KURDISTÁN AMÉRICA LATINA | O FANTASMA DA ABSTENÇÃO MASSIVA RONDA AS ELEIÇÕES IRANIANAS

“Desta vez, não vão nos enganar”, explica Neda(1); uma professora iraniana de francês em Teerã. “Nem eu nem nenhum outro membro de minha família iremos votar este ano”, confirma também Reyhaneh, de 35 anos. As eleições presidenciais iranianas, marcadas para 18 de junho, estão se aproximando, mas a população parece desinteressada por elas e alguns até apelam para as redes sociais para boicotá-las com a hashtag #nãovaitervoto.

Na verdade, os iranianos não confiam mais nas promessas de reforma. O Presidente Hasan Rohani está chegando ao final de seu mandato de oito anos – o período máximo permitido pela Constituição – sem ter conseguido melhorar a situação econômica. Além da má administração econômica, a população também sofre com a retomada das sanções internacionais contra a República Islâmica do Irã após a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear de maio de 2018, assinado inicialmente em julho de 2015 em Viena. “Talvez eu vá votar se conseguirmos salvar o acordo nuclear”, diz Ahmad, de Teerã. “Porque com essas sanções, nenhum presidente poderá fazer nada para o país e pelo o povo”, acrescenta.

A sorte está lançada

Além dos problemas econômicos que enfrentam diariamente – a inflação de 40%, a queda no valor da moeda nacional (o rial), o aumento da taxa de desemprego – os iranianos não esqueceram nem a repressão violenta das manifestações de novembro de 2019, que causaram mais de 400 mortes segundo os especialistas da ONU, nem a queda, meses depois, do avião ucraniano derrubado por engano pela defesa antiaérea iraniana, no qual seus 176 ocupantes foram mortos.

A esta desilusão soma-se a decisão, no final de maio, do Conselho de Guardiães – um órgão composto por seis religiosos nomeados pelo líder supremo e outros seis juristas eleitos pela Assembleia Iraniana, com poderes para vetar os candidatos às eleições – de descartar as candidaturas dos reformistas próximos ao presidente de saída, bem como qualquer rival sério do candidato ultra-conservador Ibrahim Raisi, que perdeu há quatro anos para o próprio Hasan Rohani.

Para muitos iranianos, a sorte está lançada: Ibrahim Raisi tem um caminho claro para a vitória. “Em certo momento, o regime precisou de alguém como Mohammad Khatami – presidente reformista de 1997 a 2005 – e assim eles fizeram de tudo para que ele vencesse. Em outro momento, precisavam de alguém como Mahmoud Ahmadinejad – presidente conservador de 2005 a 2013 – e também providenciaram para que ele fosse eleito. Como não pensar que desta vez não será diferente?”, pergunta Vali, um iraniano que costumava estar envolvido na política de seu país.

A guerra de sucessão para o posto de líder

Conhecido por ser o chefe do judiciário e chefe da poderosa fundação religiosa Astan-e Qods-e Razavi, Ibrahim Raisi também é apoiado pelo líder supremo de 82 anos Ali Khamenei e parece bem posicionado para substituí-lo. Para Clément Therme, doutor história internacional e especialista no Irã, o verdadeiro desafio destas eleições é a sucessão do líder supremo. “O desafio não é quem vai ganhar estas eleições, mas sim a guerra de sucessão para o posto de líder”, explica o especialista. “Todos os candidatos estão se posicionando antecipadamente para ter influência na sucessão”, acrescenta ele.

Mas Ibrahim Raisi também é acusado de crimes contra a humanidade por ter condenado milhares de prisioneiros à morte em 1988. Sua chegada ao poder, como presidente, poderia então complicar as relações entre o Irã e o Ocidente, e isso no contexto da negociação para salvar o acordo nuclear. “Estamos presumivelmente caminhando para um próximo governo fundamentalista ou conservador iraniano. Eles se opuseram ao JCPOA – acordo nuclear – desde o início, portanto não há garantia de que a nova administração iraniana, se de fato for conservadora ou fundamentalista, manterá o acordo”, explica Roozbeh Mirebrahimi, um jornalista e pesquisador iraniano independente estabelecido em Nova York.

“Se não votar, pessoas incompetentes chegarão ao poder”.

De acordo com as pesquisas, a abstenção será a verdadeira vencedora destas eleições. Um duro golpe para o regime que geralmente usa a alta taxa de participação para se legitimar. De fato, já em fevereiro de 2020, durante as eleições legislativas, a abstenção atingiu cerca de 57%, algo que nunca havia acontecido desde a Revolução de 1979.

Entretanto, para Mariam, 30, não votar pode ser perigoso. “Também fiquei surpresa com a decisão do Conselho de Guardiães e no início eu também não queria votar (…), mas depois disse a mim mesmo que se eu não votar, pessoas incompetentes chegarão ao poder. Como foi o caso durante o primeiro mandato de (Mahmoud) Ahmadinejad ou, mais recentemente, nas eleições legislativas de fevereiro de 2020, que resultaram na chegada de Mohammad Qalibaf (conservador) como presidente da Assembleia (Majles)”, lamenta a jovem mulher.

Por isso, para evitar que os conservadores cheguem ao poder, Mariam votará no reformista Abdolnaser Hemmati, ex-governador do Banco Central Iraniano. Entretanto, para Vali, votar no candidato menos mau também não é uma solução. “Eles sempre nos atraem às urnas, assustando-nos com a chegada deste ou daquele candidato”. Mas eu tenho votado nos reformistas desde 1997, e o que mudou? Nada, na verdade. Eles são todos iguais, os reformistas piores que os conservadores e os conservadores piores que os reformistas!”, conclui, resignado.


Notas:
(1) Os nomes próprios daqueles que deram seus testemunhos foram mudados por motivos de segurança.

FONTE: Sara Saidi / El Salto Diario/ Kurdistán América Latina

EZLN | O PASSAPORTE ZAPATISTA (Até breve Portugal, aqui vamos nós Galiza)

O Passaporte Zapatista.

(Até breve Portugal, aqui vamos nós Galiza).

Junho de 2021.

Em 12 de junho de 2021, o chamado “Esquadrão 421”, e demais passageiros e tripulação, receberam em seus passaportes o selo de entrada legal no chamado espaço ou zona Schengen e desembarcaram em Horta, Ilhas Açores, Portugal, Europa.  Sem perder a graça e a elegância (só estou dizendo), desembarcaram de La Montaña. Como deve ser, havia alegria, dança, fotos e muita comida.  Marijose se encontrou uma velha profecia que anunciava sua chegada. E se realizou uma corrida (só estou dizendo), tipo “o último a chegar à linha de chegada paga pela comida” (Diego Osorno perdeu).  Se brindou pela vida, é claro.

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Às 09:17:45 do dia 14 de junho do ano em curso, La Montaña se desapartou do abraço português e tomou a direção nordeste a uma velocidade entre 6 e 7 nós.  Às 12:30:06 passou pela esquerda do “Pico Das Urzes”.  Latitude: 38.805213; longitude: -28.343418.  O Capitão Ludwig calcula avistar a costa da Península Ibérica, entre 19 e 20 de junho (embora pudesse ser mais cedo, pois La Montaña, reconciliada com o vento, parece apressada para abraçar suas irmãs portuguesas e galegas). A partir dessa data em diante, se saudaram as elevações nas ilhas de San Martino, Monte Faro e Monte Agudo.  Logo se entrará na “Ría de Vigo”. Se prevê chegar à Marina Punta Lagoa, ao norte do porto de Vigo, na Galiza, Estado Espanhol.

Então, em silêncio, chuva irmã será a montanha nossa, úmido se tornará nosso olhar, e assim diremos sem palavras:

“(…)

desperta do teu sono

fogar de Breogán.

Os bos e xenerosos

a nosa voz entenden

e con arroubo atenden

o noso ronco son,

mais sóo os iñorantes

e féridos e duros,

imbéciles e escuros

non nos entenden, non.*

Fragmento de “Os Pinos”, Hino da Galiza. Pascual Veiga e Eduardo Pondal.

* “…acordados de seu sono / Lar de Breogán / Os bons e generosos / nossa voz entendam / e com devoção atendem / nosso rouco som / mas só os ignorantes / e débeis e duros, / imbecis e obscuros / não nos entendem, não“.

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Agora me permita contar sobre a documentação zapatista que leva o Esquadrão 421 (que agora poderia acrescentar “marítimo” ao seu flamante nome).  @s companheir@s trazem um passaporte Zapatista. Quero dizer, além do passaporte oficial do México, eles possuem o chamado “passaporte zapatista de trabalho”.  Aqui eu o descrevo:

Na capa ou frente principal: um caracol com uma estrela vermelha dentro. E escrito: “Passaporte zapatista de trabalho”. Na capa traseira: uma estrela vermelha com um caracol dentro.

A primeira página se lê: “Este passaporte é outorgado pelas autoridades civis autônomas dos Municípios Autônomos Rebeldes Zapatistas e das Juntas de Bom Governo, Chiapas, México.  Só é válido durante o período estabelecido e no local descrito.  Este documento consta de 32 páginas e não é válido se apresenta deterioração, cortes, rasuras e emendas“.

Nas páginas 2 e 3 há espaços para: foto do titular, dados pessoais, dados da Junta do Bom Governo e MAREZ que expedem o documento. Trabalho a ser realizado. A data de emissão e o calendário e a geografia onde o trabalho será realizado. Lugar para o selo de MAREZ e das JBG.

Nas páginas 4 e 5 são apresentadas as 7 limitações a seguir:

“1.- O, oa ou a titular deste passaporte não pode nem deve pedir ou receber apoio em moeda ou espécie para seu próprio benefício ou de sua família, além daqueles estritamente necessários para cumprir o trabalho que lhe foi confiado.

2.- O titular deste passaporte só poderá fazer o trabalho que se especifica neste documento.

3.- O titular deste documento tem proibido o porte e uso de armas de fogo de qualquer tipo e não pode nem propor, nem sugerir, nem incentivar qualquer atividade que implique ou resulte no uso de armas de fogo no local onde realiza seu trabalho.

4.- A, oa ou o titular deste documento só pode contar nossa história de resistência e rebelião como povos indígenas e como zapatistas, após preparação e treinamento prévios.

5.- O, oa ou a titular deste documento não pode estabelecer acordos ou desacordos em nome das estruturas organizativas e/ou de comando político-militar com pessoas, grupos, coletivos, movimentos e organizações, além do estritamente necessário para o cumprimento do trabalho que lhe foi confiado.

6.- As opiniões pessoais sobre assuntos públicos e privados que expresse oa, o ou a titular deste documento não só não refletem as posições zapatistas, como também podem ser completamente contrárias ao nosso pensamento e prática.

7.- A, o ou oa titular deste documento deverá se conduzir a todo momento respeitando as diferenças de identidade, sexo, credo, língua, cultura e história do povo e dos lugares onde realiza o trabalho para o qual este documento é emitido.

A página 6 se estabelece: “Se acredita que a, oa ou o titular deste documento recebeu um curso de capacitação (se ele aprendeu ou não, será visto nos fatos) em__ (espaço para colocar o nome do lugar)”.

E a página 7 indica as datas de partida e chegada: “A, oa ou o titular deste documento deixou o território zapatista __ (espaço para detalhes e carimbos em meia página).  Na metade inferior da página: “A, oa ou o titular deste documento retornou ao território zapatista: ___ (espaço para detalhes e carimbos)”.

As páginas seguintes estão em branco, para que as diferentes pessoas, grupos, coletivos, organizações e movimentos, dos diferentes cantos dos mundos diferentes que visitem, carimbem, assinem, decorem, risquem, coloquem desenhos, arranhem ou o que quer que seja, para que o, a, ou oa compa possa ter uma espécie de guia de onde estava, além das anotações em seu caderno, para quando retorne e fale sobre como foi.

A última página é para “Observações:” (por exemplo, quaisquer alergias, incapacidades ou gostos musicais – digo, porque se você gosta de cumbia e eles fazem você dançar uma valsa, bem, você pode imaginar -).

Dou fé.

SupGaleano.

Planeta Terra, junho de 2021.

Música “El lago de los Cisnes” de Cesar Acuña Lecca e Los Pasteles Verdes / Versão do sonidero: Heriberto Destructor

EZLN | ILHAS AÇORES, PORTUGAL, EUROPA.

11 de junho de 2021.
(Nota: calendário e horário na geografia do México).

Com sua carinha empoeirada, limpo e reformado o convés, recomposto o velame – após deixar Cienfuegos, Cuba-, em 16 de maio, La Montaña se dirigiu para o oriente. bordeou a praia das Coloradas e, com a Sierra Maestra à sua esquerda, foi novamente acompanhada pelos golfinhos convocados por Durito Stahlkäfer, que praguejou quando passaram diante da aberração americana em Guantánamo. Frente ao Haiti, as baleias saudaram sua passagem, e na Ilha de Tortuga, Durito e o Gato-Cachorro desembarcaram alegando algo sobre um tesouro enterrado… ou por enterrar. Em apoio à equipe de apoio, a Lupita, a Ximena e o Bernal vomitaram fraternalmente, embora ache que eles teriam preferido apoiar de outra forma. Em Punta Rucia, República Dominicana, La Montaña teve descanso e cautela, devido aos fortes ventos de proa. No dia 24 de maio, ao amanhecer e sob plena vela (“para não espantar o vento”, disse o capitão Ludwig), La Montaña tomou rumo ao norte. Agora foram as orcas que saudaram La Montaña ao se despedir das águas do Caribe. Entre os dias 25 e 26 de maio, o navio esquizofrênico – crê ele que é uma ela e ela é montanha -, cercou as Bahamas e no dia 27 rumou ao nordeste, já em mar aberto, Duc in Altum.

No dia 4 de junho, já livre do chamado Triângulo das Bermudas, o navio e sua preciosa tripulação enfrentaram o sol que estava nascendo no oriente. De 5 a 9 de junho, navegaram sobre o local onde a lenda coloca a soberba Atlântida.
Seriam 22:10:15 do dia 10 de junho quando, em meio às brumas do amanhecer europeu, da coifa do vigia de La Montaña se alcançava perceber a montanha irmã, Cabeço Gordo
, na Ilha do Faial do arquipélago dos Açores, uma região autônoma da geografia chamada Portugal, na Europa.

Seriam 02:30:45 do dia 11 de junho quando a visão, “a um passo de distância”, da costa do porto de Horta umedeceu os olhos do navio e da tripulação. Nas montanhas dos Açores, eram 07h30 da manhã deste dia. Eram 03:45:13 quando uma lancha da autoridade portuária da Horta se aproximou de La Montaña para indicar onde ancorar. Eram 04:15:33 quando o navio ancorou em frente às outras montanhas. Eram 08:23:54 quando o bote da Capitania de Porto recolheu a tripulação de La Montaña e os levou para terra para os testes PCR de Covid, e os devolveu ao navio para aguardar os resultados. Em todos os momentos a “Autoridade Marítima“, no porto da Horta, tem se comportado com gentileza e respeito.

A tripulação, incluindo os passageiros, está de muito boa saúde, “animados e contentes, sem discussões, mexericos ou brigas”. (No Esquadrão 421) eles cuidam uns dos outros“.

Aqui é o momento de informar a quem mais, além da tripulação do Stahlratte e o zapatista Esquadrão 421, já navegou neste trecho. Documentando a travessia marítima estão María Secco, fotógrafa independente, e Diego Enrique Osorno, repórter independente. Como equipe de apoio da delegação zapatista vai Javier Elorriaga.

Segundo os costumes e tradições zapatistas, essas três pessoas tinham que, além de cobrir suas despesas, apresentar autorização por escrito de suas famílias, parceiros e prole. Duas cartas foram entregues ao Subcomandante Insurgente Moisés. As esposas, maridos, mães, filhos e filhas escreveram e assinaram as autorizações com sua própria caligrafia. Me tocou lê-las. Há de tudo, desde reflexões filosóficas a desenhos infantis, passando pelo pedido atento de uma menina para que lhe levem uma baleia. Ninguém pediu besouros nem gatos-cachorros, o que não sei se é uma afronta ou um alívio. Nas cartas das crianças se percebe o orgulho de que pai ou mãe dependeram da sua permissão (o clássico zapatista: “os patos atiram as espingardas”). Imagino que já tiveram a oportunidade de ouvir as opiniões de María e Diego, suas anedotas, reflexões e avaliação de sua participação “na primeira fila” (ambos estão no cinema) neste delírio. Outros olhares são sempre bem-vindos e são refrescantes.

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Ao ouvir a notícia nas montanhas do sudeste mexicano, as comunidades zapatistas enviaram uma mensagem à tripulação do Stahlratte, através de seu capitão: “Obrigado, são fantásticos”. Todavia ainda estão tentando traduzir isso para o alemão.

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Para reflexão: o lema dos Açores é “Antes morrer livres que em paz sujeitos“.

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À distância, ao oriente, as colunas de Hércules – que no seu tempo eram o limite do mundo conhecido – olhavam assombrados uma montanha que navegando do ocidente vem.

Dou fé.
SupGaleano.
11 de junho de 2021.

LANÇAMENTO: SOBRE O MOVIMENTO CURDO E O PENSAMENTO DE ÖCALAN, DE DAVID GRAEBER

É com prazer que lançamos hoje o livro “Sobre o movimento curdo e o pensamento de Öcalan”, de David Graeber. Na obra, resultado de um estudo ainda não publicado, o antropólogo radical analisa a potência teórica e do pensamento de Abdullah Öcalan para a luta de libertação do povo curdo, assim como para as ciências humanas e sociais, ponderando sobre as limitações que a universidade atual impõe sobre seus docentes e discentes.

Graeber expõe ainda a batalha travada nas linhas escritas por Öcalan, que busca teoricamente dar suporte ao pensamento autônomo dos povos, ao passo em que encarna a chave para a paz nas regiões onde habitam os curdos, sendo reconhecidamente um líder político e teórico do movimento deste povo.

A obra, que conta com 40 páginas, pode ser adquirida pelo valor de R$15,00 com o frete grátis para todo o país. Em pré-venda, acompanhará o pôster “pela liberdade de Abdullah Öcalan”.

BRIAN MORRIS | A COOPTAÇÃO DA ECOLOGIA PELOS CAPITALISTAS

Há muito tempo, o biólogo Paul Sears descreveu a ecologia como a “ciência subversiva” e não há dúvida de que, quando me envolvi com questões ambientais pela primeira vez, na década de 1960, a ecologia era vista como um movimento radical. Os escritos de Barry Commoner e Murray Bookchin enfatizaram que estávamos enfrentando uma crise ecológica iminente e que as raízes desta crise estavam enraizadas em um sistema econômico – o capitalismo – que era voltado não para o bem-estar humano, mas para a geração de lucro, que não via limites para o crescimento ou a tecnologia, comemorando as conquistas da “megamáquina”.

Em última análise, foi sentido, por Commoner e Bookchin, que o capitalismo era destrutivo não apenas para nós, mas para toda a estrutura da vida no planeta. Pois a ética subjacente do capitalismo era de fato a dominação tecnológica da Natureza, uma ética que via a biosfera como sem valor intrínseco; era simplesmente um recurso a ser explorado pelo capital.

Há mais de trinta anos, Bookchin estava descrevendo o capitalismo como “saqueando” a terra em busca de lucros e destacando com alguma presciência – muito antes de Al Gore e George Monbiot – os problemas do aquecimento global – que o crescente manto de dióxido de carbono levaria para padrões de tempestade destrutivos e, eventualmente, para o derretimento das calotas polares e aumento do nível do mar (em “Post scarcity anarchism”, 1971, p. 60).

Isso foi além de muitos outros problemas ecológicos que Bookchin identificou como constituindo a “crise moderna” – desmatamento, urbanização, o impacto da agricultura industrial, poluição dos oceanos, produtos químicos tóxicos e aditivos alimentares, e a destruição desenfreada da vida selvagem e da perda subsequente da diversidade de espécies.

A crítica ecológica pioneira de Bookchin ao capitalismo industrial foi mais recentemente reafirmada (com pouco reconhecimento a Bookchin!) No excelente “The Enemy of Nature” (2002) de Joel Kovel – o inimigo, é claro, o capitalismo global.

Como as coisas mudaram! O “aquecimento global” está agora firmemente na agenda política, reconhecido por quase todos, exceto alguns neoliberais de direita obstinados, e todos estão sendo persuadidos a encontrar maneiras de “salvar” o planeta. Essa arrogância é bastante incompreensível! Os humanos são totalmente incapazes de destruir o planeta; o que eles estão fazendo por meio de um sistema econômico baseado na ganância e na exploração é tornar muitas partes da terra virtualmente inabitáveis ​​para os humanos e outras formas de vida.

Questões “ecológicas” ou “verdes” têm, portanto, sido adotadas por indivíduos e grupos de todo o espectro político. Até os neonazistas afirmam ser anti-capitalistas e abraçar a perspectiva verde. Portanto, você não ficará surpreso ao saber que a maioria das grandes corporações transnacionais – incluindo Shell, Nestlé e Coca Cola – embarcaram no movimento verde e estão exigindo com entusiasmo que todos reduzamos nossas emissões de carbono.
Então, o que está acontecendo? Quatro tendências, eu acho, são dignas de nota.

  1. As corporações capitalistas estão agora em processo de “tornar mais verde” sua imagem pública. Algo em que a corporação Shell está engajada há várias décadas, devido ao seu péssimo histórico em termos de destruição ambiental. Seria difícil encontrar qualquer grande empresa transnacional hoje em dia que não clama e anuncia com orgulho sua sensibilidade ecológica e suas credenciais “verdes”.
  2. Embora a maioria das pessoas agora reconheça que existe uma crise ambiental, esforços estão sendo continuamente feitos para nos convencer de que essa crise não tem nada a ver com a economia capitalista em si. Ecologistas profundos há muito nos informam que tudo se deve à falta de espiritualidade, ou que há muitas pessoas, ou mesmo que os humanos são por natureza “alienígenas” ou “parasitas” indesejados na Terra. Esses sentimentos misantrópicos foram criticados há muito tempo por Bookchin. Portanto, de acordo com Jonathan Porritt (um conselheiro do New Labour para questões ambientais), o que precisamos é um casamento adequado entre capitalismo e espiritualismo! Deus me livre!
    Os especialistas em desenvolvimento, ao contrário, culpam os problemas ecológicos, como o desmatamento, às vítimas, os camponeses pobres que, por sua pobreza e falta de técnicas agrícolas modernas, estão destruindo – dizem – as florestas. Considerando que, é claro, os principais culpados são as empresas madeireiras, as empresas de mineração, como Vedanta e Rio Tinto, e as empresas de pecuária em expansão que atendem à crescente demanda por carne.
    Os especialistas em desenvolvimento criaram há muito tempo o conceito de “desenvolvimento sustentável”. Isso não tem nada a ver com a conservação da Natureza; é tudo uma questão de sustentar o “desenvolvimento”, ou seja, o crescimento capitalista.
    O que também obscurece a questão é a sugestão de que o aquecimento global e outras questões ambientais nada têm a ver com um sistema econômico voltado para o crescimento e o lucro privado: deve-se exclusivamente às ações de “consumidores” individuais. Portanto, todos nós somos instados a fazer o que pudermos para “salvar” o planeta.
  3. Esta louvável preocupação com o meio ambiente por parte das corporações transnacionais é claramente uma frente para permitir que essas corporações busquem novas oportunidades de expansão capitalista e geração de ainda mais lucro. Assim, parques eólicos industriais cobrindo grandes áreas do campo, a produção crescente de biocombustíveis (às custas da produção de alimentos) e a expansão e exportação da indústria nuclear para todas as partes do mundo, todas as três iniciativas são anunciadas como grandes maneiras de cortar “emissões de carbono” e assim ajudar a salvar o planeta! Mas a que custo social e ecológico? Vale ressaltar que cada uma dessas iniciativas está nas mãos de grandes empresas, amplamente subsidiadas pelos governos ocidentais.
  4. Por fim, o que também vivenciamos nas últimas décadas, ao lado da defesa do capitalismo verde, é a emergência do conceito de “gestão global”. Para proteger o planeta, portanto, precisamos (dizem-nos) é uma infinidade de especialistas em conservação e ecotecnocratas para monitorar o planeta e oferecer conselhos a governos e corporações transnacionais sobre a melhor forma de “salvar” o planeta. Mas “salvar” o planeta, como Wolfgang Sachs argumentou (em “Planet dialectics”, 1999) é na verdade pouco mais do que uma justificativa para uma nova onda de intervenções do Estado na vida das pessoas comuns.

Os anarquistas precisam ser cautelosos e críticos com cada uma dessas quatro tendências. Precisamos, portanto, desenvolver um projeto que combine socialismo (não o individualismo radical dos estetas nietzschianos) e uma sensibilidade ecológica (não o neo-primitivismo) como sugeriram Peter Kropotkin, Edward Carpenter e Eliseé Reclus há muito tempo.


Notas

Traduzido por Raphael Cruz a partir de MORRIS, Brian. Ecology and it’s recuperation by capitalists. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/brian-morris-ecology-and-its-recuperation-by-capitalists. Acesso em 14 fev 2021.

LOUISE MICHEL – EM DEFESA DA COMUNA

Louise Michel, nascida em 29 de maio de 1830, é hoje lembrada como uma das mais influentes e carismáticas revolucionárias do século XIX. Seu papel na Comuna de Paris de 1871 – primeiro no serviço de ambulância e depois na linha de frente com a Guarda Nacional lutando contra as tropas de Versalhes – acabou levando-a à captura e deportação da França para uma colônia penal na Nova Caledônia.

Foi durante seu exílio que Michel se voltou para o anarquismo, que continuaria a dominar sua escrita e organização para o resto de sua vida. Em 1880 ela recebeu anistia e, ao retornar à França, continuou suas atividades revolucionárias, escrevendo artigos, fazendo discursos, montando uma cozinha de sopa para ex-prisioneiros empobrecidos que retornavam do exílio, e viajando pela Europa entregando sua mensagem revolucionária para grandes públicos. Em 1890 ela abriu a Escola Anarquista Internacional para crianças na Praça Fitzroy, em Londres, antes de retornar à França em 1895. Michel morreu em 10 de janeiro de 1905, e seu funeral em Paris foi assistido por mais de 100.000 pessoas.

O desafio revolucionário de Michel é claramente expresso em seu discurso de defesa ante ao 6º conselho de guerra, após sua captura durante a derrota da Comuna de Paris:


Não quero me defender, não quero ser defendida. Pertenço completamente à revolução social, e declaro que aceito total responsabilidade por todas as minhas ações. Aceito-a completamente e sem reservas.

Acusam-me de ter participado do assassinato dos generais? A isso eu responderia sim, se eu estivesse em Montmartre quando eles quisessem que as pessoas fossem fuziladas. Não teria hesitado em atirar eu mesma naqueles que deram tais ordens. Mas não entendo porque eles foram baleados quando eram prisioneiros, e vejo esta ação como uma covardia.

Quanto ao incêndio de Paris, sim, eu participei dele. Desejei me opor ao invasor de Versalhes com uma barricada de chamas. Eu não tinha cúmplices nesta ação. Agi por minha própria iniciativa.

Disseram-me que sou cúmplice da Comuna. Certamente sim, já que a Comuna pretendia mais do que tudo a revolução social, e já que a revolução social é o maior dos meus desejos. Mais do que isso, tenho a honra de ser uma das incitadoras da Comuna, que por sinal não tinha nada – como é sabido – a ver com assassinatos e incêndios. Eu, que estive presente em todas as sessões da Prefeitura, declaro que nunca houve qualquer discussão sobre assassinato ou incêndio.

Querem saber quem são os verdadeiros culpados? São os políticos. E talvez mais tarde se faça luz sobre todos estes acontecimentos que hoje é considerado bastante natural culpar todos os partidários da revolução social…

Mas por que eu deveria me defender? Já declarei que me recuso a fazê-lo. Vocês são homens que vão me julgar. Vocês se sentam diante de mim desmascarados. Vocês são homens e eu sou apenas uma mulher e, no entanto, eu os olho nos olhos. Sei muito bem que tudo o que eu poderia dizer não fará a menor diferença na sentença. Portanto, uma única última palavra antes de me sentar. Nós nunca quisemos nada além do triunfo dos grandes princípios da revolução. Juro por nossos mártires que caíram em Satory, por nossos mártires que eu saúdo em voz alta, e que um dia terão sua vingança.

Mais uma vez eu pertenço a vocês. Façam comigo o que quiserem. Tirem minha vida, se quiserem. Não sou a mulher que discute com vocês por um momento….

O que eu reivindico de vocês, vocês que se dizem um Conselho de Guerra, que se sentam como meus juízes, é que não se disfarcem de uma Comissão de Perdão, vocês que são homens militares e entregam seu julgamento à vista de todos, é em Satory onde nossos irmãos já caíram.

Devo ser afastada da sociedade. Foi-lhes dito que o fizessem assim. Bem, o Comissário da República tem razão. Como aparentemente qualquer coração que bata pela liberdade tem direito apenas ao chumbo, eu também reivindico minha parte. Se vocês me deixarem viver, nunca deixarei de gritar por vingança, e vingarei meus irmãos denunciando seus assassinos na Comissão de Perdão….

Eu terminei. Se vocês não forem covardes, matem-me!


Fonte: ROAR Mag

EZLN | GOLFINHOS!

Golfinhos!

Maio de 2021.

Foram momentos dramáticos. Encurralado, entre cabos soltos e a borda, o bichinho ameaçava a tripulação com sua lança, enquanto pelo canto do olho ele observava o mar revolto, onde um Kraken, da espécie “kraken escarabujos” -especialista em comer besouros-, espreitava. Então, o intrépido clandestino tomou coragem, levantou seus múltiplos braços para o céu e sua voz bramiu, opacando o barulho das ondas que se chocavam contra o casco de La Montaña:

Ich bin der Stahlkäfer, der Größte, der Beste!Beachtung! Hör auf meine Worte! (Eu sou o besouro de aço, o maior, o melhor. Atenção! Escutem minhas palavras!).

A tripulação parou. Não porque um inseto esquizofrênico os desafiou com um palito e uma tampinha de plástico. Nem porque falava com eles em alemão. Foi porque escutar sua língua materna, depois de anos ouvindo apenas o espanhol tropical costeiro, os transportou para sua terra natal como se fosse por um raro encantamento.

Gabriela diria depois que o alemão do bichinho estava mais próximo do alemão de um imigrante iraniano do que do Fausto de Goethe. O capitão defendeu o clandestino, alegando que seu alemão era perfeitamente compreensível. E, como onde o capitão manda Gabriela não governa, Ete e Karl aprovaram, e Edwin, embora só tenha entendido a palavra “cumbia”, concordou. Portanto, o que estou lhe dizendo, é a versão do bicho traduzida do alemão:

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“A hesitação de meus atacantes me deu tempo para refazer minha estratégia defensiva, recompor minha armadura (porque uma coisa é morrer em combate desigual e outra bem diferente é morrer em desordem), e lançar minha contra-ofensiva: um relato….

Foi há algumas luas atrás, nas montanhas do sudeste mexicano. Aqueles que lá vivem e lutam tinham lançado um novo desafio para si mesmos. Mas, naquela época viviam em ansiedade e desânimo porque lhes faltava um veículo para sua viagem. Assim foi até que eu, o grande, o inefável, o etc., Don Durito de La Lacandona A.C. de C.V. de (i)R. (i)L. cheguei em suas montanhas (a sigla, como todos devem saber, significa “Adiante Cavaleiro de Cavalgadura Versátil de Irresponibilidade Ilimitada“). Assim que se espalhou a notícia de minha chegada, multidões de moças, infantes de todas as idades e até mesmo anciãs, correram, rapidamente, para me aclamar. Mas eu me mantive firme e não sucumbi à vanglória. Fui então para os aposentos daquele que estava encarregado da malfadada expedição. Por um momento fiquei confuso: o nariz impertinente daquele que estava fazendo e refazendo as contas impossíveis para custear as despesas da expedição punitiva contra a Europa, me lembrou aquele capitão, que mais tarde seria conhecido como SupMarcos, que orientei durante anos e a quem eduquei com sabedoria. Mas não, embora semelhante, aquele que se diz SupGaleano ainda tem muito a aprender de mim, o maior dos cavaleiros-errantes.

De qualquer forma não tinham barco. Quando coloquei meu navio à disposição daqueles seres, o supracitado Sup, com sarcasmo, me respondeu: “mas só cabe um, e tem que ser muito pequeno, e é… uma lata de sardinhas!“, referindo-se à minha fragata, cujo nome, “Ponham suas barbas de molho” a nomeou a bombordo, na altura da proa. Ignorei tal impertinência e, caminhando através da multidão que ansiava por um olhar meu, uma palavra pelo menos, dirigi-me à ilha “Não tem nome“, descoberta por este narrador em 1999. Já no topo de sua, agora sim, copa arborizada, esperei pacientemente pela madrugada.

Amaldiçoei então o inferno, invoquei deusas de todas as latitudes, chamei a mais poderosa delas: a bruxa escarlate. Ela, a desprezada pelos outros deuses, dada como eles são ao machismo fanfarrão e ao exibicionismo. Ela, a afastada pelas outras deusas, dadas à falsa beleza de enfeites e cosméticos. Ela, a bruxa escarlate, a bruxa mais velha: Oh, die scharlachrote Hexe! Oh, die ältere Hexe!

Conhecendo eu que as chances daqueles estranhos seres, autodenominados Zapatistas, conseguirem um navio decente eram escassas, eu sabia bem que somente o mais poderoso dos poderes mágicos poderiam tirá-los de problemas e cumprir com sua palavra. Portanto, chamei a bruxa mais velha, a de roupagem púrpura, que pode alterar a possibilidade de qualquer coisa acontecer. Ela fez contas e contos e chegou à conclusão de que, de fato, a probabilidade de eles conseguirem um barco era quase zero. Assim ela disse:

Mas nada posso fazer, se não houver pedido. E não apenas qualquer pedido. Deve ser feito por um Titã, um ser grande e magnânimo que, em sua boa natureza, abrigará aqueles que precisam de um mágico evento“.

E quem melhor do que eu, eu gritei alto. A senhora do manto carmesim levantou a mão exigindo meu silêncio. “Isso não é tudo“, sussurrou ela. “É necessário que este Titã arrisque sua vida, sua fortuna e sua reputação na odisseia que estes seres pretendem“. Ou seja, que ele os acompanhe com seu fôlego e gentileza e, ao lado deles, embora não ao seu lado, enfrente desafios e dificuldades. Ou seja, estará e não estará.

Eu concordei porque minha única riqueza são minhas façanhas, arrisco a vida apenas por existir e, bem, minha reputação está nos sótãos do mundo.

A bruxa irmã fez o que se faz nestes casos: ligou seu computador, conectou-se a um servidor na Alemanha, digitou não sei que encantamento, modificou um gráfico de probabilidade e aumentou a porcentagem de quase zero para 99,9%, digitou novamente e um zumbido de sua impressora deu o papel que saiu dele. Não sem antes apreciar a modernização em curso na associação das bruxas escarlate e afins, tomei a nota. Uma única frase a preencheu:

“Se o titã de aço for, encontre seu semelhante, que disso depende o faltante”.

Que significava aquilo? Onde poderia eu encontrar algo ou alguém, não mais semelhante, mas digamos remotamente próximo de minha grandeza? Não há muitos Titãs. De fato, segundo a wikipedia de abaixo e à esquerda, eu sou o único que prevalece. Então “de aço”. O homem de aço? duvido; não acho que a Bruxa Escarlate tenha recomendado um macho. Portanto, uma fêmea ou fêmea de aço.

Caminhei. Viajei da Patagônia para a longínqua Sibéria. Atravessei estradas com o digno Mapuche, gritei com a Colômbia ensanguentada, atravessei a dolorosa mas persistente Palestina, passei por mares manchados pela tristeza negra dos migrantes, e refiz meus passos, acreditando, erroneamente, que havia falhado em minha missão.

Mas, ao desembarcar na geografia que chamam de “México”, algo chamou minha atenção. Em águas turquesas um navio sofria com os reparos e remendos que sua tripulação lhe dava. “Stahlratte“, se lia em um dos lados. Como encontrei a bruxa escarlate na Alemanha de abaixo, e essa palavra significa “rato de aço” em sua língua, decidi tentar minha sorte. Esperei, com sábia paciência, pela noite e pelas sombras que abrigariam a solidão do barco. Subi habilmente pela proa e, contornando por estibordo, cheguei até onde se encontra o centro de comando ou direção do navio. Nele, um homem maldizia em língua germânica com impropérios e blasfêmias que entristeceriam o próprio inferno. Dizia algo sobre a tristeza de deixar os mares e as aventuras. Eu sabia então que o navio estava contando seus últimos dias, e seu capitão e sua tripulação tinham pesadelos de uma vida em terra firme. As bruxas escarlates de todo o mundo estavam conspirando em meu favor e sorte. Mas cabia a mim, o besouro de aço inoxidável, o maior cavaleiro-errante, e etcétera, encontrar “o faltante”. Esperei então que o capitão parasse com seus lamentos e maldições. Quando se calou e só um soluço lhe sufocava a garganta, subi ao leme e de frente para ele disse: “Eu Don Durito, você quem?” O capitão não hesitou em responder “Eu capitão, você clandestino” enquanto brandia um jornal ou revista e ameaçava oprimir minha bela e esbelta figura. Foi então que, em voz alta, me apresentei. O capitão hesitou e guardou silêncio e o jornal ou revista.

Depois, algumas frases foram suficientes para que ambos compreendêssemos que éramos pessoas do mundo, aventureiros por vocação e escolha, seres prontos para enfrentar qualquer desafio, por mais imponente e terrível que fosse.

Já em confiança, contei-lhe a história de uma odisseia em andamento, algo que mais tarde preencheria os anais das histórias que virão, a mais perigosa e ingrata das tarefas: a luta pela vida.

Entrei em detalhes, falei-lhe de um barco construído no meio das montanhas, sem água a não ser a chuva para dar-lhe vocação e razão de existir. Contei-lhe daqueles que tinham decidido abraçar tamanha ousadia, de lendas sobre uma montanha que se recusa a aprisionar seus pés na terra, de mitos e lendas maias na voz de seus originários.

O capitão acendeu um cigarro, me ofereceu um, mas eu tive que recusar quando tirei meu cachimbo. Compartilhamos o fogo e o fumo do tabaco.

O capitão ficou calado e, depois de algumas passadas, disse algo como: “pela minha fé, que grande honra seria juntar-me a uma causa tão nobre e louca“. E acrescentou: “Agora não tenho tripulação, pois já estamos na aposentadoria, mas estou certo de que mulheres e homens virão até mim apenas com o encanto desta história. Vá com os seus e diga a eles para contarem com o que somos, seres humanos e navio“.

Tendo terminado minha história, dirigi-me àqueles que ameaçaram me atirar ao mar: “E assim foi que vocês, meros mortais, embarcaram nesta aventura. Portanto, deixe-me em paz e volte ao seu trabalho e afazeres, pois devo cuidar para que o Kraken deixe nossa casa e nosso caminho em paz. Para isso, convoquei amigos peixes que o manterão afastado“.

-*-

E záz, naquele momento alguém no convés gritou “Golfinhos!” e tod@s subiram no convés armados com câmeras, telefones celulares ou apenas com seus olhos atônitos.

Na confusão, Durito, o maior dos Titãs, o único herói à altura da arte, o cúmplice de magos e bruxas, escapuliu e subiu novamente para, agora sim, a Coifa e dali cantou cantos que, juro, foram replicados pelos golfinhos que, entre ondas e sargaços, dançaram pela vida.

-*-

Mais tarde, no jantar, o capitão confirmou a história do bichinho. E a partir daquele momento, o bichinho deixou de ser “o bichinho” e passou a ser chamado, a partir daquele momento, “Durito Stahlkäfer“, “Durito, o Besouro de Aço”.

Mais uma listra para o tigre“(1), teria dito o falecido SupMarcos, três metros abaixo do convés, err, quer dizer, abaixo da terra.

Agora, com camaradagem, Gabriela corrige a pronúncia germânica de Stahlkäfer; no ombro de Ete, Durito sobe ao topo do mastro principal; acompanha Carl quando toma o leme e o diverte com histórias terríveis e maravilhosas; sobre a cabeça de Edwin lhe dirige no desfraldar e baixar das velas; e nas madrugadas compartilha com o capitão Ludwig o fumo e a palavra.

E, quando o mar está agitado e o vento aumenta seu luxurioso cortejo, o maior espécime de cavaleiro-errante, Stahlkäfer, entretém o Esquadrão 421 relatando lendas incríveis. Como aquela que conta a história absurda de uma montanha que barco se fez pela vida.

Dou fé.

SupGaleano.

Planeta Terra.

Nota: O vídeo dos golfinhos convocados por Stahlkäker foi gravado por Lupita, porque a equipe de apoio da Comissão Sexta, encarregada de tal missão, estava ocupada… vomitando. Sim, é uma vergonha. Agora a missão do Esquadrão 421 é apoiar a equipe de apoio. E ainda há que atravessar o Atlântico (suspiro).

(1) Expressão que designa uma descrição passiva de algum fato negativo contrário à vontade do orador que a assume com humor e resignação.


Música: “La Bruja”, son jarocho interpretado por Sones de México Ensamble, com Billy Branch. Imagens: Parte da travessia de La Montaña, chegada e desembarque em Cienfuegos, Cuba; e a reunião do Esquadrão 421 para ver a página do Enlace Zapatista.
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LANÇAMENTO: O DESPERTAR DOS DEBAIXO: 1968 NA AMÉRICA LATINA, DE RAÚL ZIBECHI

É com muita felicidade que hoje lançamos o livro “O despertar dos debaixo: 1968 na América Latina“, escrito pelo ativista político e jornalista uruguaio Raúl Zibechi.

Na obra, Zibechi analisa as formas de luta e resistência, mas também os modos de sobrevivência coletiva e em solidariedade na América Latina, a partir da “revolução de 1968” na região. Para além da luta armada contra as ditaduras civis-militares-empresariais, Zibechi destaca o desborde de trabalhadores, trabalhadoras, indígenas, estudantes, negras e negros contra os sistemas de dominação que alicerçavam estes regimes em geral, e a estrutura de exploração capitalista na América Latina. Mais do que defender a ação do estado na garantia de direitos (escolas, participação política, territórios, etc), “O despertar dos debaixo” mostra como as forças populares organizaram-se para superar a lógica onde o estado interliga (ou tenta/deveria interligar) a vida plena e a dignidade junto aos povos, fazendo pelas próprias mãos tudo o que lhes diziam respeito.

“O despertar dos debaixo”, que conta com 146 páginas, tem o valor de R$ 25,00 com frete grátis para todo o país. Os primeiros 30 pedidos acompanharão o cartaz “Soy América Latina, un pueblo sin piernas pero que camina“.

Adquira a obra em nossa loja: https//linktr.ee/tsa.editora

EZLN | NO MAR

Maio de 2021.

Pensando em seus passageiros, como deve ser, o Capitão Ludwig recomendou sair na tarde do dia 2. A previsão da ondulação para o dia 3 ia fazer @s marinheir@s novat@s sofrerem mais do que deveriam. Por esta razão, o capitão propôs adiantar a partida para as 1600 horas no segundo dia do quinto mês.

O Subcomandante Insurgente Moisés escutou atentamente e concordou. Portanto, agora que é costume usar a palavra “histórico” para qualquer coisa, esta é a primeira vez que o zapatismo fez algo programado antes do anunciado (normalmente ficamos enrolamos e começamos tarde). Portanto: é algo histórico no zapatismo.

Assim, o Esquadrão 421 saiu às 16:11:30 do dia 2 de maio de 2021. Aqui estão dois relatórios diferentes sobre o mesmo trecho de navegação.

Informe do Esquadrão 421 para o Alto Comando Zapatista:

Itinerário do navio La Montaña. As horas estão dadas com base na hora oficial da Cidade do México, México (UTC -5).

2 de maio de 2021. Às 16:11:30, La Montaña iniciou sua travessia a uma velocidade de aproximadamente 4 nós (1 nó = 1,852 km/h). Às 16:21:30, tomou rumo para o sudeste e às 17:23:04, La Montaña começou uma suave curva para o leste. Às 17:24:13 ela começou a manobrar para desenrolar todas as suas velas. A tripulação, com o apoio do Esquadrão 421, estava içando as velas. Às 17:34 continuou a curva e se dirigiu para o leste. Completou a curva às 17:41, tendo ao norte a ponta sul da Isla Mujeres. Nessa hora rumou para o nordeste, na direção do primeiro território livre da América: Cuba. Com o vento a seu favor, La Montaña manteve velocidades entre 8 e 9 nós. Às 23:01, ao entrar no chamado “Canal Yucatan”, sua velocidade era de 6 nós.

3 de maio. Madrugada

Às 01:42 com uma velocidade de 8 nós, La Montaña se aproxima da costa de Cuba. Referência: Cabo San Antonio. Às 08:18:00, algumas milhas ao sul do Farol Roncali, ela traçou um rumo para sudeste. Velocidade: 5 nós. Às 10:35:30 dá um giro para o norte-nordeste. A velocidade sobe para 7 e 8 nós e rajadas de vento batem as velas. Alguns quilômetros a sudoeste de Cabo Corrientes, o capitão decide entrar na baía do mesmo nome. Às 13:55 bordeia Punta Caimán pela esquerda. Em 3 de maio, às 14:25:15, o capitão decide ancorar em frente ao povoado cubano chamado “María la Gorda”; latitude 21,8225; longitude: 84,4987; para reparar as velas afetadas e esperar que o vento se dissipe.

Em 4 de maio de 2021, às 16:55:30, La Montaña reiniciou a navegação, agora em direção ao oeste-sudoeste, com uma velocidade de 6 nós. Às 17:45:30, na altura do Cabo Corrientes, vira para o Sul-Sudeste. Às 19:05:30 gira para o curso Leste-Nordeste.

Às 00:16:15 do dia 5 de maio, La Montaña navega a 7-8 nós. Às 04:56:30, com Cayo Real e Cayo del Perro ao norte, o motoveleiro ruma para o sul-sudeste. Em frente à costa ocidental da Isla de la Juventud, desenha dois “Z” sucessivos e às 12:07:00 navega paralelamente à costa sul da referida ilha, com 5 nós e na direção leste. O último relatório recebido foi às 23:16:45 de 5 de maio: 6-7 nós rumo ao leste. Se dirige rumo à cidade cubana e ao porto de Cienfuegos, para chegar lá no transcurso do dia 6 de maio.

Em Cienfuegos, La Montaña deverá reabastecer e estacionar por alguns dias, e depois continuar sua viagem. O Esquadrão 421, como um todo, é reportado como estando bem e se adaptando. Sem “vômitos” e apenas com leve mareado.

Isso é tudo por enquanto.

-*-

Relatório enviado por um ser extraordinariamente parecido com um besouro – que viaja clandestinamente em La Montaña -. Os membros da tripulação tentaram de tudo para capturá-lo. Não tiveram sucesso. As vezes em que conseguiram encurralá-lo, o bichinho os enfeitiça com contos e lendas de coisas terríveis e maravilhosas, histórias que aconteceram e ainda estão por acontecer. Quando a tripulação sai do transe, o besouro volta para a coifa do navio e, de lá, declama poemas em várias línguas, grita ameaças e maldições, e desafia a Hydra com um palito como lança e uma tampa de plástico de algum frasco como escudo. Aqui está a narração:

“Mais do que navegar, La Montaña parece dançar ao mar. Como num beijo longo e apaixonado, partiu do porto e se dirigiu para um destino incerto, cheio de obstáculos, desafios, ameaças e não poucos contratempos.

 Uma cumbia lhe acompanha, marcando o ritmo e a distância. Um sol surpreendente se detém, para olhar melhor para os quadris pelo ritmo convocados. A lua, pálida de inveja e raiva, perde o passo com o último e sensual agitar de palmas.

Um vento lascivo, sátiro de nuvens e rajadas, perseguiu La Montaña, olhando para o balançar da popa. A cumbia nada fazia para atenuar desejos e ânsias, e quanto mais ela os encorajava, mais crescia e aumentava. Desajeitado e apressado, como um amante novato, arriscou o vento, com a luxúria, um golpe. Assim, rasgou as velas, douradas pela força do sal e água, com as quais o navio guardava sua preciosa carga.

La Montaña, envergonhada, procurou abrigo e discrição para consertar suas roupas. E assim ela refletiu: “O vento deve aprender que o apetite e os anseios, mútuos hão de ser, ou roubos serão e não amor, que assim chamam”.

Já experiente, La Montaña retomou curso e missão, não sem antes repreender um vento que, entristecido, com furor e brevidade agora o segue, mas que, com a porfiria marinha, a enche de galanteios:

Que abandone o pudor, lhe roga. Que as velas desvaneça e que nua se mostre embora sua luz o olhar fira, suplica. Que a nudez não peca se com outra nudez se cubra, argumenta.

La Montaña, digna e altiva, não cede. Firme e terna o recusa. “Nem mesmo se eu descansar no porto e no porto eu me refaça”, disse La Montaña. E com sua proa aponta e diz: “Olhe aquela outra ilha que nossa esperança e Cuba lhe chamam. A essas montanhas saúdam, desde esta Montaña, seres anacrônicos cujo desafio presente, caminhos de mar andam”.

E, irritada, a embarcação ao vento impertinente repreende. Que se deixe de bisbilhotar debaixo das anáguas, que para desfazer o desejo as vezes uma olhada basta. O vento guardou recato, então, mas não poupou suspiros que o andar do navio melhoravam.

E assim navega La Montaña, lhe segue o vento prometendo madrugadas.

Ao oriente, a espera cresce e, com ela, a esperança”.

Assina: Don Durito de La Lacandona, aka “Black Shield“, aka “Durito“, aka “Nabucodonosor“, aka “Besouro Impertinente“, aka “Desfazedor de Insultos“, aka “o grande, que digo ‘grande’, o gigante, o maravilhoso e superlativo, o hiper-mega-ultra, o supercalifragilisticexpialidoce, o único, o inigualável, ele. ELE, Don Durito de La Lacandona!“, aka “Don Durito de La Lacandona” (seguem vários tomos da enciclopédia de atributos do “maior dos cavaleiros andantes” – a maioria deles, elaborados pelo sobredito).

E acrescenta um longínquo pós-escrito do remoto e finado SupMarcos: “A esperança é como uma bolacha: é inútil se você não a tem dentro de si.

-*-

De minha parte, dissocio-me de tudo o que foi dito acima. Especialmente do informe do bichinho.

Certo. Saúde e que embarcação e ventos da missão se suavizem.

SupGaleano, dançando cumbia como se navegasse.

Planeta Terra.

Maio de 2021.


«Viento en espiral», composição de Jesús G. Camacho Jurado. Interpretado por PsiqueSon.
“Cumbia sobre el mar”: letra e música de Rafael David Mejía Romani. Interpreta: Quantic, Flowering Inferno.
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CULTIVAR A ESPERANÇA REBELDE

Em ciência militar diz-se “moral” para a situação psicológica das tropas, se impulsionadas (ou não) para o combate. Os principais autores de estratégia militar – de Sun Tzu à Klausewitz) apontam que o moral é peça-chave para sustentar e avançar nas lutas, e surge a partir de uma série de situações (orgulho, vitórias heroicas, martirização de indivíduos de um determinado batalhão, etc) que ampliam o sentimento de pertencimento e engajamento para a derrota inimiga.

Em um governo militar-empresarial, a guerra psicológica do moral nos invade permanentemente, e, bem, é óbvio que estão vencendo. Somos massacrados permanentemente por fake news, descrédito, a morte cotidiana pela necropolítica – por vírus ou por chumbo, as cobranças de nosso emprego ou o desespero da incerteza causada pelo desemprego, e sobre a própria vida no projeto governamental em não nos vacinar. Nosso moral, um moral de classe, talvez já toque o fundo do poço. “O Brasil não deu certo”, nas redes sociais, talvez seja a frase mais repetida – e expõe o nosso nível de cansaço diante de nossa avassaladora realidade.

Como, nesse caos e dor que é viver no Brasil, pode-se falar em esperança?

Acontece que a esperança rebelde não espera. Não cabe nas urnas. Não acredita na justiça dos de cima. Ela não aguarda, de 4 em 4 anos, o molho com o qual os ricos irão nos devorar. Se constrói debaixo, pela luta contra o velho mundo e pela construção do novo. Por vezes, uma luta aberta. Grandiosa. Das multidões. Mas em sua maioria, silenciosa, lenta, cheia de obstáculos. Como aquelas flores que nascem no asfalto, rompendo o concreto e encontrando através das fendas, a luz do sol.

E quando nosso horizonte de imaginação se esgota pela ausência de presente (ou melhor, um presente permanente), recorremos ao passado, para lembrar das vitórias do nosso povo, dos exemplos diversos nas formas de garantir a sobrevivência, em geografias e calendários diferentes. Recorremos também ao futuro, tão grande e próspero quanto a nossa luta histórica, na tentativa de erguer um presente de igualdade, liberdade e justiça.

A esperança rebelde é a esperança da ação. É a defesa de um presente e um futuro melhor, que não surgirão sem grandes combates. A esperança rebelde é a solidariedade dos debaixo, a proteção da nossa vida por nós mesmos, mas também é a espada que sustenta nossa digna raiva.

A estrutura que sustenta o neoliberalismo nos ataca ferozmente pois sabe que sua cova já está aberta. Sabe que seu tempo está chegando ao fim, e luta de forma encarniçada para manter-se, mesmo que apodrecida, de pé. Mas luta já sabendo da derrota, e arrastará para a cova todas e todos que conseguir. Para essa cova, busca levar também tudo o que é humano, pois tem consciência de que a paz, a coletividade, o amor e a solidariedade são princípios que podem colocar seus planos em risco. A esperança rebelde nos lembra que a verdadeira amizade, a felicidade, o apoio mútuo, se transformam em armas – ou escudos – em tempos de dificuldade como o que atravessamos.

É chegada a hora. E que a esperança rebelde ilumine nossos caminhos quando a escuridão cobrir nossos passos, e que não permita perdoar nem esquecer quem tirou estas milhares de pessoas de nós.

“Nós sempre vivemos na miséria, e nos acomodaremos a ela por algum tempo, mas não esqueça que os trabalhadores são os únicos produtores de riqueza. Somos nós, os operários, que fazemos marchar as máquinas nas indústrias, nós que extraímos o carvão e os minerais das minas, nós que construímos as cidades. Porque não iríamos reconstruir, e ainda em melhores condições, aquilo que foi destruído? A ruína não nos dá medo. Sabemos que não vamos herdar nada mais que ruínas. Porque a burguesia tratará de arruinar o mundo na última fase da sua história. Porém, nós não tememos as ruínas, porque levamos um mundo novo em nossos corações. Esse mundo está crescendo nesse momento”.

– Buenaventura Durruti.