem a morte, mãe, matando vem”.

A terra mãe, a primeira, se despertará então – sacundindo o sonho de papagaios, araras e tucanos –, reclamará o sangue de seus guardiões e guardiãs e, dirigindo-se a sua prole, assim dirá:

“Vão uns a burlar o invasor. Vão as outras a chamar o sangue irmão. Que não lhes espantem as águas, que não os desanimem frios nem calores. Abram caminhos onde não há. Remontem rios e mares. Naveguem as montanhas. Voem chuvas e nuvens. Sejam noite, dia sejam, de madrugada vão e alertem a todos. Que muitos são meus nomes e cores, mas um é meu coração, e minha morte será também a do todo. Que não se tenha vergonha então da cor da pele que lhe dei, nem da palavra que em suas bocas eu plantei, nem do tamanho que ele tem perto de mim. Que eu lhe darei luz na visão, abrigo em seus ouvidos e força em seus pés e braços. Não temam as cores e os modos distintos, nem os caminhos diferentes. Porque um é o coração que lhe herdei, um é o entendimento e uma a visão”.

Então, sob o assédio dos Aluxo’ob, as máquinas do engano mortal se decomporão, quebrada sua soberba, quebrada sua avareza. E os poderosos trarão de outras nações os lacaios que compõem a morte decomposta. Se revisarão as entranhas das máquinas de morte e encontrarão a razão do seu desandar e assim dirão: “estão cheias de sangue”. Tratando de explicar a razão dessa terrível maravilha assim anunciarão aos seus patrões: “não sabemos o porquê, somente sabemos que é sangue herdado do sangue originário.”

E, então, choverá a maldade sobre si mesma nas grandes mansões onde o Poderoso se embriaga e abusa. Entrará, sem motivo, em seus domínios e, no lugar de água, jorrará sangue dos mananciais. Seus jardins murcharão e murchará o coração de quem trabalha e lhe serve. O poderoso trará então outros vassalos para usá-los. De outras terras virão. E nascerá o ódio entre iguais alentado pelo dinheiro. Haverá pelejas entre eles, e virá a morte e a destruição entre quem compartilha história e dor.

Quem antes trabalhava a terra e nela vivia, convertidos em servos e escravos do Poderoso, nos solos e céus de seus antepassados, verão chegar as desgraças a suas casas. Suas filhas e seus filhos se perderão, afogados na podridão da corrupção e do crime. Volverá o direito de [pernada] com o qual o dinheiro mata a inocência e o amor. E os bebês serão arrebatados do colo de suas mães e sua carne nova será tomada pelos grandes Senhores para saciar sua vileza e ruindade. Por causa do dinheiro, o filho levantará a mão contra seus pais e o luto vestirá suas casas. A filha se perderá na obscuridade ou na morte, morta sua vida e seu ser pelos Senhores e seu dinheiro. Enfermidades desconhecidas atacarão a quem vendeu sua dignidade e a dos seus por umas moedas, a quem traiu a sua raça, seu sangue e sua história, e a quem levantou e propagou a mentira.

A Ceiba mãe, a sustentadora de mundos, gritará tão forte que até a surdez mais profunda escutará seu clamor ferido. E 7 vozes distantes a acercarão. E a abraçarão 7 longos braços. E 7 punhos distintos a unirão. A Ceiba Mãe levantará suas [naguas] e seus mil pés chutarão e desacomadarão os caminhos de ferro. As máquinas de rodas se soltarão de seus caminhos de metal. As águas desdobrarão de rio e lagoas, e o mesmo mar berrará com fúria. Se abrirão as entranhas de solos e céus em todos os mundos.

Então a mais primeira, a terra mãe, se eleverá e reclamará com fogo sua casa e seu lugar. E sobre as soberbas edificações do Poder, avançarão árvores, plantas e animais, e com seus corações viverá de novo o Votán Zapata, guardião e coração do povo. E o jaguar caminhará de novo suas rotas ancestrais, reinando de novo aonde quiseram reinar o dinheiro e seus lacaios.

E o poderoso não morrerá sem antes ver como sua ignorante soberba se colapsa sem nem fazer ruído. E em seu último alento conhecerá o Mandón que já não será mais, talvez uma má lembrança no mundo que se rebelou e resistiu a morte que seu mandar mandava.

E isto dizem que dizem os mortos de sempre, os que morrerão novamente mas então para viver.

E dizem que dizem que se conhece esta palavra nos vales e montanhas; que se saiba nos [cañadas] e planícies; que o repita o passáro tapacamino e assim adverta os passos do coração que anda irmanado; que a chuva e o solo semeie o olhar de quem habita estas terras; e que o vento a leve longe e faça ninho no pensamento companheiro.

Porque coisas terríveis e maravilhosas por vir, verão estes céus e solos.

E o jaguar caminhará de novo suas rotas ancestrais, reinando de novo aonde quiseram reinar o dinheiro e seus lacaios.”

Calou-se o Velho Antonio e, com ele, a chuva. Nada dorme. Tudo sonha.

_*_

Desde as Montanhas do Sudeste Mexicano

SupGaleano

México, Outubro de 2020


Do caderno de apontamentos do Gato-Cachorro: Parte II.- Os cayucos

Recordo-os que as divisões entre países só servem para tipificar o delito de <<contrabando>> e para dar sentido às guerras. É claro que existem, ao menos, duas coisas que estão por cima das fronteiras: uma é o crime que, disfarçado de modernidade, distribui a miséria em escala mundial; a outra é a esperança de que a vergonha só exista quando um se equivoca de passo na dança, e não a cada vez que nos vemos em um espelho. Para acabar com o primeiro e para fazer florescer a segunda, só falta lutar e ser melhores. Ademais se segue só e é o que usualmente lota bibliotecas e museus. Não é necessário conquistar o mundo, basta fazê-lo de novo. Vale. Saúde e saber que, para o amor, uma cama é somente um pretexto; para a dança, a música é somente um adorno; e para lutar, a nacionalidade é somente um acidente meramente circunstancial.

Don Durito de La Lacandona, 1995

SubMoy estava dizendo a Maxo que talvez tentaria com madeira balsa (“corcho”, como dizem aqui), mas o engenheiro naval alegou que por ser mais leve mais a corrente iria arrastar. “Mas você disse que não tem corrente no mar”. “Mas tem”, defendeu-se Maxo. SubMoy disse aos outros comitês que faria o seguinte teste: cayucos [canoas]. 

Se puseram a trabalhar em vários cayucos. Com machados e facões, foram dando forma e vocação marinha a troncos cujo destino original era lenha para fogão. Como o SubMoy se ausentou por alguns momentos, foram perguntar ao SupGaleano se colocariam nomes nas embarcações. O Sup estava olhando como o Monarca revisava un velho motor a diesel, então respondeu distraído: “Sim, claro”. 

Se foram e começaram a desenhar e pintar nos cantos nomes racionais e mesurados. Em um se lia: “O Chompiras Nadador e Pula Poças” [1]. Outro: “O Internacionalista. Uma coisa é uma coisa é outra coisa é don’t fuck me, compadre”. Mais um: “eu venho, não demoro meu amor”. Aquele lá: “[Pos va en su cuenta, pa’ qué m’invitan]”. Os do puy Jacinto Canek batizaram o seu como “Jean Robert” que era seu modo de fazê-lo acompanhar a viagem. 

Em um mais distante era possível ler: “E pra que chorar se o que sobra é água salgada”, e a continuação se estendia “Este barco foi feito pela Comissão Marítima do município autônomo rebelde zapatista “Criticam que colocamos um nome muito grande nos MAREZ e Caracóis, mas vale a pena”, da Junta de Bom Governo “Também”. Produto perecível. Data de validade: depende. Nossas embarcações não afundam, elas expiram, não é o mesmo. Contratações de fabricantes de cayucos e músicos no CRAREZ (não inclui marimba nem equipe de som – porque vai que se afundam e não podemos os substituir -, mas se sentirmos muita vontade de cantar… bem, mais ou menos. Depende, então. Este cayuco só de cotiza nas bolsas de resistênciaContinuará no próximo cayuco…” (claro, teve que dar a volta ao redor do cayuco e olhar as paredes internas para ler o “nome” completo; sim, você tem razão, o submarino inimigo vai demorar tanto tempo em transmitir o nome completo do navio a ser afundado que, quando terminar, a embarcação já terá atracado nas costas europeias). 

Enquanto trabalhavam nos troncos corriam os boatos. O amado Amado contou a Pablito que contou a Pedroso que informou a Defesa Zapatista que consultou com a Esperanza que disse a Calamidade “não diga a ninguém” que contou às mamaces que disse ao grupo “como mulheres que somos”. 

Quando disseram ao SupGaleano que as mulheres estavam vindo, o Sup deu de ombros e passou ao Monarca a chave que chamam de espanhola, de meia polegada, enquanto esculpia pedaços da ponta de seu cachimbo. 

Um tempo depois chegou Jacobo: “Sup, o SubMoy vai demorar?”

“Nem ideia”, respondeu o SupGaleano enquanto olhava desconsolado seu cachimbo quebrado. 

Jacobo: “E você sabe quantos vão viajar?”

O Sup: “Ainda não. A Europa abaixo não respondeu quantos podem receber. Por que?”

Jacobo: “Porque… é melhor vir ver.” 

O SupGaleano quebrou outro cachimbo olhando para a “frota” zapatista. Na beira do rio, os 6 cayucos com nomes extravagantes, alinhados, estavam cheios de vasos e flores. 

“O que é isso?”, perguntou o Sup só por perguntar. 

“É a carga das compañeras”, respondeu Ruben resignado. 

O Sup: “Carga?”

Rubén: “Sim, vieram e disseram apenas “vão precisar disso” e foram deixando essas plantinhas. Logo depois veio uma menina que não sei como se chama, mas que perguntou se a viagem demoraria muito tempo, se demoraria para chegarmos onde vamos. Perguntei por que, se é porque suas mamaces vão também. Me disse que não, que era porque queria enviar uma árvore, assim pequenininha, que de repente se demorarmos na viagem ela chega já crescida e assim podemos fazer uma pausa para o pozol [2] na sua sombra se o sol estiver muito forte.”

“Mas todas são iguais”, disse o Sup (referindo-se às plantas, claro). 

“Não são”, respondeu Alejandra, membro do comitê. “Essa é estafiate, para dor de barriga; essa é tomilho; aquela é hortelã; lá é camomila, orégano, salsinha, coentro, louro, epazote, aloe vera; essa é para se tiver diarreia, essa outra para queimaduras, essa pra insônia, aquela pra dor de dente, essa aqui pra cólicas, essa se chama “cura tudo”, outra ali pra náuseas, também momo, erva moura, cebolinha, arruda, gerânios, cravos, tulipas, rosas, mañanitas e assim por diante.”

Jacobo se sentiu obrigado a esclarecer: “Assim que terminávamos um cayuco quando virávamos pra ver ele já estava cheio de plantas. Outro terminado e outra vez cheio. Já fizemos 6, por isso pergunto se continuamos fazendo mais, porque elas vão continuar a enchê-los.” 

“Mas se enviarem tudo isso, onde vamos colocar os companheiros?” quis argumentar o Sup com uma companheira, coordenadora de mulheres, que carregava dois vasos nos braços e um bebê amarrado às costas. 

“Companheiros? Os homens vão ir?” perguntou ela. 

“Tanto faz, do mesmo jeito as mulheres não vão caber também” alegou o Sup “a beira de um ataque de nervos”. 

Ela: “Ah, é que nós mulheres não vamos no barco. Nós vamos de avião pra não passarmos mal. Bom, sempre passamos um pouco, mas menos.” 

Sup: “E quem disse que vocês vão de avião?” 

Ela: Nós mesmas. 

Sup: E de onde saiu essa ideia que você está me dizendo? 

Ela: “Esperanza chegou na reunião das mulheres e disse que todas vamos morrer miseravelmente se formos com os malditos homens. Então, discutimos em assembleia e chegamos ao acordo de que não temos medo e estamos dispostas e decididas que os homens podem morrer miseravelmente, mas nós não.”

Já fizemos as contas e vamos alugar o avião que Calderón comprou para Peña Nieto, com o qual o mal governo de agora não sabe o que fazer. Dizem que é 500 pesos por pessoa. Nós temos 111 companheiras inscritas, mas acho que ainda faltam os materiais de futebol para as milicianas. Assim, se vamos em 111 seriam 55.000 pesos, mas mulheres e crianças só pagam metade, então seriam 27.750. Falta descontar ainda o IVA 3 a bonificação por gastos de representação, então digamos que seriam 10 mil pesos por todas. Isso se o dólar não desvalorizar, então seria ainda menos. Porém, não queremos reclamação pelo pagamento, então vamos dar o boi do meu compadre, que está igual a não-digo-quem, mas o que vamos fazer, assim são todos os machos. 

O SupGaleano ficou calado, tentando lembrar onde diabos deixou o cachimbo de emergência. Mas quando percebeu que as mulheres começaram a trazer galinhas, galos, franguinhos, porcos, patos e perus disse ao Monarca “Rápido, chame o SubMoy e diga que é muito urgente que ele venha”. 

A procissão de mulheres, plantas e animais se alargava para além dos pastos. Em seguida vinha a fila da Defesa Zapatista: a coluna começava com Pablito, agora no modo “se não pode vencê-las, una-se” levando seu cavalo, seguido de Amado com sua bicicleta – com o pneu furado. Logo o gato-perro pastoreando um rebanho de gado. Defesa e Esperanza mediam os cayucos calculando se entravam as traves de futebol. O cavalo levava no focinho uma rede com garrafas de plástico. Calamidade passou carregando um leitão que gritava aterrorizado, temendo que o jogassem no rio para resgatá-lo depois… por uma boa razão. 

Fechava a coluna alguém que se parecia extraordinariamente com um besouro, com um tapa-olho de pirata no olho direito, um arame torcido em uma das pernas – como um gancho – e na outra uma espécie de perna de madeira, mesmo que não fosse mais do que uma lasca de bejucos esculpidos. O ser estranho, brandindo uma máscara, declama com uma elogiável entonação: 

“Com dez canhões por banda

vento em popa, a toda vela

não corta o mar, mas voa 

um veleiro bergantim. 

Chamam de navio pirata, 

por sua bravura é “O Temido” 

Em todo o mar conhecido 

de um a outro confim.

Quando o Subcomandante Insurgente Moisés retornou, chefe da expedição em formação, encontrou o SupGaleano sorrindo inexplicavelmente. O Sup tinha encontrado outro cachimbo, esse sem quebrar, dentro do bolso da sua calça. 

Dou minha palavra. 

Guau-Miau. 


[1] Chompiras é um caminhão grande conhecido nas regiões zapatistas. 

[2] Pozol é uma bebida chiapaneca feita a base de cacau e milho.

RAÚL ZIBECHI | QUEM SE IMPORTA COM AS ELEIÇÕES NOS ESTADOS UNIDOS?

Traduzido de larazon.cl


Houve um tempo em que as eleições nos Estados Unidos geravam interesse e até entusiasmo no mundo. Não apenas entre as elites políticas, mas também entre a população, havia a crença de que o triunfo de uma ou outra opção poderia mudar o estado das coisas.

Esta convicção desmoronou, pois tanto os democratas quanto os republicanos têm mostrado muito pouca diferença na política internacional. Em meio à campanha eleitoral, os democratas prometem rever a política externa de Trump, não porque a considerem inadequada, mas porque “mais quatro anos com Donald Trump prejudicarão nossa influência em uma extensão irreparável”.

A frase do programa Democrata revela que as intenções dos dois candidatos são idênticas: manter o domínio da superpotência em declínio em todo o planeta.

Os democratas se empenham no mais do mesmo, insistindo no mesmo candidato e até mesmo na mesma iconografia que fracassou em 2016. Talvez seja por isso que o boletim de maio do Laboratorio Europea de Anticipación Política (LEAP) titula a campanha eleitoral, sob uma foto com Biden e uma ex-candidata Hillary Clinton, a ex-candidata democrata, com “O retorno dos mortos vivos”.

“Biden é Hillary Clinton bis”, reflete o LEAP. “Como este grupo tem sido particularmente bem sucedido em assumir o partido Democrata, esse partido não pode mais produzir nada além de Biden e Clinton… uma e outra vez”.

De fato, a candidatura de Biden encarna uma versão dos Estados Unidos que não existe mais, o da Guerra Fria e a hegemonia da população branca e masculina. Maneja um discurso que a grande mídia reconhece como gerando pouco entusiasmo entre os jovens, latinos e negros, uma porção decisiva do eleitorado.

Para remediar esta desvantagem, Biden escolheu Kamala Harris como candidata à vice-presidência, na esperança de que uma mulher não-branca apelasse para um eleitorado que, embora rejeitando a reeleição de Trump, está muito hesitante em apoiar Biden.

Harris atuou como procuradora do distrito de São Francisco de 2004 a 2011 e como procuradora geral da Califórnia de 2011 a 2017 e se descreve como “progressista”. Em julho de 2019, quando Harris competia nas internas dos democratas, Marjorie Cohn, professora de direito na Thomas Jefferson School of Law em San Diego, Califórnia, e ex-presidente da National Bar Association, escreveu um artigo intitulado: “Kamala Harris tem uma distinta carreira a serviço da injustiça”.

Cohn a acusa de “má conduta” por encobrir a existência de informantes nas prisões da Califórnia:

“obter confissões de forma ilegal”;

“incentivando a criminalização do absentismo escolar”;

aumentando as fianças dos prisioneiros usados como mão-de-obra barata;

opondo-se a “investigações independentes do Ministério Público sobre tiroteios policiais que resultaram em mortes”.

Cohn diz que não há nada de progressista na candidata à vice-presidência de Biden. Segundo o filósofo e jornalista francês Philippe Grasset, diretor da revista De Defense, Harris tem “a reputação de ser uma pessoa dura, do tipo lei e ordem”, além de ser “extremamente rica”, pertencente ao famoso 0,1% com faturamento de US$ 1,8 milhões em 2018.

Por sua vez, o LEAP considera que a eleição nos EUA não é mais “o centro de interesse do planeta” e que embora não houvesse primárias por causa da pandemia, os que revelarão as velhas guardas “parecem estar cruzando as fendas do pavimento bipartidário”.

O fundamental é que o thinktank francês considera Trump como “o coveiro da velha América”, auxiliado pela pandemia de coronavírus. “Trump encarnou o excesso de uma certa América, e ao fazê-lo, pôs um fim a ela”. Para explicar esta afirmação, apresenta uma dezena de “revelações”.

A primeira é que Trump “revelou a vulgaridade de uma cultura empresarial que os Estados Unidos vinham infligindo ao mundo há décadas”; assim como “o machismo e o racismo arraigados do sistema de poder americano, despertando a sociedade civil de sua letargia”.

Mas também revelou a fraqueza dos EUA que não tem mais os meios para perseguir seus objetivos globais. Entre eles, um dos mais destacados gira em torno “do problema da presença dos EUA no Oriente Médio”, revelando que é a potência que cria os problemas que são incapazes de resolver.

Entre outras “revelações”, o LEAP assegura que a presidência de Trump mostrou a dependência dos EUA da China e do mundo, enquanto que a pandemia “é o último golpe mortal para o sistema sanitário e social da principal potência mundial”. Em resumo, sob Trump o império aparece nu, sendo o momento de máxima inflexão do sistema dívida-petróleo-dólar que mantém o planeta como refém.

Finalmente, a questão da desigualdade, que está crescendo de forma constante e atingindo níveis insustentáveis. O último relatório anual do Instituto de Política Econômica afirma que os salários dos CEOs das 350 maiores empresas dos EUA são 320 vezes mais altos do que o salário médio do trabalhador.

Em 2019, os ganhos dos principais CEOs cresceram 14% em relação a 2018. Mas o fato mais importante é que em 1989 a diferença de renda entre CEOs e trabalhadores era de 61 para 1, indicando que a diferença de renda quintuplicou em apenas três décadas.

Os autores do boletim acreditam que os salários dos CEO poderiam aumentar novamente até 2020, apesar do colapso econômico causado pelo coronavírus.

A desigualdade está destruindo os sonhos dos jovens, das minorias raciais e dos migrantes, que saíram às ruas para denunciar a violência policial após o assassinato do afro-americano George Floyd em 25 de maio. Mas a enorme desigualdade também destrói a legitimidade do sistema político norte-americano e neutraliza a democracia.

Quando se entra em uma crise sistêmica, as diferenças entre as propostas políticas que são formuladas internamente deixam de ser alternativas porque aderem à continuidade do que já existe e temem modificá-lo, o que explica porque ambos os partidos nos Estados Unidos preferem afundar com o sistema antes de correr o risco de modificá-lo.

BAIXE GRATUITAMENTE O LIVRO “CLASSE DOMINANTE E EDUCAÇÃO EM TEMPOS DE PANDEMIA”

Disponibilizamos hoje para download o e-book que fizemos para o Laboratório de Investigação em Estado, Poder e Educação (LIEPE) da UFRRJ, intitulado “Classe dominante e educação em tempos de pandemia: uma tragédia anunciada”, organizado pelo professor Rodrigo Lamosa. A obra conta com 12 artigos que buscam compreender a ação e as ideias de diversas instituições vinculadas ao projeto burguês de educação em relação as medidas impostas ao ensino durante a pandemia. O livro está armazenado na Biblioteca Virtual David Graeber, que conta também com outras obras feitas por nós da Terra sem Amos. Também pode ser baixado no site do LIEPE, em https://liepe.amandy.com.br

PRÉ-VENDA: O PENSAMENTO ÍNDIO CONTRA A COLONIALIDADE: TEXTOS ESCOLHIDOS DE FAUSTO REINAGA

Em memória ao Dia da Resistência Indígena, é com felicidade que comunicamos o lançamento da obra “O pensamento índio contra a colonialidade: textos escolhidos de Fausto Reinaga”, a primeira obra do potente pensador e escritor indígena boliviano em língua portuguesa. No livro, que conta com dois textos (“O Pensamento Índio” e “América: 500 anos de escravidão, fome e massacre”), Reinaga expõe sua crítica à filosofia europeia, e busca na ciência prática dos povos da América a contraposição aos saberes coloniais que marcaram e marcam o ser e o fazer da vida no continente. Pontuamos ainda que a produção desta obra só foi possível graças ao apoio Fundación Amaútica Fausto Reinaga, a quem agradecemos pela gentileza e presteza no contato.

“O pensamento índio contra a colonialidade: textos escolhidos de Fausto Reinaga” tem sua primeira tiragem em 50 cópias, e todas elas acompanham, gratuitamente, o pôster “A América não foi descoberta”. Avisamos ainda que até amanhã disponibilizaremos o livro para download livre e gratuito.

O livro tem o valor de R$ 15,00 com frete grátis para todo o país, podendo ser adquirido pelo link em nossa bio do instagram ou em https://linktr.ee/tsa.editora


“O pensamento índio é o pensamento da América.
O pensamento índio enterra o pensamento da Europa.
O pensamento índio não surge como o pensamento europeu a partir de uma mitologia.
O pensamento índio nasce da ciência e salva a humanidade”.

– Fausto Reinaga.

FREEDOM FOR OCALAN | QUEM É ABDULLAH ÖCALAN?

Traduzido a partir da Campanha Internacional “Freedom for Öcalan” do Reino Unido. Link em: http://bit.do/fKbnJ

Abdullah Ocalan é o líder reconhecido do movimento de libertação curdo. Preso desde 1999, suas idéias e sua visão serviram de inspiração e modelo de orientação para os curdos na Turquia e na Síria.

Carinhosamente conhecido como ‘Apo’ (abreviação para Abdullah e Tio em curdo), Öcalan é central para o necessário processo de paz para acabar com a guerra da Turquia contra o povo curdo. Na Síria, suas idéias inspiraram a revolução em Rojava – a primeira sociedade verdadeiramente democrática do Oriente Médio.

Ocalan fundou o movimento de libertação curdo em 1974 em resposta à opressão militar que os curdos sofriam da Turquia. No auge da Guerra Fria, Öcalan foi influenciado pelas idéias socialistas marxistas e estava naquela época empenhado em criar um estado separado para o povo curdo.

Desde 2005 Öcalan transformou a política do movimento de libertação com novas idéias baseadas na auto-liberação das mulheres, na ecologia e na democracia de base como uma alternativa ao Estado-nação.

A partir de sua cela na prisão, Öcalan continuou a desenvolver estas idéias em uma filosofia conhecida como Confederalismo Democrático. Com raízes na história da região e no movimento internacional dos trabalhadores, estas idéias representam o socialismo para o século 21.

A importância das idéias de Öcalan
As idéias de Abdullah Öcalan vão muito além da luta dos curdos. A mudança das antigas idéias dos Estados-nação em favor dos movimentos democráticos oferece uma nova solução para toda a região – especialmente para o conflito israelense e palestino.

No Reino Unido, as idéias de Öcalan sobre a importância de uma democracia genuína como resposta e defesa contra os poderosos ecoam a história e as idéias de nosso movimento sindical.

Quem é Abdullah Ocalan? Öcalan nos lembra que os sindicatos existem para dar poder aos membros e desafiar coletivamente o poder.

Quem é Abdullah Ocalan? O Mandela curdo
Como líder preso do movimento de libertação curdo, Abdullah Öcalan é um símbolo poderoso do desejo de paz do povo curdo.

Öcalan foi sequestrado e entregue ao serviço de inteligência quase vinte anos atrás, em 1999.

Condenado inicialmente à morte, Öcalan foi preso na ilha İmralı no Mar de Mármara – a “Ilha Robben” turca.

O governo turco alega que nenhuma lei nacional ou internacional se aplica à ilha prisional, usando-a como sua própria Baía de Guantanamo.

Em 2002, a sentença de morte inicial de Öcalan foi comutada para prisão perpétua. Preso na solitária, Öcalan usou sua defesa legal para defender um processo de paz e desenvolver as idéias que seriam usadas como um projeto para a sociedade democrática curda em Rojava.

De 2015 a 2019 Abdullah Öcalan não teve permissão para se encontrar com seus advogados, ter qualquer visita ou qualquer contato com o mundo exterior. Somente em maio de 2019 aconteceram duas reuniões com advogados, mas não está claro de modo algum que estas reuniões continuarão.

“Faço parte da luta curda. Eu sou um de vocês”. Em sua mensagem de 1997 aos curdos, Nelson Mandela explicou as semelhanças entre a batalha contra o apartheid na África do Sul e a luta pela liberdade curda.

A campanha para libertar Mandela foi construída de baixo para cima, por sindicalistas e ativistas pela paz em solidariedade com o ANC.

Hoje a campanha Liberdade para Öcalan continua esta tradição, encarnando a crença do sindicalista de que uma lesão a um é uma lesão a todos.

EZLN | QUINTA PARTE: O OLHAR E A DISTÂNCIA DA PORTA.

Tradução: Editora Terra sem Amos e Teia dos Povos


Quinta Parte: O OLHAR E A DISTÂNCIA DA PORTA.

Outubro de 2020.

Suponhamos que seja possível escolher, por exemplo, o olhar. Vamos supor que você possa se libertar, mesmo por um momento, da tirania das redes sociais que impõem não apenas o que você vê e o que você fala, mas também como você deve ver ou falar. Então, vamos supor que você olhe para cima. Mais acima: de imediato ao local, ao regional, ao nacional e ao global. Você vê? Certo, um caos, uma bagunça, uma desordem. Então vamos supor que você é um ser humano; enfim, que você não é um aplicativo que, rapidamente, olha, classifica, hierarquiza, julga e sanciona. Então você escolhe o que olhar… e como olhar. Poderia ser, é uma suposição, que olhar e julgar não são a mesma coisa. Assim, você não apenas escolhe, mas também decide. Mudar a pergunta de “isso é errado ou certo?” para “o que é isso?”. Claro, a primeira questão leva a um saboroso debate (ainda há debates?). E dali para o “Isso é errado – ou certo – porque eu estou dizendo”. Ou, talvez, haja uma discussão sobre o que é certo e errado, e daí para discussões e notas de rodapé. Certo, você tem razão, isso é melhor do que recorrer a “likes” e “mãozinhas para cima”, mas eu propus mudar o ponto de partida: escolher o destino do seu olhar.

Por exemplo: você decide olhar os muçulmanos. Você pode escolher, por exemplo, entre aqueles que perpetraram o ataque a Charlie Hebdo ou aqueles que estão agora marchando pelas estradas da França para reivindicar, exigir e impor seus direitos. Já que você chegou a estas linhas, é muito provável que você escolha os “sans papiers”. Naturalmente, você também se sente obrigado a dizer que Macron é um imbecil. Mas, ignorando esse rápido olhar para cima, você volta a olhar as concentrações, acampamentos e marchas de migrantes. Você se pergunta sobre a quantidade. Eles parecem muitos, ou poucos, ou demasiados, ou suficientes. Você passou da identidade religiosa para a quantidade. E então você se pergunta o que eles querem, por que eles estão lutando. E aqui você decide se vai à mídia e às redes para descobrir… ou os escuta. Suponha que você pode perguntar a eles. Perguntará quantos são em sua crença religiosa? Ou o motivo de deixarem suas terras e decidiram ir para solos e céus que possuem outra língua, outra cultura, outras leis, outros modos? Talvez eles lhe respondam com uma palavra: guerra. Ou talvez eles detalhem o que essa palavra significa na realidade deles. Guerra. Você decide investigar: guerra onde? Ou, melhor ainda, por que esta guerra? Então você está sobrecarregado de explicações: crenças religiosas, disputas territoriais, pilhagem de recursos, ou simples e claramente, estupidez. Mas você não está satisfeito e pergunta quem se beneficia com a destruição, o despovoamento, a reconstrução, o repovoamento. Encontra os dados de várias corporações. Investiga as corporações e descobre que elas estão em vários países, e que fabricam não apenas armas, mas também carros, foguetes interestelares, fornos microondas, serviços de encomendas, bancos, redes sociais, “conteúdo de mídia”, roupas, telefones celulares e computadores, calçados, alimentos orgânicos e não orgânicos, companhias de navegação, vendas on-line, trens, chefes de governo e armários, centros de pesquisa científica ou não, cadeias de hotéis e restaurantes, “fast food”, companhias aéreas, usinas termoelétricas e, é claro, fundações de ajuda “humanitária”. Você poderia dizer, então, que a responsabilidade é da humanidade ou do mundo inteiro.

Mas você se pergunta se o mundo ou a humanidade também não são responsáveis por esta marcha, concentração, acampamento de migrantes, dessa resistência. E então você chega à conclusão de que, talvez, provavelmente, seja todo um sistema que é responsável. Um sistema que produz e reproduz a dor, os que a infligem assim como os que sofrem com ela.

Agora, olhe a marcha ao longo das estradas da França. Suponha que são poucos, muito poucos, que é só uma mulher carregando seu bebezinho. Você se importa agora com sua crença religiosa, sua língua, suas roupas, sua cultura, seus modos? Você se importa que seja apenas uma mulher carregando um bebezinho? Agora esqueça a mulher por um momento e concentre sua atenção somente na criança. Importa se é um menino ou uma menina ou outre? Sua cor de pele? Talvez você descubra, agora, que é sua vida que importa.

Agora, vá mais além, afinal de contas, você já alcançou estas linhas, portanto, mais algumas não vão te machucar. Ok, não muito.

Suponha que essa mulher fale com você e você tenha o privilégio de entender o que ela diz. Você acha que ela vai exigir que você lhe peça desculpas por causa da cor da sua pele, sua crença religiosa ou não, sua nacionalidade, seus antepassados, sua língua, seu gênero, seus modos? Você espera que ela lhe perdoe e que você volte à sua vida com essa conta paga? Ou que ela não lhe perdoe e você se diga “bem, pelo menos eu tentei e lamento sinceramente por quem sou”?

Ou você tem medo de que ela não fale com você, que ela apenas lhe olhe silenciosamente, e você sinta aquele olhar perguntando “E você, o que quer”?

Se você chegar a este raciocínio-sentimento-angústia-desespero, então, sinto muito, você não tem cura: você é um ser humano.

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Sabendo que você não é um bot, repita o exercício na Ilha de Lesbos; no Rochedo de Gibraltar; no Canal da Mancha; em Nápoles; no rio Suchiate; no Rio Bravo.

Agora dirija seu olhar e procure a Palestina, Curdistão, Euskadi e Wallmapu. Sim, eu sei, está um pouco tonto… e isso não é tudo. Mas nesses lugares, há aqueles (muitos ou poucos ou demasiados ou suficientes) que também lutam pela vida. Mas acontece que eles concebem a vida como sendo inseparavelmente ligada à sua terra, sua língua, sua cultura, seu modo de vida. É isso que o Congresso Nacional Indígena nos ensinou a chamar de “território”, e que não é apenas um pedaço de terra. Você não se sente tentado a fazer com que esse povo lhe conte sua história, sua luta, seus sonhos? Sim, eu sei, talvez seja melhor para você ir na Wikipédia, mas você não se sente tentado a ouvi-los diretamente e tentar entendê-los?

Volte agora ao que está entre o Rio Bravo e Suchiate. Vá para um lugar chamado “Morelos”. Uma nova aproximação no município de Temoac. Foque agora na comunidade de Amilcingo. Você vê aquela casa? É a casa de um homem que em vida foi chamado Samir Flores Soberanes. Na frente daquela porta ele foi assassinado. Seu crime? Opor-se a um mega-projeto que representa a morte para a vida das comunidades às quais pertence. Não, eu não cometi um erro na escrita: Samir foi assassinado não por defender sua vida individual, mas pela vida de suas comunidades.

Mais ainda: Samir foi assassinado por defender as vidas de gerações que sequer foram pensadas. Porque para Samir, para seus companheiros e companheiras, para os povos originários agrupados na CNI, e para nós, os Zapatistas, a vida da comunidade não é algo que acontece apenas no presente. É, acima de tudo, o que virá. A vida da comunidade é algo que se constrói hoje, mas para o amanhã. Então a vida comunitária é algo que se herda. Você acha que tudo se acerta se os assassinos – o intelectual e o material – pedirem perdão? Você acha que sua família, sua organização, a CNI, nós, ficaremos satisfeit@s se os criminosos pedirem perdão? “Perdoe-me, eu o indiquei para que os pistoleiros o executassem, e sempre fui um arrogante falador. Me corrigirei, ou não. Já pedi seu perdão, agora retire sua concentração daqui e vamos terminar a termoelétrica, porque se não, muito dinheiro será perdido”. Você acha que é isso que esperam, esperamos, que é por isso que lutam, lutamos? Que declarem “com licença, sim, nós assassinamos Samir e, ao passarmos com este projeto, assassinamos suas comunidades”. Portanto, nos perdoe. E se não nos perdoarem, isso não nos importa, o projeto tem que ser concluído”?

E acontece que as mesmas pessoas que pediriam perdão pela usina termoelétrica são as mesmas pessoas do trem erroneamente chamado “Maya”, as mesmas pessoas do “corredor transístmico“, as mesmas pessoas das barragens, minas a céu aberto e usinas elétricas, os mesmos que fecham as fronteiras para deter a migração causada pelas guerras que elas mesmas alimentam, as mesmas pessoas que perseguem os Mapuche, as mesmas pessoas que massacram os Curdos, os mesmos que destroem a Palestina, os mesmos que atiram em afro-americanos, os mesmos que exploram (direta ou indiretamente) trabalhadores em qualquer canto do planeta, os mesmos que cultivam e glorificam a violência de gênero, os mesmos que prostituem crianças, os mesmos que espionam você para descobrir o que você gosta e lhe vender isso – e se você não gosta nada, eles fazem você gostar – os mesmos que destroem a natureza. As mesmas pessoas que querem que você, outros e nós acreditemos que a responsabilidade por este crime global e contínuo é responsabilidade das nações, das religiões, da resistência ao progresso, dos conservadores, das línguas, das histórias, dos modos. Que tudo é sintetizado em um indivíduo… ou indivídua (sem esquecer a paridade de gênero).

Se fosse possível ir a todos esses cantos deste planeta moribundo, o que você faria? Bem, nós não sabemos. Mas nós, Zapatistas, iríamos e aprenderíamos. Claro, para dançar também, mas uma coisa não exclui a outra, eu acho. Se houvesse essa oportunidade, estaríamos dispost@s a arriscar tudo, tudo. Não apenas nossa vida individual, mas também nossa vida coletiva. E se essa possibilidade não existisse, nós lutaríamos para criá-la. Para construí-lo, como se fosse um navio. Sim, eu sei, é uma loucura. Algo impensável. Quem pensaria que o destino daqueles que resistem à usina termoelétrica, em um pequeníssimo canto do México, poderia interessar à Palestina, aos mapuches, aos bascos, aos imigrantes, aos afro-americanos, aos jovens ambientalistas suecos, aos guerreiros curdos, às mulheres que lutam em outra parte do planeta, ao Japão, à China, às coreanas, à Oceania, à mãe África?

Não deveríamos, em vez disso, ir, por exemplo, a Chablekal, em Yucatan, às instalações da Equipo Indignación, e perguntar-lhes: “Ei! Vocês são de pele branca e são crentes, peçam perdão! Tenho quase certeza que eles responderiam: “Sem problemas, mas espere sua vez, porque agora estamos ocupados acompanhando aqueles que resistem ao Trem Maia, aqueles que sofrem espoliação, perseguição, prisão, morte”. E acrescentariam:

“Também temos que lidar com a acusação que a Suprema Corte fez de que somos financiados pelos Illuminatti como parte de um plano interplanetário para deter a 4T”. O que tenho certeza é que eles usariam o verbo “acompanhar”, e não “dirigir”, “comandar”, “liderar”.

Ou devemos apenas invadir a Europa com o grito de “rendam-se caras-pálidas! “e destruir o Parthenon, o Louvre e o Prado, e em vez de esculturas e pinturas, encher tudo com bordados Zapatista, especialmente as passamontanhas Zapatistas – que, por sinal, são eficazes e bonitas – e, em vez de massas, frutos do mar e paella, impor o consumo de milho, cacau e yerba mora; em vez de refrigerantes, vinho e cerveja, “pozol” obrigatório; e quem sai na rua sem balaclava, multa ou prisão (sim, opcional, porque também não se deve exagerar); e exclamar “A esses roqueiros, marimba obrigatória! E de agora em diante, cumbias! nada de reggaeton (tentador, não?). Vamos ver Panchito Varona e Sabina, os demais nos coros, arranquemos com “Cartas Marcadas”, e em loop, ainda que nos limitem até às dez, às onze, às doze, à uma, às duas e às três… e já, porque amanhã temos que madrugar! Ouves outro tu, ex-rei pé-em-polvorosa, deixa em paz esses elefantes e te põe a cozinhar! Sopa de abóbora para toda à corte! (eu sei, minha crueldade é estranha)?

Agora me diga: você acha que o pesadelo dos de cima é que sejam forçados a pedir perdão? Não será que sonham com coisas horríveis, que desapareçam, que não importem, que não sejam levados em consideração, que não sejam nada, que seu mundo desmorone sem fazer nenhum barulho, sem nada que lembre deles, que ergam estátuas, museus, canções, feriados? Será que eles têm pânico desta realidade possível?

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Foi uma das poucas vezes em que o falecido SupMarcos não recorreu a um exemplo cinematográfico para explicar algo. Porque, vocês não devem saber, nem eu deveria contar, mas o defunto poderia se referir às etapas de sua curta vida, cada uma delas, a um filme. Ou fazer uma explicação da situação nacional ou internacional com um “como podemos ver em filme tal”. Naturalmente, mais de uma vez tive que reescrever o texto para adequá-lo à narrativa. Como a maioria de nós não havia visto o filme em questão e não tínhamos sinal de celular para consultar a Wikipedia, acreditávamos nele. Mas não nos desviemos do assunto. Espere, acho que ele deixou escrito em um daqueles papéis que enchem seu baú de lembranças… Aqui está! Vejam:

“Para entender nosso compromisso e o tamanho de nossa ousadia, imagine que a morte é uma porta que se cruza. Haverá muitas e variadas especulações sobre o que está por trás daquela porta: céu, inferno, limbo, nada. E sobre essas escolhas, dezenas de descrições. A vida, portanto, poderia ser entendida como o caminho para esta porta. A porta, a morte então, seria assim um ponto de chegada… ou uma interrupção, o impertinente corte da ausência ferindo o ar da vida.

Essa porta seria então alcançada pela violência da tortura e do assassinato, a infelicidade de um acidente, a dolorosa passagem por essa porta por uma doença, cansaço, desejo. Em outras palavras, embora na maioria das vezes se chegasse a essa porta sem desejar ou pretender, também seria possível que fosse uma escolha.

Nos povos originários, hoje Zapatistas, a morte era uma porta colocada quase no início da vida. As crianças a encontrariam antes dos cinco anos de idade e a atravessariam em meio a febres e diarreias. O que fizemos em 1º de janeiro de 1994, foi tentar afastar aquela porta. É claro que tínhamos que estar dispostos a passar por ela para assim fazê-lo, mesmo que não quiséssemos. Desde então, todos os nossos esforços têm sido, e ainda são, afastar essa porta o mais longe possível. “Prolongar a expectativa de vida”, diriam os especialistas. Mas uma vida digna, acrescentamos. Afastá-la até que seja posta de lado, mas muito à frente do caminho. É por isso que dissemos no início da insurgência que “para viver, morremos”. Porque se não herdarmos a vida, isto é, o caminho, então para que viveremos”?

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Herdar a vida.

Era precisamente com isso que Samir Flores Soberanes estava preocupado. E é isso que pode sintetizar a luta da Frente Popular em Defesa da Água e da Terra de Morelos, Puebla e Tlaxcala, em sua resistência e rebeldia contra a termoelétrica e o chamado “Proyecto Integral Morelos”. Às suas exigências de parar e fazer desaparecer um projeto de morte, o mau governo responde argumentando que muito dinheiro seria perdido.

Ali, em Morelos, o confronto atual ao redor do mundo é sintetizado: dinheiro versus vida. E nesse confronto, nessa guerra, nenhuma pessoa honesta deve ser neutra: nem com dinheiro, nem com a vida.

Portanto, poderíamos concluir, a luta pela vida não é uma obsessão dos povos originários. É antes… uma vocação… e coletiva.

Certo. Saúde, e não esqueçamos que perdão e justiça não são a mesma coisa.

Desde as montanhas de Los Alpes, duvidando qual invadir primeiro: Alemanha, Áustria, Suíça, França, Itália, Eslovênia, Mônaco, Liechtenstein? Naah, é brincadeira… ou não?

O SupGaleano praticando seu “vômito” mais elegante.

México, outubro de 2020.

Do Caderno de Apontamentos do Gato-Cachorro: Um montanha em alto-mar. Parte I: A balsa.

“Y nos mares de todos os mundos que no mundo são,

se olham montanhas que se movem sobre a água e, com ela

rosto negado, mulheres, homens e outroas sobre elas”.

“Crônicas do amanhã”. Don Durito de La Lacandona. 1990.

À terceira tentativa fracassada, Maxo ficou pensativo, depois de uns segundos, exclamou: “Quero laço”. “Eu lhe disse”, obviou Gabino. O restante da balsa flutuavam dispersos, chocando uns com os outros ao gosto da corrente do rio que, fazendo honra a seu nome de “Colorado”, se pintava do barro avermelhado que arrancava das margens.

Chamaram então um esquadrão miliciano de cavalaria, que chegou ao ritmo da “Cumbia sobre el Río Suena”, del maestro Celso Piña. Foram empatando os laços e fizeram dois vãos largos. Mandaram uma equipe do outro lado do rio. Amarrados a seus laços à balsa, ambos grupos poderiam controlar o trajeto do navio sem que acabasse desfeito, arrastado o maço de troncos por um rio que nem sequer dava por inteiro à navegação.

O despropósito em curso surgiu depois de que se decidiu a invasão…, perdão, a visita aos cinco continentes. E pois já de qualquer jeito. Porque, quando se voltou, e ao final o SupGaleano lhes disse “estão loucos, não teremos barco”, Maxo respondeu: “faremos um”. Rápido começaram a fazer propostas.

Como todo o absurdo em terras zapatistas, a construção do “barco” convocou a banda de Defesa Zapatista.

“As companheiras vão morrer miseravelmente”, sentenciou Esperança, com seu já lendário otimismo (em algum livro a criança encontrou essa palavra e entendeu que era para se referir a algo horrível e irremediável, e a usa ao gosto: “Minhas mamães me pentearam miseravelmente”, “a mestre me pôs de lado miseravelmente”, e assim), quando da quarta tentativa, a balsa se desmantelou quase imediatamente.

“E os companheiros”, o Pedrito se sentiu obrigado a acrescentar, duvidando se a solidariedade de gênero era conveniente neste destino… miserável.

“Nann”, replicou Defesa. “Companheiros como queira repor, mas companheiras… onde vão a encontrar? Companheira, de verdade companheira, não uma qualquer”.

O bando de Defesa estava colocada estrategicamente. Não para contemplar os avatares dos comitês para construir o barco. Defesa e Esperança tinham tomado das mãos da Calamidade, que já tinha tentado duas vezes se lançar no rio para resgatar a balsa, e em ambas foi derrubada por Pedrito, o Pablito e o amado Amado. O cavalo manco e o gato-cachorro foram atropelados desde o arranque. Preocupavam-se desnecessariamente. Quando o SupGaleano viu que chegava a horda, designou 3 pelotões de milicianas na margem do rio. Com sua habitual diplomacia e sem deixar de sorrir, o Sup lhes disse: “Se essa criança chegar na água, todas morrem”.

Depois do êxito na sexta tentativa, os comitês experimentaram carregando a balsa do que chamaram “coisas essenciais” para a viagem (uma espécie de kit de sobrevivência zapatista): um saco de tortillas, panela, uma saca de café, algumas bolas de pozol [massa de milho fermentada], um terço de lenha, um pedaço de lona para si chover. Ficaram contemplados e se deram conta de que algo faltava, Claro, não tardaram em trazer uma marimba. 

Maxo foi onde o Monarca e o SupGaleano revisavam uns desenhos dos que lhes contarei em outra ocasião e disse: “Oi, Sup, quero que lhes envie carta aos do outro lado: que busquem um laço e que o suspendam para que este seja bem cumprido, e lancem até aqui e então desde as duas margens vamos movendo o “barco”. Mas quero que se organizem, porque se cada um lançar uma corda por seu lado, pois assim não chegará. Quero que os levantem, pois, e organizados”.

Maxo não esperou que o SupGaleano saísse de seu desconcerto e tratara de lhe explicar que havia uma grande diferença entre uma balsa feita com troncos amarrados com liana [planta] e um barco para cruzar o Atlântico.

Maxo se foi a supervisionar a prova da balsa com toda impertinência. Discutiram quem subiria para provar com as pessoas, mas o rio se remexia com um humor fúnebre, assim que optaram por fazer um boneco e fixá-lo no meio da embarcação. Maxo era como o engenheiro naval porque, faz anos, quando uma delegação zapatista foi apoiar ao acampamento Cucapá, se meteu no Mar de Cortês. Maxo não explicou que quase se afoga porque a passamontanhas grudou no nariz e na boca e não conseguia respirar. Como um lobo do mar explicou: “é como um rio, mas sem correnteza, e mais largo, um bom tanto, como a lagoa de Miramar”.

O SupGaleano estava tratando de decifrar como se diz “laço” em alemão, italiano, francês, inglês, grego, euskera, turco, sueco, catalão, finlandês, etc., quando a major Irma se aproximou e lhe disse “põe que [elas] não estão sós”. “Nem [eles] sós”, agregou o tenente coronel Rolando. “Nem soas” [junção de gêneros], aventurou a Marijose, que chegou para pedir aos músicos que façam uma versão de Lago dos Cisnei, mas em cumbia. “Assim, alegre pois, que dancem, que não esteja triste seu coração”. Os músicos perguntaram que coisa é “cisnei”. “São como patos, mas mais bonitinhos, como que esticassem seus pescoços e assim ficaram. Tipo como se fossem girafas, mas caminham como patos”. “Se comem?”, perguntaram os músicos, que sabiam que já era a hora do pozol e só tinham chegado para deixar a marimba. “Como crês! Os cisnes dançam”. Os músicos disseram que uma versão de “pinto com fritas” poderia servir. “Vamos estudar”, disseram e se foram a tomar pozol.

Enquanto tanto Defesa Zapatista e Esperança convenciam a Calamidade de que, posto que o SupGaleano estava ocupado, sua cabana estava vazia e era muito provável que tivesse escondido um pacote de mantecadas [doce feito com gordura de porco] na caixa do tabaco. Calamidade duvidava, assim que tiveram que decidir-lhe que lá poderiam jogar as pipocas. Se foram. O Sup lhes viu afastar-se, mas não se preocupou, era impossível que encontrasse o esconderijo das mantecadas, ocultas sob bolsas de tabaco com cogumelos, e, se dirigindo ao Monarca e assinalando uns diagramas, lhe perguntou “Estás seguro de que não afunda? Porque logo se vê que estará pesado”. O Monarca ficou pensando e respondeu: “De repente”. E logo disse, sério: “pois que levem bexigas, assim flutuam”.

O Sup suspirou e disse: “mais que um barco, o que necessitamos é um pouco de prudência”. “E mais laço”, assinalou o SubMoy, que ia chegando justo no momento em que a balsa, com o topo da carga, se afundava”.

Enquanto na margem o grupo de Comitês contemplava os restos do naufrágio e a marimba flutuando de cabeça pra baixo, alguém disse: “sorte que não subimos a equipe de som, esse é mais caro”.

Todos aplaudiram quando saiu flutuando o boneco de trapos. Alguém, previsor, lhe tinha posto, sob os braços, duas bexigas infladas.

Dou fé.

Miau-Au.

Vídeos:

ABERTA A VENDA DA REVISTA LÊGERÎN #2 EM PORTUGUÊS!

É com imenso prazer que abrimos hoje a venda da segunda edição da Revista Lêgerîn, uma publicação trimestral de apoio e difusão do Confederalismo Democrático, teoria desenvolvida por Abdullah Öcalan que orienta e anima a luta de libertação curda, especialmente a Revolução de Rojava. Em curdo, “Lêgerîn” significa “busca pela liberdade”. É também uma homenagem a médica internacionalista e revolucionária Alina Sanchez, conhecida como Sehîd Legerîn Azadî, nascida na Argentina, que tomou parte na luta do povo curdo ingressando nas Unidades de Proteção das Mulheres (YPJs), sendo martirizada em março de 2018.

Nesta edição, a Revista trata com mais ênfase da luta das mulheres curdas, antipatriarcado e autonomia. Suas edições podem ser acessadas livre e gratuitamente, em quatro línguas, no site www.revistalegerin.com, e terá a venda impressa no valor de R$ 22,00 com frete grátis para todo o país, por nós e pela Editora Lampião. Para comprar, basta acessar o link em nossa bio ou em https://linktr.ee/tsa.editora


“Insistir no Socialismo é insistir na humanidade”

(Abdullah Öcalan)

EZLN | SEXTA PARTE: UMA MONTANHA EM ALTO MAR

Fonte: Radio Zapatista

COMUNICADO DO COMITÊ INDÍGENA REVOLUCIONÁRIO CLANDESTINO – COMANDO GERAL DO EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL

MÉXICO, 5 DE OUTUBRO DE 2020.

Ao Congresso Nacional Indígena – Conselho Indígena de Governo
Para a Sexta Nacional e Internacional:
Para as Redes de Resistência e Rebeldia:
Para as pessoas honestas que resistem em todos os cantos do planeta:


Irmãs, irmãos, irmanes:
Companheiros, companheiras, companheires:

Os povos originários de raízes maias e zapatistas, os cumprimentamos e lhes dizemos o que surgiu em nosso pensamento comum, de acordo com o que vimos, ouvimos e sentimos.

Primeiro. – Olhamos e escutamos um mundo que está doente em sua vida social, fragmentado em milhões de pessoas distantes umas das outras, empenhadas em sobreviver como indivíduos, mas unidas sob a opressão de um sistema que está disposto a fazer qualquer coisa para saciar sua sede de lucro, mesmo quando é claro que sua trajetória vai contra a existência do planeta Terra.

A aberração do sistema e sua estúpida defesa do “progresso” e da “modernidade” está se chocando contra uma realidade criminosa: o feminicídio. O assassinato de mulheres não tem cor ou nacionalidade, é mundial. Se é absurdo e irracional que alguém seja perseguido, desaparecido, morto por causa de sua cor de pele, sua raça, sua cultura, suas crenças; não se pode acreditar que ser mulher é equivalente a uma sentença de marginalização e morte.

Em uma escalada previsível (assédio, violência física, mutilação e assassinato), com a garantia de impunidade estrutural (“ela merecia”, “ela tinha tatuagens”, “o que estava fazendo naquele lugar numa hora dessas?”, “com aquela roupa era de se esperar”), os assassinatos de mulheres não têm outra lógica criminosa senão a do sistema. De diferentes estratos sociais, diferentes raças, idades que vão da primeira infância à velhice, e em geografias distantes, o gênero é a única constante. E o sistema é incapaz de explicar por que isto anda de mãos dadas com seu “desenvolvimento” e “progresso”. Na escandalosa estatística de mortes, quanto mais “desenvolvida” for uma sociedade, maior será o número de vítimas nesta verdadeira guerra de gênero.

E a “civilização” parece nos dizer: “a prova de seu subdesenvolvimento está em seu baixo índice de feminicídio. Tenham seus mega-projetos, seus trens, suas termoelétricas, suas minas, suas represas, seus centros comerciais, suas lojas de eletrodomésticos – com canais de televisão inclusos – e aprendam a consumir. Sejam como nós. Para pagar a dívida desta ajuda progressista, não bastam suas terras, suas águas, suas culturas, suas dignidades. Devem complementar com a vida das mulheres”.

Segundo. – Olhamos e escutamos a natureza, ferida de morte, que, em sua agonia, adverte a humanidade de que o pior ainda está por vir. Cada catástrofe “natural” anuncia a próxima e convenientemente esquece que é a ação de um sistema humano que a causa.

Morte e destruição não são mais algo distante, limitado a fronteiras, costumes e convenções internacionais. A destruição em qualquer canto do mundo tem repercussões em todo o planeta.

Terceiro. – Olhamos e escutamos os poderosos se retirando e se escondendo nos chamados Estados Nacionais e seus muros. E, nesse impossível salto para trás, revive o nacionalismo fascista, o chauvinismo ridículo e a verborreia ensurdecedora. Nisto advertimos sobre as guerras futuras, aquelas que se alimentam de histórias falsas, ocas e mentirosas e que traduzem nacionalidades e raças em supremacia que serão impostas através da morte e destruição. Nos diferentes países a disputa é vivida entre os capatazes e aqueles que aspiram a suceder-lhes, escondendo que o patrão, o amo, o mestre, é o mesmo e não tem outra nacionalidade que não seja a do dinheiro. Enquanto isso, os organismos internacionais definham e se tornam meros nomes, como peças de museu… ou nem mesmo isso.

Na escuridão e na confusão que precede estas guerras, escutamos e vemos o ataque, cerco e perseguição de qualquer indício de criatividade, inteligência e racionalidade. Diante do pensamento crítico, os poderosos demandam, exigem e impõem seu fanatismo. A morte que eles plantam, cultivam e colhem não é apenas morte física; inclui também a extinção da própria universalidade da humanidade – a inteligência -, seus avanços e realizações. As novas correntes esotéricas renascem ou são criadas, seculares ou não, disfarçadas de modas intelectuais ou pseudociências; e as artes e ciências fingem estar subjugadas à militância política.

Quarto. – A pandemia da COVID 19 não só mostrou as vulnerabilidades do ser humano, mas também a ganância e estupidez dos distintos governos nacionais e suas supostas oposições. Medidas do mais elementar sentido comum foram desprezadas, sempre apostando que a Pandemia seria de curta duração. Quando a passagem da doença se tornou cada vez mais tardia, os números começaram a substituir as tragédias. A morte tornou-se assim uma figura que se perde diariamente em meio a escândalos e declarações. Um comparativo tétrico entre os nacionalismos ridículos. A porcentagem de batidas e corridas limpas que determina qual equipe, ou nação, é melhor ou pior.

Como detalhado em um dos textos anteriores, no zapatismo optamos pela prevenção e pela aplicação de medidas sanitárias que, na época, foram consultadas com cientistas que nos orientaram e ofereceram, sem hesitação, sua ajuda. Nós, os povos zapatistas, somos gratos a eles e quisemos demonstrar isto. Após 6 meses da implementação dessas medidas (máscaras ou equivalentes, distanciamento social, fechamento do contato pessoal direto com áreas urbanas, quarentena de 15 dias para aqueles que possam ter estado em contato com pessoas infectadas, limpeza freqüente com água e sabão), lamentamos a morte de 3 companheiros que apresentaram dois ou mais sintomas associados ao Covid 19 e que tiveram contato direto com pessoas infectadas.

Outros 8 companheiros e uma companheira, que morreram durante este período, apresentaram um dos sintomas. Como nos falta a possibilidade de prova, assumimos que todos os 12 companheir@s morreram do chamado coronavírus (os cientistas recomendaram que assumíssemos que qualquer dificuldade respiratória seria a Covid 19). Essas 12 ausências são de nossa responsabilidade. Eles não são culpa do 4T ou da oposição, dos neoliberais ou neoconservadores, dos chairos ou fifís [1], das conspirações ou complôs. Pensamos que deveríamos ter tomado ainda mais precauções.

Hoje, com a falta desses 12 companheir@s em nossas cistas, estamos melhorando as medidas de prevenção em todas as comunidades, agora com o apoio de Organizações Não-Governamentais e cientistas que, individual ou coletivamente, estão nos guiando no caminho para enfrentar um possível ressurgimento com mais força. Dezenas de milhares de máscaras (especialmente projetados, de baixo custo, reutilizáveis e adaptados às circunstâncias, projetadas para evitar que um provável portador infecte outros) foram distribuídas em todas as comunidades. Dezenas de milhares mais estão sendo produzidas em oficinas de bordado e costura insurgent@s e em povoados. O uso maciço de máscaras, quarentenas de duas semanas para aqueles que possam estar infectados, distância e lavagem contínua das mãos e do rosto com água e sabão, e evitar ao máximo sair para as cidades, são medidas recomendadas até mesmo para irmãos partidários, para conter a propagação do contágio e permitir a manutenção da vida comunitária.

Os detalhes do que foi e é nossa estratégia poderão ser consultados no devido tempo. Por enquanto dizemos, com a vida pulsando em nossos corpos, que, de acordo com nossa avaliação (na qual provavelmente podemos estar errados), enfrentar a ameaça como uma comunidade, não como um assunto individual, e dirigir nosso principal esforço à prevenção, nos permite dizer, como povos zapatistas: aqui estamos nós, resistimos, vivemos, lutamos.

E agora, em todo o mundo, o grande capital quer que todos voltem às ruas para que as pessoas retomem sua condição de consumidores. Porque são os problemas do Mercado que lhes preocupam: a letargia no consumo de mercadorias.

Devemos voltar para as ruas, sim, mas para lutar. Porque, como dissemos antes, a vida, a luta pela vida, não é uma questão individual, mas coletiva. Agora estamos vendo que também não se trata de uma questão de nacionalidades, é global.

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Muitas dessas coisas nós olhamos e escutamos. E nós pensamos muito nelas. Mas não só isso…

Quinto. – Também escutamos e olhamos as resistências e rebeldias que, embora silenciadas ou esquecidas, ainda são chaves, pistas para uma humanidade que se recusa a seguir o sistema em sua passagem precipitada para o colapso: o trem mortal do progresso que avança, orgulhosa e impecavelmente, em direção ao penhasco. Enquanto o maquinista esquece que é apenas mais um funcionário e acredita, ingenuamente, que ele decide o caminho, quando nada mais faz do que seguir a prisão dos trilhos em direção ao abismo.

Resistências e rebeldias que, sem esquecer o grito das ausências, estão determinados a lutar – quem o diria – pela coisa mais subversiva que existe nesses mundos divididos entre neoliberais e neoconservadores: a vida.

Rebeldias e resistências que entendem, cada um à sua maneira, seu tempo e sua geografia, que as soluções não estão na fé dos governos nacionais, que não estão protegidos por fronteiras e que não usam bandeiras e idiomas diferentes.

Resistência e rebelião que nos ensinam, nós, Zapatistas, que as soluções podem estar nos porões e cantos do mundo. Não nos palácios do governo. Não nos escritórios das grandes corporações.

Rebeliões e resistências que nos mostram que, se aqueles no topo rompem as pontes e fecham as fronteiras, ainda há tempo de navegar pelos rios e mares para nos encontrarmos. Que a cura, se existe, é mundial, e tem a cor da terra, do trabalho que vive e morre nas ruas e bairros, nos mares e nos céus, nas montanhas e em suas entranhas. Que, como o milho original, muitas são suas cores, seus tons e sons.

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Tudo isso, e muito mais, nós vimos e escutamos. E nós nos vimos e nos escutamos como aquilo que somos: um número que não conta. Porque a vida não importa, não vende, não é notícia, não entra nas estatísticas, não compete nas urnas, não tem valor nas redes sociais, não provoca, não representa capital político, uma bandeira partidária, um escândalo da moda. Quem se importa que um pequeno grupo indígena, minúsculo, viva, isto é, lute?

Porque por acaso vivemos. Que apesar dos paramilitares, pandemias, mega-projetos, mentiras, calúnias e esquecimento, nós vivemos. Ou seja, nós lutamos.

E é nisto que pensamos: que continuamos a lutar. Ou seja, nós continuamos a viver. E pensamos que durante todos esses anos recebemos o abraço fraterno de pessoas de nosso país e do mundo. E pensamos que, se a vida aqui resiste e, não sem dificuldades, floresce, é graças a essas pessoas que desafiaram distâncias, procedimentos, fronteiras e diferenças culturais e linguísticas. Graças a eles, eles, el@s – mas acima de tudo elas – desafiaram e derrotaram calendários e geografias.

Nas montanhas do sudeste mexicano, todos os mundos do mundo encontraram, e encontram, ouvido em nossos corações. Sua palavra e ação foram alimento para resistência e rebeldia, que são apenas uma continuação das de nossos antecessores.

As pessoas com as ciências e as artes como seu caminho, encontraram uma maneira de nos abraçar e encorajar, mesmo que fosse à distância. Jornalistas, fifís e não-fifís, que relataram a miséria e a morte antes, a dignidade e a vida sempre. Pessoas de todas as profissões e ofícios que, muito para nós, talvez pouco para el@s, foram, são.

E de tudo isso pensamos em nosso coração coletivo, e chegou em nosso pensamento que é hora de nós, nós, Zapatistas, correspondermos ao ouvido, à palavra e à presença desses mundos. Os próximos e os distantes em geografia.

Sexto. – E isto nós decidimos:

Que é tempo novamente para os corações dançarem, e que não sejam suas músicas ou seus passos, os de lamento e resignação.

Que diversas delegações zapatistas, homens, mulheres e outr@s da cor de nossa terra, sairão para viajar pelo mundo, caminhar ou navegar para terras, mares e céus remotos, buscando não diferença, não superioridade, não afronta, muito menos perdão e piedade.

Vamos procurar o que nos torna iguais.

Não apenas a humanidade que anima nossas diferentes peles, nossas diferentes formas, nossas diferentes línguas e cores. Também, e sobretudo, o sonho comum que, como espécie, compartilhamos desde que, na África que se parece distante, começamos a caminhar desde o colo da primeira mulher: a busca da liberdade que animava aquele primeiro passo… e que continua a caminhar.

Que o primeiro destino desta viagem planetária será o continente europeu.

Que navegaremos em direção a terras europeias. Que partiremos e zarparemos, de terras mexicanas, no mês de abril do ano de 2021.

Que, depois de viajar para vários cantos da Europa desde abaixo e à esquerda, chegaremos a Madri, a capital espanhola, em 13 de agosto de 2021 – 500 anos após a suposta conquista do que é hoje o México. E que, logo em seguida, seguiremos o caminho.

Que falaremos com o povo espanhol. Não ameaçar, censurar, insultar ou exigir. Não exigir que eles nos peçam desculpas. Não para servi-los ou para nos servir.

Vamos dizer ao povo da Espanha duas coisas simples:

Um: Que não fomos conquistados. Que ainda estamos em resistência e rebeldia.

Dois: Que eles não tenham que nos pedir perdão por nada. Basta de brincar com o passado distante para justificar, com demagogia e hipocrisia, os crimes atuais e contínuos: o assassinato de combatentes sociais, como o irmão Samir Flores Soberanes; os genocídios escondidos atrás de mega-projetos, concebidos e realizados para satisfazer os poderosos – os mesmos que flagelam todos os cantos do planeta; o incentivo monetário e a impunidade para os paramilitares; a compra de consciências e dignidades com 30 moedas.

Nós, os Zapatistas, NÃO queremos voltar a esse passado, não sozinhos, e muito menos com aqueles que querem semear ressentimentos raciais e fingir alimentar seu nacionalismo ultrapassado com o suposto esplendor de um império, o asteca, que cresceu à custa do sangue de seus semelhantes, e que querem nos convencer de que, com a queda desse império, os povos nativos dessas terras foram derrotados.

Nem o Estado espanhol nem a Igreja Católica precisam nos pedir perdão por nada. Não faremos eco aos falsários que usam nosso sangue e assim escondem o fato de que suas mãos estão manchadas com ele.

Por que a Espanha vai pedir nosso perdão? Por ter dado à luz Cervantes? José Espronceda? León Felipe? Federico García Lorca? Manuel Vázquez Montalbán? Miguel Hernández? Pedro Salinas? Antonio Machado? Lope de Vega? Bécquer? Almudena Grandes? Panchito Varona, Ana Belén, Sabina, Serrat, Ibáñez, Llach, Amparanoia, Miguel Ríos, Paco de Lucía, Víctor Manuel, Aute sempre? A Buñuel, Almodóvar y Agrado, Saura, Fernán Gómez, Fernando León, Bardem? a Dalí, Miró, Goya, Picasso, o Greco e Velázquez? a alguns dos melhores do pensamento crítico do mundo, com o selo do libertário “A”? à república? ao exílio? ao irmão maia Gonzalo Guerrero?

Do que a Igreja Católica vai pedir perdão? Da morte de Bartolomé de las Casas? De Don Samuel Ruiz García? De Arturo Lona? De Sergio Méndez Arceo? De Sister Chapis? Dos passos dos sacerdotes, religiosos e leigos que caminharam ao lado dos nativos sem dirigi-los ou substituí-los? Dos que arriscam sua liberdade e vida para defender os direitos humanos?

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O ano de 2021 marcará o 20º aniversário da Marcha da Cor da Terra, que realizamos, juntamente com os povos irmãos do Congresso Nacional Indígena, para reivindicar um lugar nesta Nação que agora está desmoronando.

20 anos depois, navegaremos e caminharemos para dizer ao planeta que, no mundo que sentimos em nosso coração coletivo, há espaço para todos, tudo. Simplesmente porque esse mundo só é possível se todos nós, todos, todas, todes, lutarmos para levantá-lo.

As delegações zapatistas serão constituídas principalmente por mulheres. Não apenas porque pretendem devolver o abraço que receberam em reuniões internacionais anteriores. Também, e sobretudo, para que nós Zapatistas homens deixemos claro que somos o que somos, e não somos o que não somos, graças a elas, por elas e com elas.

Convidamos a CNI-CIG a formar uma delegação para nos acompanhar e assim tornar nossa palavra mais rica para o outro que está em luta. Convidamos especialmente uma delegação dos povos que levantam o nome, a imagem e o sangue do Irmão Samir Flores Soberanes, para que sua dor, sua raiva, sua luta e resistência possam ir mais longe.

Convidamos aqueles que têm como vocação, compromisso e horizonte, as artes e as ciências a acompanhar, à distância, nossos navegares e nossos passos. Desta forma, eles podem nos ajudar a divulgar que nas artes e ciências existe a possibilidade não só da sobrevivência da humanidade, mas também de um novo mundo.

Em resumo: partimos para a Europa em abril de 2021. A data e a hora? Ainda não o sabemos…

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Parceiros, parceiros, colegas:
Irmãs, irmãos e irm@s:

Este é o nosso esforço:

Frente aos poderosos trens, nossas canoas.

Frente às usinas termoelétricas, as pequenas luzes que nós Zapatistas entregamos sob a guarda das mulheres que lutam em todo o mundo.

Frente aos muros e fronteiras, nosso navegar coletivo.

Frente ao grande capital, um milharal comum.

Frente à destruição do planeta, uma montanha navegando de madrugada.

Somos Zapatistas, portador@s do vírus da resistência e da rebeldia. Como tais, iremos para os cinco continentes.

Isso é tudo… por enquanto.


Das montanhas do Sudeste Mexicano.
Em nome das mulheres, dos homens e de outres Zapatistas.

Subcomandante Insurgente Moisés.
México, outubro de 2020.

(Obs: Se é a sexta parte e, como a viagem, seguiremos em sentido inverso. Quer dizer, lhe seguirá a quinta parte, logo a quarta, depois a terceira, continuará na segunda e terminará na primeira)



NOTAS:

[1] chairos e fifís significam, segundo a narrativa de Lopes Obrador, seus apoiadores ou opositores. O termo remete a algo mais profundo, e que foi aproveitado pela narrativa de AMLO – “fifís” equivaleria as elites mexicanas, enquanto “chairos” remeteria as camadas populares. (Agradecemos as observações e a correção, @erahsfeliz!)

DAVID GRAEBER: SOBRE EMPREGOS NOCIVOS, DÍVIDAS ODIOSAS E FASCISTAS QUE ACREDITAM NO AQUECIMENTO GLOBAL.

Entrevista concedida à Revista Disenz, realizada em 16 de maio de 2020 pelo jornalista Lenart J. Kučić, traduzida e gentilmente cedida para publicação por Florencia Lorenzo e Gustavo Ramos Rodrigues, a quem agradecemos imensamente!.

Era uma tarde quente de primavera em Londres e David Graeber, um professor de antropologia na London School of Economics, estava sentado num telhado. Nossa conversa foi transmitida pela internet devido à proibição global de viagens causada pela pandemia do coronavírus. Contudo, não conversamos apenas sobre o vírus e suas consequências para a sociedade, a política e a economia. Aproveitamos a rara oportunidade para discutir a maior parte dos seus trabalhos publicados – desde Fragmentos de uma Antropologia Anarquista e Dívida até Utopia of Rules e seu livro mais recente, Bullshit Jobs -, todos os quais se tornaram ainda mais relevantes durante a crise do coronavírus.

O professor Graeber se apresenta como um antropólogo e um anarquista. No entanto, ele não ficará feliz se você se referir a ele como um “antropólogo anarquista” porque tal disciplina não existe, como ele explicou durante a conversa. O professor também é um ativista. Ele fez parte de muitos movimentos sociais e protestos nas últimas décadas e é frequentemente creditado como o autor do slogan não oficial do movimento Occupy Wall Street: Nós somos os 99%. Mas ele insiste que o slogan – como tudo mais no movimento – foi um esforço coletivo.

Como governos democráticos podem se aproveitar dessa crise de saúde para impor medidas autoritárias a seus cidadãos? Por que os trabalhadores da saúde e do cuidado não fazem uma greve, durante a pandemia, por salários mais altos? O que aconteceria se fechássemos Wall Street por alguns meses? Por que só vemos carros voadores como efeitos especiais em filmes  de ficção científica? Como os princípios anarquistas podem ordenar o caos durante a crise? Por que não queremos depender dos exércitos chinês e estadunidense para salvar o planeta?

E finalmente – como um devaneio de bêbado se torna um livro dentre os mais vendidos?

David Graeber em seu escritório

Todo mundo parece estar falando a mesma língua durante a pandemia do coronavírus – desde governos progressistas e conservadores até o Estado Islâmico e os anarquistas: fique em casa, lave as mãos, evite outras pessoas… E as pessoas têm ouvido as autoridades sem protestar muito. Elas ficaram em casa e aceitaram as novas regras. Não tínhamos visto nada assim em muito tempo. O que aconteceu?

Bom, simplesmente não há tantas pessoas malucas o bastante para ignorar conselhos médicos durante uma pandemia.

Faz lembrar o pensador político francês do século XIX, Henry Saint-Simon, que talvez tenha sido a primeira pessoa a desenvolver uma noção de desvanecimento do Estado. Ele argumentou que se o Estado fosse refundado com bases científicas, ele eventualmente não precisaria depender da coerção e, portanto, sequer seria um Estado no sentido contemporâneo de deter o monopólio da violência.

Por que?

Pelo mesmo motivo, ele disse, que o médico não precisa ameaçar te bater para convencê-lo do remédio que ele receitou. Você sabe que o médico sabe algo que você não sabe e você supõe que ele esteja agindo em seu benefício. Saint-Simon argumentou que uma vez que o Estado fosse racionalmente fundado a partir de princípios científicos, os cidadãos agiriam da mesma forma e a imposição coercitiva se tornaria desnecessária. Talvez houvesse algumas pessoas malucas que se recusassem a tomar seus remédios, mas não seria uma quantidade grande o suficiente para fazer muita diferença.

Obviamente tudo isso era muito otimista e ingênuo – é por isso que Marx desconsiderou pessoas como Saint-Simon, chamando-os de “socialistas utópicos”. Mas há certos ramos do governo que ainda afirmam operar sob tais fundamentos. E é possível argumentar que eles não são, dada sua natureza, sequer parte do governo.

Durante o movimento dos estudantes no Reino Unido em 2010, nós falamos bastante sobre isso. Éramos majoritariamente anarquistas, mas acreditávamos em um sistema público de saúde e em um sistema universitário público. Isso era hipocrisia? Nenhum de nós sentia que fosse, mas nós falávamos bastante sobre o porquê. Talvez o problema fosse que Estados não permitem a existência de instituições públicas – isto é, as que são tanto universais quanto sem fins lucrativos – que não controlam. Isso não significa que essas instituições possuem, de algum modo, a mesma natureza que o exército ou o sistema carcerário, que são inteiramente criaturas do Estado.

Sim, e é claro que Foucault diria que o tipo mais assustador de autoridade é aquele que não precisa de uma força violenta para se impor.

Ele diria. Ainda que eu ache que o Foucault seja frequentemente mal-interpretado nesse quesito, presumir que qualquer discurso de verdade é uma forma de poder e que toda forma de poder é violenta é questionável em si. De fato, ele às vezes soa como se estivesse dizendo isso. Porém, quando especificamente questionado, ele sempre dizia não, não, obviamente não.

A ideia de que o conhecimento é sempre uma forma de poder é muito lisonjeira para acadêmicos, que tem muito do primeiro e pouquíssimo do segundo, então não surpreende que eles gostem tanto dela.

O Foucault em si tinha suas próprias preocupações imediatas – ele foi diagnosticado como homossexual em sua juventude e queria compreender como veio a ser que seus desejos mais íntimos pudessem ser considerados uma doença.

Ele efetivamente dedicou sua vida a tentar entender isso. Mas muitos na esquerda acadêmica esquecem disso: esses diagnósticos não eram apenas abstrações, eles se apoiavam, em última análise, na força da lei, na ameaça de violência física, mesmo que o médico não estivesse carregando a arma pessoalmente. Um tipo de foucaultianismo vulgar nos encorajou a negligenciar o quanto a ameaça da força realmente ainda se esconde por trás da maioria das instituições que ele descreve.

O panóptico era uma prisão, afinal de contas. Normalmente, se você acha que alguém pode estar te encarando em algum momento, você simplesmente vai para outro lugar. Na verdade, as coisas pioraram nesse respeito desde a época de Foucault. Não costumava literalmente haver guardas armados em escolas e hospitais, e agora em muitos lugares há.

Muitos governos pelo mundo todo estão usando a saúde pública para aplicar medidas que apenas alguns meses atrás eram inimagináveis em sociedades democráticas. Na Eslovênia, por exemplo, indivíduos são multados quando tentam protestar contra ações do governo. Não por protestar, é claro. Isso não seria democrático. Mas por violar a lei de doenças infecciosas. Então os únicos grupos de pessoas que são autorizados a se mover livremente são a polícia, o exército e os políticos.

Isso não me surpreende. Você pode aprender muitas coisas sobre o seu Estado comparando como ele trata uma aglomeração política e uma de qualquer outro tipo.

Como assim?

Em democracias liberais, toda a justificativa para a estrutura jurídica de um país é, tipicamente, algum tipo de ideal de liberdade humana. A Declaração de Direitos estadunidense começa com a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e a liberdade de reunião. Na prática, a reunião de pessoas que se aglomeram para protestar – que é a própria essência do que deveria ser ser estadunidense – é considerada menos legítima do que uma reunião de pessoas que querem te vender algo.

Quando você aponta isso para a maior parte dos estadunidenses de classe média, eles parecem incrédulos. Os pobres nem tanto, eles não supõem que as regras sejam justas. De todo modo: eles dirão “mas é claro que você tem o direito de reunião, você só precisa de uma autorização, o que tem de errado nisso?”. Então você tem que dizer “tudo bem, se você tem que pedir permissão à polícia para imprimir algo, isso se chama não ter liberdade de imprensa. Se você tem que pedir à polícia permissão para dizer algo…”. E eles dirão: “mas isso é diferente! Há problemas de trânsito. Você não pode simplesmente se reunir. Atrapalha as pessoas de andarem na rua”, o que é engraçado, porque eu não lembro de nenhum lugar da Constituição falar algo sobre o direito ao fluxo de trânsito desimpedido.

Aprendemos essa lição durante o movimento Occupy. Foi surpreendente, depois deles desocuparem nosso acampamento, a quantidade de estadunidenses de classe média que simplesmente encolheu os ombros quando seguiram em frente rasgando a Declaração de Direitos, a própria coisa da qual eles ensinaram suas crianças a terem tanto orgulho.

Vocês estavam tentando ocupar um espaço público?

Qualquer espaço. Depois que nos despejaram do Zuccoti Park, tentamos reestabelecer um novo acampamento porque… bem, era crucial que todos soubessem onde estávamos. Foi isso que foi tão efetivo na ocupação original: qualquer um na cidade que sentisse que queria se envolver sabia onde ir e se envolver instantaneamente.

Inicialmente pensamos que poderíamos nos realocar em um grande lote, próximo a Wall Street, que pertencia à Igreja Episcopal. Eles concordaram, mas uma pressão enorme foi colocada sobre hierarquia da igreja e eles eventualmente mudaram de ideia. Tivemos uma marcha conduzida por diversos bispos tentando ocupar, de qualquer modo; os policiais nos espancaram e a mídia se recusou a exibir qualquer filmagem dos bispos, mostrando somente pessoas com máscaras para nos fazer parecer violentos e assustadores.

Então nós ocupamos um parque que ficava aberto a noite toda e eles mudaram as regras do parque. Conseguimos uma decisão judicial de um juiz que dizia que podíamos dormir na calçada contanto que não ocupássemos mais que metade dela. Então a cidade imediatamente aprovou uma ordem determinando que a Lower Manhattan era considerada uma zona de emergência onde decisões judiciais não se aplicavam. Então nós decidimos ocupar as escadas do prédio onde a Declaração de Direitos foi efetivamente assinada, que fica bem perto de Wall Street, aliás, mas que não estava sob a jurisdição da cidade. Fomos imediatamente cercados por times da SWAT e dois dias depois encontraram uma forma de nos forçar a sair de lá.

Tentamos de tudo para estabelecer uma alternativa lícita, mas o Estado simplesmente estraçalhou completamente os mesmos princípios jurídicos que são ensinados às crianças como aquilo que as faz terem orgulho de serem estadunidenses, e a mídia sequer cobriu o fato.

Mas o que você pode ocupar quando você não tem autorização nem para deixar seu próprio apartamento?

Sempre há coisas que você pode fazer. O movimento dos Anonymous mostrou que você pode ter protestos impactantes e significativos online. E pessoas no mundo todo estão inventando novas formas de protestar de suas casas.

Ainda assim, não é como se o lockdown fosse permanente. Devemos nos lembrar que existia um mundo antes das vacinas e as pessoas sabiam como lidar com a ameaça de coisas como cólera, febre amarela, gripe: você rastreia cuidadosamente quem está espalhando a doença, isola e faz quarentena, você presta muita atenção à higiene, ao distanciamento social, restringe certos tipos de comércio – isso se tornou rotina durante a Era Vitoriana.

Um amigo meu, John Summers, tem pesquisado como Jane Addams lidou com essas ameaças em Hull House e concluiu que as classes médias simplesmente se esqueceram de coisas que costumavam ser de conhecimento comum. E é claro que tudo isso dificilmente impediu os movimentos sociais, como sugere o exemplo da Hull House. Esse foi o apogeu do anarquismo no exemplo do movimento trabalhista.

Ainda estamos em uma fase de reação de pânico e estamos apenas começando a encontrar maneiras de lidar com o problema. É muito muito cedo para pensar que o vírus destruirá nossas relações sociais.

E com respeito às relações econômicas?

É realmente fascinante porque, por tantos anos, governos no todo o mundo nos disseram que não poderiam fazer nada parecido com o que acabaram de fazer: interromper quase todas as atividades econômicas, fechar as fronteiras e declarar um estado de emergência global. Até três meses atrás, todo mundo presumia que mesmo uma queda de um por cento do PIB seria uma catástrofe absoluta, como se todos fossemos pisoteados pelo equivalente econômico de Godzilla.

Mas não foi isso que aconteceu.

Não, outra coisa aconteceu. Todos ficaram em casa e a atividade econômica caiu apenas um terço. O que já é uma loucura. Você imaginaria que, quando todos estão em casa e sem fazer nada, a economia deveria cair pelo menos 80%, não um terço. Não é? Faz a gente se perguntar exatamente o que eles estão medindo? Afinal, o que é uma “economia”? E o que é trabalho?

Acho que podemos começar a ver essas coisas mais claramente por causa da pandemia.

Mais claramente?

Bem, em primeiro lugar, podemos ver quais trabalhos eram realmente essenciais; também, quais são completamente desnecessários. Mas também torna mais fácil ver o que algumas instituições realmente fazem.

Os pregadores do capitalismo sempre insistiram que o sistema financeiro global era uma versão superior, de livre mercado, do planejamento centralizado: como um plano quinquenal, no sentido de que decide como os recursos serão alocados e investidos para otimizar a produção futura, basicamente para garantir que as pessoas do futuro obtenham o que querem, para garantir prosperidade, felicidade e bem-estar a longo prazo. Não, ele não faz isso.

Durante todo o debate sobre fechar ou não Wall Street para prevenir uma catástrofe econômica como a de 2008, ninguém sequer chegou a sugerir que fechar o setor financeiro por um mês ou mais teria quaisquer efeitos efetivamente danosos. Wall Street existe para o bem de Wall Street, para que pessoas ricas possam continuar a ser muito ricas. Não faz muito bem a mais ninguém, mas pode fazer mal, ou não teriam de fechar. Então o sistema financeiro nunca foi realmente um substituto para o planejamento estatal, que continua acontecendo de qualquer forma. Além disso, o mercado não era autorregulador. Ele sempre foi regulado – pelo Estado. O que as pessoas estão realmente discutindo quando falam sobre “regulação” ou “desregulação” é: em nome de quem?

Então eu de fato acho que as pessoas estão seriamente questionando como foram governadas nas últimas décadas.

Que tipo de Estado emergirá após a pandemia? Para alguns, o socialismo pode ganhar uma segunda chance como vemos com a nacionalização do sistema ferroviário no Reino Unido ou dos hospitais na Espanha. Outros temem que o Estado se tornará mais autoritário como ocorreu na Hungria. Há, também, algumas esperanças de que o Estado forte pode se tornar emancipatório. Regular algumas indústrias que se tornaram poderosas demais, priorizar pessoas sobre lucros…

Bom, antes de mais nada, quando nós perguntamos “quem se provou mais efetivo em lidar com a pandemia?”, eu acho que devemos ser muito cuidadosos para não cair em falsas dicotomias: autoritário contra democrático, socialista contra capitalista e etc.

Não há evidência de que Estados autoritários se saíram melhor. Obviamente, a China está fomentando essa narrativa, e ela ressoa com uma certa percepção, especialmente comum no Sul global nas décadas recentes, de que a China representa a única alternativa viável ao tipo de modelo neoliberal sendo impulsionado por instituições como o FMI e o Banco Mundial. É verdade, é claro, que a China não segue a receita neoliberal: eles se recusaram a liberalizar o setor financeiro, por exemplo, e aquela combinação de crédito “corrupto” fácil para a indústria de construção civil e tudo mais foi adotada na Índia, na Turquia e em muitas partes da América Latina como a única forma provada de se transformar um país pobre em um relativamente rico.

Mas por que a China, a Coreia do Sul e Singapura são apresentadas de forma tão frequente como modelos a se seguir? Elas supostamente não têm os melhores resultados em parar a pandemia? Isso não tem algo a ver com disciplina social?

Eu li recentemente um estudo muito interessante comparando como países autoritários e não-autoritários lidaram com a pandemia. Os autores concluíram que mais ou menos autoritarismo era um fator irrelevante. O que era importante era a fé das pessoas nos pronunciamentos do governo: o quanto confiavam nas instituições públicas, na mídia, no establishment científico.

Simplesmente não há relação sistemática entre o que se chama de “democracia” e esse tipo de confiança nas instituições. Aqui no Reino Unido, nós temos uma das democracias parlamentares mais antigas do mundo, mas os políticos e a imprensa mentem para nós tão sistemática e flagrantemente que nós temos, eu creio, uma das menores confianças na mídia na Europa – logo após a Itália e a Espanha, se eu me lembro corretamente.

Nos EUA, a direita encontrou uma forma de virar essa confiança justificada a seu favor. Tudo é “fake news”. Estamos todos numa sala de espelhos. Por que não votar no cara (Donald Trump, Boris Johnson) que pelo menos é honesto o bastante para admitir que ele está mentindo? Aí você pode ser tornar um cúmplice, de fato, porque o mundo é feito de malandros e otários e dessa forma pelo menos você estará no time vencedor.

Mas há algo mais profundo. Eu acho que o que nós realmente precisamos é de uma análise do que é chamado de “centrismo”, que é de muitas formas uma ideologia política alarmantemente perversa.

Centrismo?

O que é que as pessoas de classe média — basicamente, membros da classe gerencial profissional que compõe o núcleo do eleitorado centrista — realmente queriam dizer quando começaram a se descrever nos anos 80 e 90 como “liberais nos costumes, conservadores na economia”?

Que aceitaram uma ordem social em que a esquerda moderada ficaria encarregada da produção de pessoas, isto é, eles administrariam os hospitais e as universidades, enquanto a direita moderada ficaria encarregada da produção de petróleo e roupas e estradas. Então assim como os movimentos sociais de esquerda atacam CEOs e acordos comerciais, os movimentos sociais de direita atacam a autoridade das pessoas conduzindo a educação ou o sistema de saúde: professores e cientistas. Basta pensar no criacionismo, no aquecimento global ou no aborto.

Mas, na verdade, é uma guerra de posição insolúvel, como um Gramsciano poderia dizer, nenhum lado irá ganhar; a direita radical não tem mais probabilidade de colocar as igrejas evangélicas no comando da reprodução social do que a esquerda radical em transformar a Bechtel, a Microsoft ou a Monsanto em um coletivo autogerido. O que a direita radical pode fazer é minar a fé nos especialistas e, é claro, quanto mais eles chegam ao poder, mais podem fazer isso colocando pessoas efetivamente incompetentes em posições de autoridade. Então a coisa toda se retroalimenta.

O resultado é uma sala de espelhos sem fim onde tudo é ou pode ser uma mentira. Esses são os lugares onde os corpos agora estão se acumulando. Porque eles se afastaram ao máximo da fantasia de Saint Simon. E não dá pra exatamente culpar as pessoas por suspeitarem quando você tem um país como o Reino Unido, onde não se espera que saibamos os nomes dos cientistas no comitê que aconselha o governo sobre o que fazer em uma crise médica, mas por alguma razão nós sabemos que dois dos membros do conselho são propagandistas do Partido Conservador sem nenhuma formação científica. É quase como se eles quisessem que você soubesse que eles não são confiáveis.

E se governos que não são confiáveis também se tornarem mais autoritários… ?

A ideia é que é algo que se retroalimenta. Há um paradoxo aqui. As pessoas confundem política antiautoritária com oposição a qualquer tipo de autoridade intelectual, até mesmo a qualquer noção compartilhada de verdade, justiça, até mesmo realidade física. Como se insistir em qualquer forma de verdade fosse equivalente a fascismo. Mas, claro, se não há verdade, por que o fascismo sequer seria um problema? Qual é a sua base para se opor ao fascismo, além de que você pessoalmente não gosta dele, o que não significa muito se outras pessoas gostarem. Bem, esse tipo de relativismo absoluto está desaparecendo à esquerda, assim como está sendo assumido agressivamente à direita.

Mas se for esse o caso, o autoritarismo – pelo menos do tipo populista – acabou de levar um grande golpe. É realmente, como algumas pessoas estão dizendo, um culto da morte, uma forma de suicídio em massa.

Por isso mesmo, não acho que devemos nos limitar a debates sobre a natureza do futuro governo – ele se tornará mais autoritário, socialista, nacionalista, emancipatório? O que é realmente impressionante é o grau em que as pessoas estão se organizando como nunca antes. A primeira coisa que aconteceu no Reino Unido quando a pandemia começou foi que cada bairro começou a criar seu próprio grupo de ajuda mútua identificando pessoas vulneráveis: indivíduos sem parentes ou ajuda, pessoas mais velhas… Eles os chamam assim, grupos de “ajuda mútua”, usando a velha expressão anarquista. Existem centenas deles apenas em Londres.

Isso prova o velho ditado que diz que todos se tornam socialistas – ou anarquistas – durante a crise?

No meu bairro, e moro a poucos metros da Torre Grenfell, as pessoas já sabem que o governo é basicamente inútil em uma crise. Quando o incêndio aconteceu, há dois anos, eles pisaram na bola completamente.  É de se imaginar que o governo de um país com a quinta maior economia do mundo não teria achado tão difícil encontrar uma moradia para algumas centenas de sobreviventes, mas, na verdade, grupos religiosos e grupos comunitários espontâneos operando em espaços ocupados acabaram tendo que fazer tudo.

Portanto, apesar da percepção mais comum de que o anarquismo levaria da ordem ao caos, ele pode realmente ajudar a colocar o caos em ordem?

Eu sempre acho um pouco divertido que as pessoas sempre digam: “oh meu Deus, não podemos nos livrar da polícia, porque se nos livrarmos da polícia, todo mundo vai começar a se matar!”. Observe que eles nunca dizem: “Eu começaria a matar pessoas”. “Hmm, sem polícia? Acho que vou pegar uma arma e atirar em alguém.” Todo mundo presume que outra pessoa o fará.

Na verdade, como antropólogo, eu sei o que acontece quando a polícia desaparece. Eu até morei num lugar na zona rural de Madagascar onde a polícia havia efetivamente desaparecido alguns anos antes de eu chegar. Quase não fez diferença alguma. Bem, os crimes contra a propriedade aumentaram. Se as pessoas fossem muito ricas, às vezes eram roubadas. O assassinato, na verdade, diminuiu. Quando a polícia desaparece no meio de uma cidade grande, onde as diferenças de propriedade são muito mais graves, os roubos aumentam sem dúvida, mas os crimes violentos são inteiramente inafetados.

Mas quando se trata de organização – bem, o que precisamos nos perguntar é por que pensamos que é necessário ameaçar bater na cabeça das pessoas, ou atirar nelas, ou trancá-las em um quarto sujo por anos, a fim de manter qualquer forma de organização. Pessoas que pensam isso realmente não têm muita fé na organização, têm?

Como os anarquistas lidariam com a pandemia?

Acho que agora muitas pessoas estão aprendendo o quanto podem elas conseguem fazer independentemente de autoridades em hierarquias verticais ao estilo militar. Em emergências, sempre surge algum tipo de comunismo improvisado e rudimentar: de cada um de acordo com suas habilidades a cada um conforme com suas necessidades.

Eles fazem por simples eficiência: é a única coisa que realmente funciona. Mas é claro que o comunismo de crise tende a ser exatamente o oposto do socialismo autoritário verticalizado. Sistemas de comando e hierarquia, como sistemas de troca de mercado, se tornam um luxo ao qual as pessoas não podem se dar – embora muitas vezes sejam restaurados na segunda fase da crise, quando as coisas começam a ficar mais fáceis.

Durante a primeira fase, é mais saint simoniano e menos foucaultiano — a única autoridade que as pessoas reconhecem é o tipo que realmente se baseia em algum tipo de conhecimento especializado, mas é pouco provável que as pessoas discutirão com um médico tentando consertar sua perna quebrada.

As comunidades revolucionárias mais bem-sucedidas que eu conheço equilibram as duas: elas tentam disseminar o conhecimento tão amplamente quanto possível, mas por isso mesmo há confiança nas pessoas que de fato possuem conhecimento especializado. Os lugares que conheço mais próximos de uma situação anarquista não tiveram um desempenho ruim durante a pandemia. Estou pensando nas comunidades zapatistas no México e em Rojava, a região, em grande parte curda, no nordeste da Síria.

Ambas são anti-Estado e profundamente influenciadas pelo anarquismo. Ambas reagiram imediatamente à pandemia e iniciaram uma mobilização comunitária total, fechando escolas, criando equipamentos de proteção, melhorando o saneamento… Rojava até agora tem estado muito bem, apesar do fato do governo turco estar literalmente tentando usar a guerra bacteriológica contra eles enviando intencionalmente refugiados infectados. O exemplo deles mostrou que os princípios anarquistas podem ser usados para coordenar efetivamente os profissionais da saúde.

No entanto, os governos estão se esforçando muito para receber o crédito pelo combate à pandemia. O presidente estadunidense Donald Trump chegou a assinar pessoalmente os cheques corona, insinuando que ele deu pessoalmente o dinheiro aos cidadãos. Ele não está sozinho. Muitos governos estão tentando passar a impressão de que estão distribuindo dinheiro para nos ajudar a sobreviver à crise.

É difícil falar sobre como o sistema financeiro realmente funciona porque ele está cercado por camadas e camadas de erros e mistificação. Primeiro, existe a retórica de “encontrar” o dinheiro para ajudar a economia e os cidadãos. O dinheiro não é algum tipo de bem limitado que precisa ser encontrado, escavado ou produzido. Ele está literalmente sendo criado do nada.

Trump não está dando algo que ele já tem. Ele está literalmente produzindo o dinheiro ao dá-lo. Mas essa é apenas uma das muitas premissas falsas que mantêm o sistema unido. Aos olhos das classes governantes, penso, é ainda mais importante manter essas mistificações agora que quase todas as justificativas tradicionais para o capitalismo foram dissolvidas.

Por exemplo?

Bem, havia três principais. Primeiro, as pessoas costumavam dizer “certo, o capitalismo cria desigualdades extremas e todos os tipos de injustiça óbvia. Mas vale a pena porque mesmo as pessoas mais pobres sabem que seus filhos estarão numa situação melhor do que a deles”.

Não acho que muitas pessoas nos países ricos ainda acreditem nisso. Talvez na China algumas pessoas ainda o façam, mas claramente não é o caso se você mora nos Estados Unidos, ou na França, ou no Egito, ou na Argentina. As novas gerações já estão se saindo substancialmente pior do que seus pais. Elas têm menos acesso a coisas básicas, como moradia, educação, poupança para a aposentadoria. Há uma enorme literatura de pessoas de meia-idade repreendendo seus filhos e netos por serem floquinhos de neve mimados por basicamente demandarem as mesmas coisas que elas próprias consideravam garantidas quando eram jovens, mas no final das contas isso nasce da vergonha. Eles sabem que as coisas estão piorando, não melhorando.

O segundo argumento era tecnológico: o capitalismo sempre impulsionará mudanças científicas rápidas. Costumávamos acreditar que nossas vidas seriam radicalmente transformadas por causa do desenvolvimento tecnológico. Imagine como era a cozinha cem anos atrás, diz o argumento. E então compare-a com nossas cozinhas modernas hoje. Que estaremos voando para Marte, viveremos para sempre e que muitos de nossos problemas já teriam desaparecido a essa altura.

Eles não desapareceram, obviamente.

Então ninguém mais diz isso. Na verdade, as cozinhas são um exemplo perfeito. Elas não mudaram de forma substancial desde que o forno de micro-ondas foi introduzido há 30 anos. Essa foi a última inovação significativa da tecnologia de cozinha que realmente afetou a vida cotidiana. Depois disso: estagnação.

O mesmo vale para outras áreas da vida. Há cada vez mais evidências de que o capitalismo está na verdade sufocando a inovação tecnológica porque não há incentivos de lucro de curto prazo na inovação. Temos aprimorado as tecnologias de simulação, podemos fazer filmes de ficção científica incríveis agora, os efeitos especiais são ótimos, mas desistimos da ideia de que faremos qualquer uma dessas coisas no futuro próximo.

E o terceiro argumento é que o capitalismo traz estabilidade.

Para as classes médias?

Ao expandir a prosperidade para que a maioria das pessoas se torne de classe média, e que o crescimento da classe média encoraja estabilidade democrática. Certo. Isso não aconteceu. Em vez disso, aqueles que estão sendo expulsos da classe média estão cada vez mais dispostos a votar em qualquer um que esteja indo contra a estabilidade.

Então só sobraram realmente dois argumentos. Um é de que não há alternativas: somos nós ou a Coreia do Norte. O outro é moral.

Moral?

Estou cada vez mais convencido de que o sistema só se mantém pela moralidade. Uma moralidade muito estranha e distorcida. É por isso que escrevi um livro sobre a moralidade da dívida e outro sobre a moralidade do trabalho.

Mesmo muitas pessoas que sabem perfeitamente bem que nosso sistema econômico é fundamentalmente estúpido e injusto, também parecem realmente acreditar que quem não paga suas dívidas é uma pessoa má. Caloteiros são irresponsáveis e só podem culpar a si mesmos. Da mesma forma, mesmo as pessoas que odeiam seus chefes parecem achar que pessoas que matam o trabalho são ainda piores, que se você não está trabalhando mais do que gostaria em algo de que não gosta muito, de preferência para alguém de quem não gosta muito, então você é uma pessoa má, um parasita e, certamente, não merece ajuda pública.

As pessoas realmente parecem acreditar na santidade do trabalho. Não apenas do trabalho, mas dos empregos. Todos deveriam arrumar um emprego. Não importa se o trabalho está realmente fazendo bem a alguém ou não. Na verdade, pelo menos um terço da população trabalhadora parece estar pessoalmente convencido de que se seu emprego não existisse, não faria diferença – ou mesmo que o mundo seria um lugar melhor sem ele. A santidade do trabalho, a santidade da dívida, a santidade do “mercado” – todas essas coisas estão profundamente internalizadas e são extremamente problemáticas.

Problemáticas no sentido de… erradas?

Os ricos não acreditam em dívidas, pelo menos não em suas próprias dívidas. Certamente não acham que pagar suas dívidas seja uma questão de honra. Metade dos meus ex-empregadores não teria me pago nada se conseguissem descobrir uma forma de não fazê-lo. Mas mais que isso: se você está em uma posição de fraqueza, dívida é moralidade; se você está em uma posição de força, dívida é poder. É por isso que comecei um livro sobre dívida com um velho provérbio: se você deve cem mil dólares a um banco, o banco é seu dono. Se você deve cem milhões de dólares ao banco, você é o dono do banco.

Você frequentemente compara a dívida a uma promessa. Mas se uma promessa é quebrada por um lado, por que o outro ainda deve respeitar tal promessa?

Exatamente. Mas o poder importa. Veja as relações internacionais. Se Serra Leoa deve um bilhão de dólares aos EUA, Serra Leoa tem um problema. Se os EUA devem um bilhão de dólares à Coreia do Sul, a Coreia do Sul tem um problema.

Mas o truque moral é tão bizarramente efetivo. Pessoas que, fora isso, são boas acham que é totalmente justificado tirar comida de crianças famintas porque seu ex ditador fez um empréstimo ruim.

É por isso que tantos de nós têm tentado descobrir uma maneira de popularizar a noção de “dívida odiosa”. Não é uma frase muito sonora. O termo foi inventado por um tribunal americano depois que os Estados Unidos tomaram Cuba do império espanhol. O governo espanhol insistiu que os EUA passavam a ser responsáveis pelas dívidas pendentes do governo cubano com a Espanha. Os tribunais americanos decidiram que Cuba não devia dinheiro porque seus empréstimos foram tomados em circunstâncias injustas. Isso é o que eles querem dizer com “dívida odiosa”: um empréstimo que ninguém teria feito se fosse um agente de fato livre agindo por seus próprios interesses.

Grande parte das dívidas pessoais também não se enquadrariam nessa definição?

Sim, essa é a ideia. Como fazemos com que as pessoas enxerguem, digamos, uma hipoteca subprime como uma dívida odiosa? Todos nós aprendemos que pagar as dívidas é uma  questão de moralidade básica, em grande medida porque nossa própria ideia de obrigação moral passou a ser modelada a partir da obrigação financeira, e não o contrário. Será que alguma ideia de dívida odiosa poderia ser a maneira de começar a desfazer isso? Será que existem dívidas que a mera tentativa de cobrá-las é imoral?

Na verdade, na Europa medieval, isso seria bom senso jurídico básico, esse era o tipo de problema sobre o qual os estudiosos de direito frequentemente discutiam.

A famosa disputa sobre meio quilo de carne na peça de Shakespeare “O Mercador de Veneza”?

Ou um exemplo de um ovo se você estiver na prisão.

Um ovo?

Sim, os escolásticos medievais costumavam usar esse exemplo – lembre-se, naquela época, questões econômicas eram questões morais que caíam no direito canônico, era tudo um ramo da teologia. Na verdade, eu diria que a economia ainda é um ramo da teologia, mas não o admite mais.

O exemplo foi este: há um homem na prisão, submetido à uma dieta de pão e água. Portanto, ele está morrendo lentamente. O preso na cela ao lado tem alguns amigos que lhe trazem comida; digamos, que ele diz, eu tenho alguns ovos cozidos aqui. Vou te dar um desses ovos se você assinar este documento que me dá o direito sobre todas as suas propriedades. Então ele concorda, come o ovo, sobrevive e, alguns anos depois, os dois estão fora da prisão. O contrato é executável?

Hoje… talvez.

A resposta hoje é: sim. Isso é exatamente o que temos feito ao Sul Global há anos. Mas a maioria dos teólogos medievais argumentaria: óbvio que não. O homem que cedeu sua propriedade não era realmente um agente livre. Isso é mais verdadeiro ainda se, como no caso do Sul Global, o sujeito que tinha todos os ovos não fosse um prisioneiro, mas o guarda. Isso adiciona toda uma nova dimensão ao problema. É uma dívida odiosa. Obviamente. Mas a palavra “odiosa” é antiquada e não parece muito certa.

Continuamos tentando encontrar uma frase de efeito melhor. Talvez pudéssemos falar sobre capitalismo gangster, dívida de máfia? Os mafiosos são notoriamente bons em fazer uma extorsão parecer moral, enquadrando-a como dívida. Mas isso também não soava bem. Como transmitir a sensação de que, assim como seria melhor que alguns trabalhos não fossem realizados, algumas dívidas não deveriam ser pagas?

Mas isso é realista?

Muitos de nós ainda estamos tentando descobrir uma maneira de quebrar o encantamento. Talvez esta pandemia nos ajude a ver mais claramente que aquilo que chamamos de “finanças” sempre foi apenas as dívidas de outras pessoas, e essas dívidas são produzidas intencionalmente através de um conluio entre empresas financeiras e governos, entre instituições ostensivamente públicas e privadas que são, na prática, cada vez mais difíceis de diferenciar.

Gosto de usar o exemplo do JP Morgan Chase, o maior banco da América. Não me lembro o número exato, mas algo em torno de seus 76% dos lucros vêm de taxas e sanções. Pense sobre isso: eles lucram se você cometer um erro. Portanto, eles têm que configurar um sistema que seja confuso o suficiente para que eles possam ter certeza de que X por cento das pessoas cometerão um erro, mas não tão confuso a ponto de eles não conseguirem  dizer “ei, não é nossa culpa você não conseguir equilibrar suas contas.”

Cada vez mais, todo o aparato do governo e do sistema financeiro está se tornando uma farsa gigante projetada para nos endividar. Como a maior parte dos lucros negociados em Wall Street ou no índice Nikkei ou FOTSE vem das finanças, e não da indústria, é isso que realmente está conduzindo o capitalismo agora.

Em Dívida, você também descreve antigos rituais durante os quais todas as dívidas foram apagadas. Sob que circunstâncias sociais tais cancelamentos de dívidas podem acontecer?

Cancelamentos de dívidas continuam acontecendo. Houve um na Arábia Saudita e acho que um no Kuwait logo após a Primavera Árabe despontar. Eles simplesmente cancelaram a dívida de todo mundo para evitar convulsões sociais. É verdade que eles foram muito cuidadosos para não enquadrar isso como um “cancelamento”, eles fingiram pagar tudo com petrodólares para manter as aparências. Na Índia, eles também cancelam as dívidas dos agricultores periodicamente, mas discretamente, parece haver um sentimento de que você não quer que a maioria das pessoas saiba que os governos têm o poder de fazer isso.

As dívidas são canceladas o tempo todo, mas a forma como elas são canceladas é uma questão política. Os poderes parecem sentir fortemente que, pelo menos, você tem que fingir que as dívidas são sagradas, você está apenas pagando-as – mesmo que com o dinheiro que acabou de criar. É claro que isso é bobagem, seria fácil para os governos simplesmente declarar uma determinada categoria de dívida exequível, como os EUA fizeram com Cuba e Espanha. Qualquer governo poderia fazer o mesmo com, digamos, dívidas pessoais, dívidas hipotecárias ou empréstimos estudantis: eles poderiam dizer: “claro, se você se sentir obrigado a pagar isso, vá em frente, mas não usaremos o poder do tribunais para forçá-lo a fazê-lo.”

Outro recurso, frequentemente usado na África do Sul, é um jubileu de pontuação de crédito. Mesmo que os tribunais não executem uma dívida, você pode acabar arruinando sua classificação de crédito e não conseguir obter mais empréstimos. Portanto, os Estados podem, e às vezes o fazem, apenas resetar a classificação de crédito de todo mundo.

E a noção de que dívida não pode existir sem coerção, que você costuma argumentar?

No momento, estou recebendo e-mails da Virgin Media. Eu me mudei recentemente da minha antiga casa e cancelei minha assinatura. Mas de alguma forma eles continuam me cobrando pelos últimos dois meses em que eu sequer morava lá. Eles têm me enviado cartas cada vez mais ameaçadoras e desagradáveis ​​porque sabem que existe um aparato legal ao seu lado. Se você simplesmente se recusar a obedecer, em algum momento isso irá para um oficial de justiça, que irá assediá-lo, e se você recusar por tempo suficiente, e a quantia for grande o suficiente, eles começarão a confiscar coisas, e se você tentar detê-los, ameaças de força física entram em cena.

É fácil esquecer que a coerção violenta está por trás de todas as nossas leis. O poder de causar danos. No caso do cobrador irritante, pode estar a trinta ou até cem passos de distância. Mas está sempre lá, porque do contrário, você simplesmente o ignoraria. E há outra correlação interessante na qual tenho pensado ultimamente.

Qual coisa?

Que talvez também seja a verdade que quanto mais dano potencial você puder causar a outras pessoas, mais bem pago você é.

O que você quer dizer?

Sempre digo que quanto mais obviamente seu trabalho beneficia os outros, menos você tende a receber. Alguém me sugeriu recentemente que talvez seja o inverso seja real: quanto mais seu trabalho for capaz de prejudicar os outros, mais provável é que você seja bem pago. Imediatamente pensei em um estudo de um economista chamado Blair Fix, que fez uma análise de renda no setor corporativo e descobriu que a chave para a remuneração não é a “produtividade”, como os economistas costumam insistir, mas simplesmente o poder. Quanto mais alto você estiver na cadeia de comando, maior será o seu salário. De certa forma, isso dificilmente é novidade para alguém. Mas ele tem os números. Portanto, é tudo uma questão de poder.

Poder para fazer o quê?

Bom, essa é a questão. Talvez seja realmente apenas o potencial absoluto de causar danos. Da mesma forma como Wall Street não beneficia muito o público, mas pode causar um dano enorme se quebrar. Talvez o capitalismo seja apenas uma forma privatizada de poder, derivada diretamente das formas de poder feudal-militar.

Pense nas corporações como as catedrais do poder capitalista. Seus proprietários já possuem toda a riqueza e poder que alguém possa ter. A certa altura, você já tem todo o dinheiro e prazeres, todas as prostitutas e cocaína que possa desejar. Tudo o que sobra é apenas ego e narcisismo. É por isso que você tem essas legiões de funcionários inúteis: então algum vice-presidente executivo idiota pode dizer “eis o meu império! É um pouco maior do que o império do outro vice-presidente executivo. ”

O planeta está morrendo para que pessoas assim possam se sentir bem com elas mesmas. Elas estão sugando recursos monumentais, construindo suas torres gigantes e enchendo-as de lacaios inúteis simplesmente para a satisfação de seu ego. Quando recebia relatos de empregos balela [bullshit jobs], eu ouvia falar de inúmeros exemplos desse tipo de coisa. Cada empresa precisa ter sua própria revista interna com altos custos de produção e artigos recorrentes que façam o perfil desse ou daquele gerente de alto nível. Pra quê? Ninguém lê essas revistas! Bom, quase ninguém. Elas existem para que todo gerente possa ter o prazer de ver um artigo lisonjeiro sobre si mesmo no que parece ser uma revista de notícias.

Espécies inteiras de criaturas vivas estão sendo exterminadas todos os anos por esse tipo de coisa. Mas, em última análise, isso acontece porque o executivo está em uma posição capaz de desgraçar a vida de outras pessoas.

E é claro que a pandemia destacou o contrário disso: quanto mais diretamente seu trabalho ajuda outras pessoas, menos provável é que você seja bem pago.

Trabalhadores de saúde e cuidados, trabalhadores de fábricas e de serviços públicos, lojistas… foram homenageados durante a pandemia. Eles foram elogiados quase como heróis contemporâneos. Mas seus salários não aumentaram e é mais provável que percam o emprego depois que a crise passar. Por quê?

Porque a essência de seu trabalho é não causar danos. Basta olhar para os trabalhadores de emergência e cuidados que estão por aí arriscando suas vidas para que o sistema de saúde não entre em colapso. Em teoria, um movimento sindical é mais forte quando seu trabalho é essencial e traz muito poder de barganha para os trabalhadores. Portanto, se os profissionais de saúde e cuidados de saúde decidissem fazer uma greve por melhores condições e melhores salários, este seria o melhor momento possível. Mas na realidade isso não acontece.

Por quê?

De certa forma, eles têm poder demais. É uma espécie de paradoxo. Tipo a piada sobre se você deve um milhão ao banco, o banco possui você, se você deve cem milhões, você possui o banco. Se você tem muito poder para ferir os outros, e de uma forma muito imediata, você se torna um prisioneiro de sua própria utilidade. Você não pode usar esse poder – porque seria demasiado devastador.

Um mafioso, ou CEO de fundo de capital privado, pode apenas te prejudicar, embora finja o contrário. Ele pode exercer o poder sem piedade. Como apontam as feministas, uma greve de cuidados seria totalmente devastadora, tão devastadora que as cuidadoras não o fariam, porque, bem, elas se importam muito com as pessoas que imediatamente começariam a sofrer e morrer.

Mas, pelo menos, talvez a crise abra nossos olhos para esse fato. Que uma economia é, em última análise, apenas a maneira como cuidamos uns dos outros, que todo trabalho real é, em última análise, um trabalho de cuidado.

Começamos a usar ferramentas de comunicação em grande escala durante a pandemia – para a escola, o trabalho e eventos sociais. Vemos agora que podemos viver sem a maioria de nossas viagens de trabalho e reuniões. Essas mudanças se tornarão permanentes?

Nossos hábitos de viagem certamente terão que mudar e isso também afetará outras partes da economia.

David Harvey apontou que, desde 2008, a recuperação econômica – supondo que realmente houve uma recuperação, algo de que algumas pessoas discordariam – foi amplamente construída em torno das experiências do consumidor em vez de produtos de consumo. Durante décadas, o crescimento econômico foi impulsionado pela produção e venda de algo tangível. Carros. Smartphones. Então [você] pode acelerar as coisas vendendo carros que irão quebrar em alguns anos ou telefones que se tornarão obsoletos. Mas agora a área de expansão é ainda menos tangível, é baseada na experiência, de ir para as Bermudas, comer fora, ou, se você for um dos consumidores mais esclarecidos, viajar para a Floresta Amazônica para visitar um xamã e experimentar alguma droga psicodélica.

As classes trabalhadoras também se beneficiaram dessa tendência, ele acrescentou, porque muitos novos aeroportos, hotéis, alojamentos turísticos e outras infra-estruturas foram construídos para dar suporte às viagens mundiais da classe média. Sem falar em todas as plataformas digitais como Uber e Airbnb, que ajudaram a financeirizar o setor de viagens e habitação.

Ele não disse isso, mas eu acrescentaria que é uma ironia que a indústria da construção, junto com as indústrias extrativas, tenham se tornado simultaneamente o principal apoio da direita populista, que afirma se opor a essa elite cosmopolita, em nome da identidade nacional. E é claro que é essa classe cosmopolita, os ricos e seus aliados gerenciais profissionais que, por meio desse modo de consumo, estão realmente espalhando o vírus pelo globo.

Na Eslovênia e em alguns outros países europeus, o vírus foi transmitido por esquiadores que voltavam de férias na Itália e na Áustria. Muitos deles eram médicos e outros profissionais de classe média ou média alta. No entanto, o governo queria empregar o exército para impedir que os migrantes entrassem no estado, a fim de conter a pandemia.

Sim, eles vão culpar os migrantes ou os Viajantes – como os ciganos são chamados no Reino Unido – mas não os que viajam a negócios, certamente.

A propósito, você conheceu Mark Fisher enquanto ambos lecionavam na Goldsmiths? Meus colegas editoriais insistiram que eu deveria te perguntar sobre o Mark porque seu trabalho ressoa com muitos jovens intelectuais na Eslovênia, bem como com alguns de nossos autores.

Esbarrava com ele e dizia oi de vez em quando, mas nunca cheguei a conhecê-lo. O que agora lamento muito. Por muito tempo eu costumava pensar nele como uma pessoa chata que conseguia plagiar a maioria das minhas melhores ideias muito antes de eu tê-las (risos).

Você realmente compartilham várias ideias.

E é surpreendente que tivéssemos ideias tão semelhantes porque nunca as discutimos.

Ambos os dois ficaram fascinados com a ideia de carros voadores. Ou, na verdade – o por quê de ainda não haver carros voadores.

O artigo do Flying Car que escrevi para o Baffler em 2012 era originalmente apenas um devaneio de bêbado em uma festa. Bullshit Jobs também.

Sério?

Sabe a sensação de quando você tenta impressionar ou entreter seus ouvintes com uma grande ideia? E no dia seguinte você não se lembra inteiramente? Eu tinha todo um repertório.

Parece familiar… Mas você se lembrou de seus dois discursos, obviamente.

Raramente me excedo com a bebida.

Enfim, sim, o carro voador. Isso me dava nos nervos! Eu era uma criança crescendo nos anos 60 e todos nós éramos fascinados pelo programa espacial. Eu tinha sete anos quando pousamos na lua. Todos nós sabíamos como o futuro deveria ser. Fiquei profundamente desapontado porque o verdadeiro 2001 não foi nada como o 2001 que todos vimos no filme. E o que me incomodou foi… não apenas que não aconteceu, mas que ninguém estava falando sobre o fato de que não aconteceu. Todos agiam como se estivéssemos realmente vivendo nesta era incrível de maravilhas tecnológicas. Mas isso simplesmente não era verdade!

Claro, tínhamos portas que se abriam sozinhas e tínhamos os comunicadores de Star Trek. Mas certamente não tínhamos os tricorders ou qualquer outra coisa realmente boa. Onde estavam as drogas de longevidade, os feixes de teletransporte, os dispositivos antigravidade?

A indústria automobilística está tentando nos convencer de que os carros elétricos são algo novo, empolgante e fascinante. Mas eles foram lançados pela primeira vez há mais de cinquenta anos.

Exatamente! Deveríamos estar explorando as luas de Saturno agora. É tão frustrante! Eu queria escrever um artigo parecido em 1999, mas todas as revistas ignoraram as minhas propostas. Em vez disso, elas estavam celebrando o início de um novo milênio com artigos previsíveis, de que estávamos vivendo em um mundo de maravilhas tecnológicas sem precedentes.

Então você esperou mais de dez anos para finalmente publicar o artigo?

Bem, infelizmente ele permaneceu verdadeiro e, eventualmente, cheguei ao ponto em que podia publicar o que eu quisesse. Então, inventei algumas teorias sobre os motivos da grande estagnação tecnológica.

O engraçado foi que após que escrevi o artigo, apareceram dois tipos de resposta. Primeiro vieram as respostas dos fanáticos por ciência que regularmente apareciam para me repreender, dizendo que eu não sei nada sobre ciência, já que, caso contrário, não ignoraria todas as coisas incríveis que estão acontecendo ou que estavam prestes a aparecer. Carros voadores estão prestes a aparecer há cerca de sessenta anos. O outro grupo eram os próprios cientistas, que quase invariavelmente diziam: sim, é verdade! É impossível obter financiamento para pesquisas sem aplicações concretas imediatas. O sistema é configurado de forma a garantir que não haja mais grandes descobertas.

Isso tudo é muito deprimente, na verdade. Ensinamos nossas crianças a acreditar que as coisas podem e vão melhorar cada vez mais. Mas por outro lado… Sempre ouvimos falar que os ideais iluministas de que o progresso e o avanço tecnológico levariam a uma maior sabedoria foram destruídos na Primeira Guerra Mundial. Mas em seguida somos informados de que eles foram destruídos pela ascensão do fascismo. Ou por Auschwitz. Ou pela bomba atômica.

E então veio Chernobyl…

Sim, e todos os outros grandes desastres tecnológicos do século XX. Mas observe o padrão. Se essa narrativa realmente tivesse sido apagada pela Primeira Guerra Mundial, então não estaria lá para ser apagada novamente pelo fascismo. Ou pela bomba. Ou por Chernobyl. Portanto, não foi realmente apagada. Na verdade, continua voltando porque não descobrimos uma história diferente para ensinar às nossas crianças.

Como as mentirinhas sobre o Papai Noel?

O que vamos dizer? “Sinto muito, garoto. A história é uma merda, as pessoas são péssimas ​​e tudo só vai piorar”. Então, de certa forma, quase por culpa, ainda fingimos acreditar em um futuro melhor.

Isso se torna um ciclo vicioso. As crianças crescem aprendendo essa versão utópica da realidade que é completamente falsa. Aos poucos, elas descobrem como o mundo funciona e, claro, ficam furiosas. Elas se tornam adolescentes amargos. Alguns então se tornam jovens adultos idealistas e tentam mudar as coisas. Mas quando têm filhos, desistem, redirecionam seu idealismo para os filhos e fazem a mesma coisa, tentam construir uma pequena bolha onde podem fingir que as coisas realmente vão melhorar. É a única maneira de justificar as concessões morais.

Em Utopia of Rules, você argumenta que existe todo um sistema estabelecido que torna impossível qualquer tipo de pensamento ambicioso.

Sim, o maquinário da desesperança.

A totalidade da burocracia?

As burocracias não são lugares onde a promoção se baseia no mérito. É onde a promoção é baseada na sua disposição para fingir que a promoção é baseada no mérito. No ambiente acadêmico, é muito parecido. Não importa muito o quão inteligente você é. É mais importante fingir que as pessoas no topo têm alguma razão para estar lá, mesmo que você – e todos os outros – saiba que não é o caso. O maior pecado é acreditar que você tem direito a uma determinada posição acadêmica só porque é realmente bom no ensino ou na pesquisa.

Se você vem de uma origem social errada, principalmente, você aprenderá que sim, é possível ser aceito como membro da elite, mas somente se você estiver disposto a agir como se sua maior objetivo de vida fosse ser aceito por eles – tendo eles ou não uma razão real para estar lá.

O que nos traz de volta a Mark Fisher. Ele dedicou muito de seus escritos à síndrome do impostor. Vindo da classe trabalhadora, sempre sentiu que não pertencia à academia ou a qualquer outro grupo social. Ele sempre se sentiu uma fraude.

Também venho da classe trabalhadora, mas minha experiência é um pouco diferente. Fui criado com meus pais dizendo que eu era a pessoa mais inteligente que já existiu. Em retrospectiva, era um pouco ridículo. Ninguém poderia ser tão talentoso! Portanto, nunca tive uma síndrome de impostor no sentido de sentir que não tivesse o mérito intelectual para trabalhar na academia. Mas eu tenho uma síndrome do impostor constante sobre não ser um adulto social. Ainda sou tratado tipo: tudo bem, você é inteligente, mas não é realmente um adulto. Você não é uma pessoa real. Você está apenas fingindo. Portanto, nesse sentido, sou constantemente levado a me sentir como uma fraude e isso de fato afeta sutilmente sua percepção de si mesmo.

Essa também foi uma das razões pelas quais você quase inventou sua própria disciplina acadêmica?

A antropologia anarquista, você quer dizer?

Sim.

Eu não fiz tal coisa. Meu antigo mentor, Marshall Sahlins, estava começando uma série de panfletos e sabia que eu estava envolvido na Rede de Ação Direta. Ele estava interessado em minha opinião sobre como pensar sobre anarquia de uma perspectiva antropológica. Então escrevi o ensaio como um exercício hipotético, sobre como seria uma “antropologia anarquista” e por que ela não existe. O problema é que ninguém realmente lê o livro. Eles apenas leram o título.

Portanto, não, não sou um antropólogo anarquista no sentido de que alguém poderia ser um antropólogo marxista. O marxismo é um corpo teórico que existe dentro da antropologia. O anarquismo é o corpo da prática e existe dentro dos movimentos sociais. Não existe, nesse sentido, nenhuma antropologia anarquista. Quero dizer, claro, você pode fazer antropologia de uma forma que seria útil para movimentos sociais libertários, mas não é a mesma coisa.

Seu assistente me disse que você está trabalhando em seu próximo livro. E que certamente não é um livro sobre o coronavírus.

Sim, é algo em que venho trabalhando há muito tempo com meu bom amigo David Wengrow, que é arqueólogo na University College London. Continuamos mudando o título, mas no momento é: O futuro: um prefácio de 50.000 anos.

Você parece gostar de prefácios longos.

Você quer dizer como o do “Divida: os primeiros 5000 anos”? Bom, sim, talvez. Este prefácio, porém, é ainda mais longo, visto que estamos tentando mostrar que o modo como a história humana é tipicamente apresentada é apenas uma versão secularizada da Bíblia. Houve o Éden e depois a Queda. No início, estávamos todos vivendo em felizes bandos igualitários de caçadores-coletores. Isso foi o Éden. Logo inventamos a agricultura e tudo foi ladeira abaixo. Aparece a propriedade privada e os primeiros estabelecimentos. E assim que aparecem as cidades, também aparecem estados, impérios, burocracias e extração de excedentes. Ao longo do caminho, também vêm a escrita e a alta cultura e tudo veio como um pacote, pegar ou largar.

E essa narrativa está errada?

Essa narrativa está factualmente errada e não chega nem perto do que realmente aconteceu historicamente. Na verdade, caçadores-coletores não viviam exclusiva ou predominantemente em pequenos bandos igualitários de vinte ou trinta pessoas. Ao longo da história, eles parecem ter alternado entre pequenos grupos e pequenas microcidades. Eles podem ter formado estruturas sociais muito elaboradas, às vezes até polícias ou reis, mas apenas por alguns meses do ano. Eles então se espalhariam e viveriam em pequenos grupos. A agricultura dificilmente impactava nisso e as primeiras cidades eram na verdade muito igualitárias.

Isso se parece muito com o historiador israelense Yuval Noah Harari. Ele popularizou a ideia de que passar de caçadores-coletores para uma sociedade agrária era a raiz de todos os males.

Sim, isso é realmente irritante. Não é só ele, mas ele está fazendo uma versão atualizada e descolada do que é essencialmente um Jean-Jacques Rousseau moderno. Ele foi provavelmente um dos mais importantes defensores do ideal romântico do nobre selvagem. Um ser humano livre e puro que ainda não foi estragado pela civilização europeia.

É por isso que Rousseau apelou a seus concidadãos para que retornassem à natureza?

De fato. Acho essa parte da história bastante fascinante. Rousseau, na verdade, escreveu seus famosos escritos sobre a origem e a base da desigualdade entre os homens em resposta a um concurso.

Concurso?

Sim, a Academie de Dijon convidou os autores a escreverem sobre a desigualdade social. Rousseau inclusive não ganhou. Mas eu realmente queria saber por que intelectuais franceses do século XVIII presumiam que a desigualdade social tinha uma origem. A França da época era basicamente a sociedade mais hierárquica que alguém poderia imaginar. Por que eles supuseram que as coisas nem sempre tinham sido assim?

Alguma pista?

Não quero revelar muito, mas tem muito a ver com a crítica à sociedade europeia elaborada por indígenas americanos, que foi levada surpreendentemente à sério na Europa. Talvez seja melhor esperar pelo livro.

Qual é a coisa mais assustadora que pode se tornar normal após a pandemia?

Prefiro falar sobre as coisas boas. Como é isso? De repente, entramos na zona onde a agência histórica reapareceu. A humanidade acaba de receber o que pode ser o maior alerta da história. Nunca aconteceu em tamanha escala que uma parte tão grande da humanidade parou e disse, opa, o que estamos fazendo?

Esta é uma notícia potencialmente ótima, já que estávamos basicamente no caminhado rumo a um suicídio em massa.

E o que é ruim?

Bem, o outro lado disso é o próprio suicídio em massa. Estávamos nos aproximando do apocalipse, convencidos de que não havia nada que pudéssemos fazer. O que me assusta é que podemos apenas dizer: ufa, graças a Deus acabou, agora vamos voltar às nossas velhas vidas.

Vimos que o mundo não vai acabar se viajarmos menos, consumirmos menos e produzirmos menos. O mundo realmente chegará ao fim, bem, ao menos da forma que hoje o conhecemos, se não o fizermos. Como podemos convencer uma população de moralistas de que a coisa mais importante que podemos fazer agora é parar de trabalhar tanto? Se não o fizermos, vamos acabar enfrentando uma escolha entre desastres que fazem a pandemia parecer um passeio no parque e algum tipo de solução de ficção científica que pode dar terrivelmente errado.

Quão errado?

Bem, vamos apenas dizer que há apenas uma coisa mais assustadora do que um fascista que nega o aquecimento global, e é um fascista que não nega o aquecimento global. Só Deus sabe que soluções essa pessoa vai elaborar.

De certa forma, você pode ver o que está acontecendo como um ensaio para a solução fascista para o tipo de emergência climática que devemos esperar em cinco ou dez anos se não pararmos toda essa produção idiota de carbono: fechar as fronteiras, culpe os estrangeiros, faça a triagem da população em digna e indigna, normalize o autoritarismo. Aí eles vão tentar alguma solução técnica: semear o oceano com cristais, eco-engenharia…

Há alguns anos eu estava conversando com Bruno Latour e ele me disse que estava seriamente preocupado que chegaria a esse ponto porque as únicas instituições grandes o suficiente para operar na escala exigida são os exércitos dos EUA e da China. Com sorte, eles estariam cooperando e não indo um contra o outro. Eu estava conversando com Steve Keen outro dia e ele argumentou que a segunda opção fosse mais provável, afinal se as coisas ficarem muito mais quentes, grande parte do Leste Asiático se tornará inabitável, será que realmente esperamos que a China fique parada enquanto isso acontece? Eles vão apenas evacuar silenciosamente suas províncias do sul porque os americanos não querem cortar o carvão? Mas se eles começarem a mudar a composição da atmosfera, eles podem acabar colocando a Europa e a América do Norte de volta na Idade do Gelo. Quem sabe?

Mas, apesar de tudo isso… Você ainda têm esperança que a humanidade possa ouvir o que pode ter sido o maior alerta da história?

Talvez a coisa mais sábia que li sobre o assunto foi um físico que apontou que nosso verdadeiro problema é que não reconhecemos que nós mesmos fazemos parte da natureza. Sim, obviamente, a mudança climática é causada pela idiotice humana. Aqueles que dizem que é um fenômeno natural estão apenas negando a realidade. Tudo isso é verdade. Mas houve tempos no passado distante, antes mesmo que os humanos sequer existissem, em que a temperatura da Terra oscilou vários graus para cima e para baixo. Se sobrevivermos o suficiente, talvez cem mil anos, e isso começar a acontecer, bem, teremos que fazer algo a respeito, não é?

Mas se quisermos ser a “autoconsciência da natureza”, como costumavam dizer no século XIX, talvez seja a hora de tirar os políticos do caminho, porque são seres extremamente carentes de autoconsciência. Decisões como essa só podem ser tomadas por algum tipo de deliberação coletiva.

A boa notícia é que experimentos com assembleias de cidadãos mostram que mesmo cidadãos comuns selecionados aleatoriamente, diante dos fatos científicos, são, quase invariavelmente, muito mais sábios em suas tomadas de decisão do que seus representantes eleitos. É possível tornar as pessoas, como massa, mais inteligentes do que qualquer membro individual dessa massa, em vez de mais estúpidas. (De certa forma, é disso que se trata o anarquismo, descobrir maneiras de fazer isso). Pode acontecer. Mas vamos ter que trabalhar.

HISTÓRIA DA AÇÃO SINDICALISTA REVOLUCIONÁRIA EM SÃO PAULO LANÇADA COMO LIVRO DE KAUAN WILLIAN

É com felicidade que lançamos hoje o livro de Kauan Willian, intitulado “O jornal A Plebe: uma história da propagandae militância Sindicalista Revolucionária em São Paulo”. A obra, parte de sua pesquisa de graduação, traz um amplo debate sobre anarquismo, sindicalismo revolucionário e imprensa operária a nível global e também especificamente, em São Paulo, através do jornal A Plebe. Ao destacar a ação política de grupos anarquistas e sindicalistas revolucionários usando como fonte a escrita de jornais, Kauan recupera uma potente e criativa tradição de combate e organização das trabalhadoras e trabalhadores, possibilitando assim o questionamento sobre o atual quadro das táticas de enfrentamento e propaganda disponíveis aos subalternos no país.

A obra em pré-venda acompanhará o cartaz “A Plebe” e terá o valor de R$15,00 com frete gratuito para todo o país, podendo ser adquirida em nossa loja provisória, pelo link em nossa bio do instagram ou em https://linktr.ee/tsa.editora.