RITA LAURA SEGATO: Coronavírus – todos somos mortais. Do significante vazio à natureza aberta da história

Texto original: lobosuelto.com

Um número significativo de textos tem circulado nestes dias, muitos deles escritos por autores influentes. Eles tentam responder por dois aspectos distintos da pandemia que nos aflige. Um grupo faz apostas no que pode ter sido a origem do vírus, dividindo-se entre aqueles que aderem à teoria da trama e os outros que, sem necessariamente saberem, dão continuidade ao que Marx já chamava de “ruptura metabólica” ou desequilíbrio na relação entre o ser humano e a natureza.

Tratarei aqui do outro conjunto de interpretações, que falam do significado e do uso futuro da pandemia. Cada um deles é derivado e pressuposto por um projeto político e um sistema de valores que ele sustenta.

Pela minha parte, vejo a covid-19 como Ernesto Laclau viu a figura de Perón na política argentina: um “significante vazio”, a quem vários projetos políticos estenderam sua rede discursiva. Também o vejo como um evento que dá origem a um “efeito Rashomon”, evocando aqui a forma como o tema do filme clássico de Kurosawa tem sido usado nas Ciências Sociais: o mesmo crime contado a partir de quatro perspectivas de interesse diferentes. Mas acima de tudo vejo como uma situação do que Lacan chamou de “a irrupção do real” – o imaginário que aprisiona nossa visão do mundo ou grade através da qual filtramos as entidades que farão parte de nossa percepção é um tecido fino que nos envolve. Além dele está o “real”, para usar o termo Lacan: natureza como ela é, incluindo a nossa própria natureza.

O vírus nada mais é do que um evento do desdobramento desse outro plano, a História Natural, a marcha aleatória da natureza, seu desdobramento contingente, sua deriva. Os organismos se consolidam, duram e desaparecem. Nossa espécie também seguirá este destino incerto ou, com improvável sorte, terá a longevidade da barata – embora seja difícil, pois a barata se caracteriza por necessitar de pouco. É importante ter em mente que, mesmo que esse vírus fosse resultado de manipulação humana em laboratório ou, como certamente é, consequência da forma abusiva com que a espécie tratou seu meio ambiente, ainda assim seria um evento da natureza. Por quê? Porque fazemos parte dessa mesma natureza, e embora sejamos capazes, como espécie, de manipular microorganismos e provocar o advento de uma nova era como a do Antropoceno, temos ali o nosso lugar, fazemos parte dessa cena que chamamos de “natureza”. Nossa interação bioquímica pertence e desempenha um papel em uma cena que é interior ao grande ninho que habitamos, mesmo quando o pensamento ocidental nos pressionou a nos retirarmos daquela posição contida, interdependente e dependente. Pensar desta maneira não é fácil para nós, pois estamos dentro da lógica cartesiana de sujeito-objeto, cabeça-corpo, mente-res extensa. A reificação e a externalização da vida é o nosso mal.

Ao fazer esta manobra, o pensamento ocidental cancelava dois inconvenientes. Um deles é a temporalidade da vida, com sua inerente falta de controle e o limite que ela interpõe à tentativa de administrá-la. O tempo, que nada mais é que o tempo dos organismos, da própria Terra como grande organismo, e da própria espécie como parte desse grande ventre terrestre, desafia a onipotência do Ocidente, sua obsessão em administrar eventos, que tenho chamado em outros lugares de neurose de controle. A outra obsessão do pensamento colonial-moderno e ocidental é nos colocar, como espécie, na posição de onipotência daquele que conhece e pode manipular a vida, a manobra cartesiana para formular a res-extensa, a coisa-vida, e nos catapultar para fora dela. É por isso que, diante dessa pandemia, temos a oportunidade de nos salvar cognitivamente dessa armadilha e de entender que, mesmo que seja o efeito da nossa interferência, o vírus que nos está deixando doentes é, de qualquer forma, um evento natural, desse evento sinuoso e imprevisível que é o tempo. E é assim porque resulta de uma interação dentro do âmbito da natureza, de cuja cena fazemos parte. O salto de um vírus do animal para o humano deve ser lido desta forma, o que nos coloca nesta posição de fazer parte do mundo natural com seus caprichos, que muitas vezes acreditamos ser dominado. Uma disponibilidade totalmente diferente para a vida e para a inevitabilidade da morte surge de uma consciência que aceita ser uma parte subordinada da ordem natural. A exterioridade cartesiana, longe de ser universal, leva a um vício de leitura que é típico do Ocidente e tem consequências.

O outro grande tema é o do futuro, também ligado à dimensão anárquica do tempo. As três imagens de que falo permitem-me arriscar que um grande desconcerto tenha ocorrido no mundo diante desta rara praga de comportamento arcaico. Diante dessa confusão, as três imagens que lhe atribuo: a ausência de sentido e intencionalidade próprios, a provocação de Rashomon e sua realidade radical independente de nossas apostas me permitem falar de uma batalha futura para a imposição de uma ordem a essa confusão. E toda aposta teleológica esconde um discurso de supremacia moral e todo discurso de supremacia moral tem uma vocação autoritária. Quem terá então permissão para narrá-la no futuro, para usar a expressão de Edward Said, ou quem terá o direito de narrá-la, usando aqui as palavras de Homi Bhabha? Estas três figuras teóricas nos permitem então prever que haverá uma batalha para decidir que rede de significados, que discursos e que narrativas serão capazes de captar o evento que nos desafia, a fim de instalar as políticas que irão moldar o mundo no futuro. Mas, como já argumentei, a única utopia que sobreviveu aos sucessivos fracassos “revolucionários” na tentativa de reorientar o caminho dos povos é a absoluta imprevisibilidade do futuro: nunca se sabe onde ou como soprará o vento da história. Só nos resta desempenhar nosso papel, de acordo com nossas convicções e responsabilidades.

Já vimos o pré-anúncio da batalha à porta nestes dias, e este texto também está, inevitavelmente, incluído. Muitas malhas de significado foram esticadas para capturar o tempo da natureza. Já no início testemunhamos a divergência entre dois grandes analistas, como Slavoj Zizek e Byung-Chul Han: utopia e distopia em confronto, ao mesmo tempo em que os presságios. A partir daí, centenas de atribuições de sentido circularam em muitos textos, mas o vírus as excede em sua incerteza e no desnorteamento em que mergulhou a humanidade. Isto é muito importante de se considerar porque nos leva à abertura da história, à sua imprevisibilidade e à aceitação dos limites implacáveis impostos à nossa capacidade de controlá-la, de ordená-la. O vírus testemunha a vitalidade e a constante transformação da vida, seu caráter irreprimível. Demonstra a vitalidade da natureza, conosco dentro dela. Ele tem mostrado uma realidade que nos supera e supera todo o voluntarismo. O Ocidente é assim confrontado com o que constitui a suprema dificuldade do mundo colonial-moderno, pois o objetivo por excelência do projeto histórico eurocêntrico é o domínio, a reificação e o controle da vida. Para encurralar e bloquear todos os imprevistos, toda a improvisação tem sido sua tentativa e seu relativo triunfo progressivo.

Este vírus e todos aqueles que o precederam e virão apresentam uma liberdade que faz tremer ainda mais esta proposta civilizadora do que a própria morte. Uma liberdade desconhecida. Sendo este o caso, a ordem do dia só poderia ser a retirada para “tirar a água do peixe”, deixar o novo ser sem hospedeiro, até que sua periculosidade queira “fazer a curva” e, ou uma vacina surja das mãos do papel que desempenhamos nesta grande cena: a cena ambiental. O que sabemos funciona, mas mais do que um controle indica uma “adaptação”, uma flexibilidade e maleabilidade dos comportamentos, e uma capacidade de resposta que faz parte do mesmo drama, do qual fazemos parte. Uma grande lição é dada por este pequeno ser para o Ocidente.

Difícil e escondido no discurso da mídia foi o impacto inicial inegável do vírus, pois seu aparecimento em cena foi francamente democrático. Atacou antes de tudo e com grande força as duas maiores potências do mundo, e a Europa rica e confortável. Neste exato momento está envergonhando a Big Apple e todo o chamado mundo “desenvolvido” ao mostrar que lhe falta o que parecia ter: segurança para seu povo e capacidade para o cuidado massivo e geral de seus habitantes. Ele atacou nobres, políticos de alto escalão e empresários de corporações poderosas. Ele fez vítimas surpreendentes entre as elites cosmopolitas. Diante da própria lente da mídia, ele mostrou ao mundo que, sem dúvida, todos somos mortais. Ele se comportou como um imigrante a quem ninguém coloca cercas. Ele mesmo levou Henry Kissinger a falar sobre o fim da hegemonia americana.

É possível dizer que, pelo menos por um tempo, o vírus, um evento da natureza, tem dado uma lição de democracia. Na América Latina, enquanto isso, é possível adivinhar um terror expectante e pouco interdito, uma meia verdade sobre o que sabemos que pode acontecer quando o vírus finalmente derrubar a fronteira que protege a inclusão da exclusão. O que acontecerá quando ele “cruzar os trilhos” em massa e tornar sua entrada, com toda a força, incontrolável, entre os pobres? Até hoje, em nosso continente, devido à quarentena, a exclusão penaliza aqueles que vivem rigorosamente dia após dia por causa de sua necessidade de renda diária, mas não é em sua janela gradeada que a peste tem sido sentida mais fortemente por enquanto. O que acontecerá quando se jogar nos espaços superlotados? Isso ainda não vimos. Embora talvez uma digressão sobre o caso particular de Guayaquil caiba aqui. Visitei aquela cidade e seus arredores em uma ocasião, e acho que devido à sua extensa área portuária, onde atracam barcos de pesca, mas também contrabandistas e traficantes, é possível dizer que há ali uma grande população que, sendo pobre, é também cosmopolita. Essa rara conjunção entre pobreza e cosmopolitismo é o que eu acredito ter antecipado a vulnerabilidade gritante daquela cidade.

Voltando à futurologia praticada até o momento por autores notáveis, as tentativas de capturá-los têm sido, até o momento, pelo menos as seguintes:

  • O vírus possibilitará o colapso da ilusão neoliberal e o abandono da acumulação egoísta, pois sem solidariedade e sem Estados provedores não seremos salvos. Sem um Estado que garanta proteção e entrega de recursos aos que tem menos, não será possível continuar a vida. A posição, neste caso, é que vamos entender que é preciso colocar a acumulação à disposição do povo que dela necessita para sobreviver, e os governantes serão levados, no futuro, a desobedecer ao preceito fundamental sobre o qual repousa o capitalismo.
  • O segundo prognóstico que circula poderia ser descrito como “agambeniano” e é pré-anunciado pela ficção científica distópica. Estaríamos entrando num laboratório de experimentação em larga escala que permitirá que a população mundial seja espiada por meio de controle digital e inteligência artificial com novas tecnologias infalíveis. Tudo será informado sobre cada ser vivo e a ameaça de um estado de exceção de magnitude desconhecida devastará a humanidade.
  • Governantes como Trump e Bolsonaro parecem aderir, sem se pronunciarem de forma reflexiva, a uma terceira previsão relacionada ao não dito sobre o massacre esperado quando o vírus cruzar a grande fronteira com cantos e favelas. Um subtexto de seu discurso e ação parece concordar com o extermínio das sobras do sistema econômico, para se curvar à lei da sobrevivência dos mais aptos, dos mais capazes. Uma perspectiva neo-malthusiana e neo-social-darwinista está aqui presente, uma ideologia totalitária – na definição de ideologia de Hannah Arendt – cujo valor afirma que quem não está adaptado à sobrevivência em determinadas circunstâncias ou quem pode prejudicar o projeto nacional tal como definido pela perspectiva no poder, deve perecer. Visto a partir dessa ideologia, o vírus se encaixa na “solução final” característica do totalitarismo: o que é inútil, no sentido de que não serve a uma ideologia, não deve viver. Esta posição, que é ideológica e responde ao projeto político de um setor de interesses, não deve ser confundida com uma abordagem como a da Alemanha, por exemplo, que diverge da estratégia de quarentena rigorosa e extinção do vírus através da restrição absoluta dos hospedeiros humanos, e permite a circulação de pessoas apostando no declínio natural do poder infeccioso do vírus através do aumento da imunidade humana. Esta última abordagem não é a mesma proposta pelo neodarwinismo porque os Estados que a propõem, como Alemanha e Suécia, têm uma maior oferta de cuidados médicos e equipamentos para reduzir a letalidade do vírus. Mesmo assim, já surgiram dúvidas sobre a aposta no desenvolvimento natural da imunidade humana, o que sem dúvida porá em risco a vida de muitas pessoas, e os países que adotaram essa estratégia estão abandonando-a.
  • A quarta interpretação adere à importância de uma abordagem bélica e de uma tendência rumo à uma atitude fascista. É o treinamento para agir com base na existência de um inimigo. O frenesi do inimigo se instala. Qualquer política baseada na suposição da existência de um inimigo comum tende necessariamente para o fascismo. A inimizade, o belicismo torna-se a razão de ser da política. O vírus serve às forças de segurança para agir dentro dessa perspectiva e as lógicas de punição e extermínio são desencadeadas. Uma parte da população cujo perfil em política e cidadania tem essas características foi enquadrada hoje nesta leitura da pandemia. Há uma série de exemplos de expressão de extrema animosidade e agressão contra vizinhos que trabalham em hospitais, sejam médicos ou enfermeiros, contra pessoas que vieram do exterior e contra pessoas que estão doentes. Há raiva e ódio contra tudo e qualquer coisa associada à praga entre os setores reacionários da sociedade que procurarão, no futuro, impor essa ordem social diante do que possam definir como uma “ameaça pública”: enfermos, migrantes, não-brancos, delinquentes, imorais, etc.
  • A quinta previsão é que, no final, ele terá de persuadir e impor a todos a ideia de que a Terra, seja qual for o nome que lhe seja dado, terá nos mostrado seus limites e terá provado que a exploração industrial da natureza está nos conduzindo em uma direção suicida. Ricos e pobres, segundo aqueles que pensam assim, teremos aprendido o que os povos indígenas nos repetiram tantas vezes: “Nós não temos a terra, ela é que nos tem”.
  • Uma sexta posição é que o vírus veio para impor uma perspectiva feminina ao mundo: repensar os nós da vida comunitária com sua lei de reciprocidade e ajuda mútua, entrar no “projeto histórico de vínculos” com seu objetivo idiossincrático de felicidade e realização, recuperar a politização do doméstico, domesticar a gestão, tornar a administração equivalente ao cuidado e fazer do cuidado sua principal tarefa. É o que tenho chamado nestes dias de “Estado materno”, como diferente daquele Estado patriarcal, burocrático, distante e colonial que nossa história nos acostumou a desconfiar.

Sejamos honestos: todas essas apostas podem ser perfeitamente convincentes, dependendo de qual projeto histórico você adere e quais interesses você representa. Todos são igualmente interessantes e inteligentes, mas todos são onipotentes, no sentido de que pretendem, de antemão, vencer na roda do tempo. Todos eles sofrem com a neurose de controle do Ocidente em seu esforço para enquadrar a história em uma direção previsível. Eles mostram a inculcada incapacidade de estar, evocando aqui inevitavelmente o resgate do poder do tempo em seu fluxo empreendido pelo nosso filósofo Rodolfo Kush, quando ele substituiu o ser heideggeriano pelo ser andino.

Problemas que já existiam foram exacerbados e se tornaram mais visíveis, surgiram e rasgaram uma superfície que antes não lhes dava acesso. O projeto histórico do capital, e sua estrutura manifestada no que chamei de “projeto histórico das coisas”, ao contrário do “projeto histórico dos vínculos”, havia efetivamente banido a consciência da finitude. Precisava colocar a morte em um planeta distante. Mas hoje temos um grande funeral na mídia, centenas de caixões desavergonhadamente expostos. É possível que isso desvie nosso desejo em outra direção que não a que estamos acostumados: que importância poderiam ter as marcas, dada a presença da Morte no bairro? Coloquemos-nos à vontade. Total…!

Acontece, ainda, que as pragas são sempre bíblicas, pedagógicas e instrutivas. De repente, é possível perguntar-se se a ordem institucional e a usina econômica a que respondia não era ficcional, se o universo que habitávamos já não sofria de precariedade insustentável. Mais do que as mortes que causa, pois, desde as mortes, já vimos muitas, mas não pararam o mundo, é o desconcerto, a falta de controle e a imprevisibilidade que a criatura microscópica introduziu que vem perturbar a credibilidade do sistema. Por exemplo, veio para demonstrar que a realidade pode ser mudada praticamente “ao toque de uma caneta” pelo Presidente. Eis a pedagogia cidadã: nada é imutável, tudo pode ser alterado com suficiente vontade política. Em termos de gestão de vida, podemos ver que é possível transformar o mundo num grande laboratório no qual se realiza uma experiência maravilhosa. E isso é o que move o chão dos donos do planeta.

Que ninguém venha nos dizer agora que “não é possível tentar outras formas de estar na sociedade” ou outras formas de administrar a riqueza: a produção pode ser parada e o comércio pode ser interrompido. Estamos testemunhando um ato fenomenal de desobediência sem poder adivinhar qual será a rota de saída. O mundo foi transformado no vasto laboratório onde um experimento parece ser capaz de reinventar a realidade. De repente, revela-se que o capital não é uma máquina que seja independente da vontade política. Muito pelo contrário. Estamos agora diante da evidência de que os donos da riqueza e seus gestores sempre procuraram esconder: a chave da economia é a política, e as leis do capital não são as leis da natureza. Estamos diante de um estado de exceção incomum e inversamente, que puxa a alavanca que suspende o funcionamento da grande usina que confundimos com a ordem divina. Uma ordem pseudo-divina, uma impostura cuja metáfora perfeita é o famoso bezerro de ouro bíblico, o falso deus que desorientou o povo de Israel em sua viagem a Canaã: uma grande praga veio ao colocar um falso deus no lugar do verdadeiro. O capital é o falso deus, a Mãe Terra é o verdadeiro. E é isso que os mitos estão na grande episteme da espécie: eles sempre nos guiam na leitura do presente.

Proteger a vida, cuidar dela no aqui e agora e no presente absoluto é tudo o que importa. Não tanto os prognósticos e declarações de princípio moral e de intenção, pois, como tenho argumentado em outros lugares, nesta fase apocalíptica do capital, o discurso da persuasão moral tornou-se inócuo diante da pedagogia da crueldade que inoculou nossos corações e nossas consciências com o antídoto mais eficaz que anula a percepção empática do sofrimento alheio. Além disso, diretrizes futuras baseadas em uma suposta ideia geral de bondade são arriscadas: alguma falha na cláusula que estabelecemos e toda a construção vai quebrar; qualquer desapontamento, e a estrutura que construímos cuidadosamente parecerá ruir. Trabalhar na previsão é perigoso, pois não temos dados claros nem sobre o presente nem sobre o futuro. Nós não sabemos exatamente o que nos ameaça. O importante é aprender a ser, a cuidar de si mesmo e a apoiar o chão em movimento debaixo dos pés. Tenho sugerido em outros lugares que uma política de chave feminina é mais adequada para este tipo de contingência em que salvar vidas é tudo o que importa.

Em mais de um texto apresentei o Estado como a última etapa da história do patriarcado. Tenho dito que quando a tarefa política masculina deixa de ser uma entre duas tarefas políticas, e o espaço onde é executada deixa de ser um entre dois espaços – o público e o doméstico, cada um com seu próprio estilo de gestão – para se tornar uma esfera pública abrangente e a ágora única de qualquer discurso que se afirma dotado de politização, ou seja, capaz de impactar no destino coletivo, naquele momento, a posição da mulher, agora sequestrada na cápsula da família nuclear, desmorona para a qualidade da margem e do repouso, expropriada de toda a política. No entanto, ocorre-me que a abordagem alberciana, sua forma de falar conosco, é, pelo menos nesta circunstância, uma gestão doméstica da nação. “Materno”, tenho dito publicamente, porque o materno e o paterno são independentes do corpo em que estão depositados, como a categoria útil e vilipendiada “gênero” nos ensina há algum tempo, uma grande formulação do feminismo que nos tem permitido desessencializar, desbiologizar papéis e sexualidades. Alberto nos pede para nos unirmos, isso gera uma experiência pouco comum em nosso país. Gera comunidade, pede que deixemos de lado a discórdia e tentemos reiniciar para enfrentar o desconhecido, diz que nos protegerá e que considerará as necessidades materiais na sua desigualdade. Por isso eu tenho dito que parece incorporar um Estado materno, uma gestão doméstica, como uma inovação. Não posso deixar de recordar aqui as duas noções de pátria a que se refere o maravilhoso ensaio de Jean Améry “How Much Homeland a Man Needs”: A pátria patriarcal, bélica, defensiva, emparedada, e a pátria maternal, hospitaleira, anfitriã. As línguas nórdicas têm duas palavras diferentes para eles: vaterland ou pátria, e heimat, terra-mãe, a outra. É fundamental enfatizar este evento, a diferença alberciana, pois na teorização, não só descrevemos os eventos, mas também os prescrevemos, os fazemos ser, os damos realidade, incentivamos um caminho. Temos que identificar e nomear as novidades que aparecem na cena desconhecida do presente.

Mais do que uma fantasia de futuro, devemos prestar atenção ao que está de fato ali, às propostas e práticas que surgem, ao que as pessoas estão concretamente fazendo e inventando. O que está acontecendo aqui e agora ao nosso redor, entre nós. Novamente: a política de chave feminina, como já disse em outras ocasiões, é atual e não utópica, prática e não burocrática. Nesta vigília, as formas de sustentar a vida que estavam em segundo plano estão sendo lentamente reacendidas. Estamos percebendo que pelo menos parte da capacidade de subsistência deve necessariamente permanecer nas mãos do próprio povo. A memória de 2001 ressurge em nosso país. Nossa própria Odisséia Espacial, infelizmente arquivada. Uma grande sensação de perda é vivida quando percebemos que, no momento em que o Estado retoma com eficiência as rédeas da economia nacional e o período de grande carência é superado, toda essa economia popular se desintegra. Na fome e no mau tempo de 2001, surgiram estruturas coletivas, o individualismo recuou e o país passou por uma mutação que ainda hoje é sentida. Mas quando o problema das necessidades materiais imediatas foi resolvido, nada promoveu a permanência daquelas estruturas operativas que haviam sido criadas.

Tenho defendido que o bom Estado é um Estado que restabelece a jurisdição comunitária, protege a produção e a comercialização local e regional e é capaz de estabelecer um caminho anfíbio: não pode abdicar do mercado global porque de seus dividendos vêm os recursos para suas políticas públicas, mas também não deve abandonar a auto-sustentabilidade das comunidades, a soberania alimentar e o mercado local enraizado, que, como no caso presente, mais uma vez se torna crucial para a sobrevivência. Um bom Estado viaja entre os dois caminhos e protege o mais frágil, para que seu conhecimento, seus próprios circuitos de mercado, suas tecnologias de sociabilidade e seus produtos não se percam, nem sua autonomia. Hoje voltamos a ver como as pequenas hortas em varandas, corredores, galerias e pátios, a troca de produtos entre vizinhos, ressurgem ao nosso redor; o governo propõe as quarentenas comunitárias, em bairros fechados como comunas; os coletivos retomam seu papel, fazem coletas, organizam-se para que as pessoas comam, e meus vizinhos em Santelmeña me perguntam todos os dias o que eu preciso. Não esqueçamos os milhões de hindus “caminhando para casa”, um lugar que ninguém jamais deveria ser obrigado a deixar. Vemos a ansiedade de voltar à terra por toda parte, e temos a obrigação de entender esse movimento visceral, atávico, de voltar para casa.

O problema que permanece é como garantir que essa experiência seja registrada nos discursos do tempo pós-pandêmico e permaneça audível, para que a fantasia de normalidade e imutabilidade que nos capturou não seja refeita. Como reter a experiência de um desejo que, pelo menos durante esse intervalo, moveu-se livremente em direção a outras formas de satisfação e realização? Haverá forças competentes, muito bem instruídas, estudando o assunto para fechar essa memória, para bani-la, para deixá-la bem fechada, de modo a garantir a continuidade de uma “normalidade” que a pandemia havia interrompido. Como podemos estar preparados para que o esquecimento não aconteça? Como podemos evitar que a perda de experiência acumulada em 2001 se repita?



PS: Agradeço minha filha Jocelita Laura de Carvalho Segato as incontáveis horas de conversa sobre os erros cognitivos e epistemológicos do especismo.

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