LANÇAMENTO: O DESPERTAR DOS DEBAIXO: 1968 NA AMÉRICA LATINA, DE RAÚL ZIBECHI

É com muita felicidade que hoje lançamos o livro “O despertar dos debaixo: 1968 na América Latina“, escrito pelo ativista político e jornalista uruguaio Raúl Zibechi.

Na obra, Zibechi analisa as formas de luta e resistência, mas também os modos de sobrevivência coletiva e em solidariedade na América Latina, a partir da “revolução de 1968” na região. Para além da luta armada contra as ditaduras civis-militares-empresariais, Zibechi destaca o desborde de trabalhadores, trabalhadoras, indígenas, estudantes, negras e negros contra os sistemas de dominação que alicerçavam estes regimes em geral, e a estrutura de exploração capitalista na América Latina. Mais do que defender a ação do estado na garantia de direitos (escolas, participação política, territórios, etc), “O despertar dos debaixo” mostra como as forças populares organizaram-se para superar a lógica onde o estado interliga (ou tenta/deveria interligar) a vida plena e a dignidade junto aos povos, fazendo pelas próprias mãos tudo o que lhes diziam respeito.

“O despertar dos debaixo”, que conta com 146 páginas, tem o valor de R$ 25,00 com frete grátis para todo o país. Os primeiros 30 pedidos acompanharão o cartaz “Soy América Latina, un pueblo sin piernas pero que camina“.

Adquira a obra em nossa loja: https//linktr.ee/tsa.editora

EZLN | NO MAR

Maio de 2021.

Pensando em seus passageiros, como deve ser, o Capitão Ludwig recomendou sair na tarde do dia 2. A previsão da ondulação para o dia 3 ia fazer @s marinheir@s novat@s sofrerem mais do que deveriam. Por esta razão, o capitão propôs adiantar a partida para as 1600 horas no segundo dia do quinto mês.

O Subcomandante Insurgente Moisés escutou atentamente e concordou. Portanto, agora que é costume usar a palavra “histórico” para qualquer coisa, esta é a primeira vez que o zapatismo fez algo programado antes do anunciado (normalmente ficamos enrolamos e começamos tarde). Portanto: é algo histórico no zapatismo.

Assim, o Esquadrão 421 saiu às 16:11:30 do dia 2 de maio de 2021. Aqui estão dois relatórios diferentes sobre o mesmo trecho de navegação.

Informe do Esquadrão 421 para o Alto Comando Zapatista:

Itinerário do navio La Montaña. As horas estão dadas com base na hora oficial da Cidade do México, México (UTC -5).

2 de maio de 2021. Às 16:11:30, La Montaña iniciou sua travessia a uma velocidade de aproximadamente 4 nós (1 nó = 1,852 km/h). Às 16:21:30, tomou rumo para o sudeste e às 17:23:04, La Montaña começou uma suave curva para o leste. Às 17:24:13 ela começou a manobrar para desenrolar todas as suas velas. A tripulação, com o apoio do Esquadrão 421, estava içando as velas. Às 17:34 continuou a curva e se dirigiu para o leste. Completou a curva às 17:41, tendo ao norte a ponta sul da Isla Mujeres. Nessa hora rumou para o nordeste, na direção do primeiro território livre da América: Cuba. Com o vento a seu favor, La Montaña manteve velocidades entre 8 e 9 nós. Às 23:01, ao entrar no chamado “Canal Yucatan”, sua velocidade era de 6 nós.

3 de maio. Madrugada

Às 01:42 com uma velocidade de 8 nós, La Montaña se aproxima da costa de Cuba. Referência: Cabo San Antonio. Às 08:18:00, algumas milhas ao sul do Farol Roncali, ela traçou um rumo para sudeste. Velocidade: 5 nós. Às 10:35:30 dá um giro para o norte-nordeste. A velocidade sobe para 7 e 8 nós e rajadas de vento batem as velas. Alguns quilômetros a sudoeste de Cabo Corrientes, o capitão decide entrar na baía do mesmo nome. Às 13:55 bordeia Punta Caimán pela esquerda. Em 3 de maio, às 14:25:15, o capitão decide ancorar em frente ao povoado cubano chamado “María la Gorda”; latitude 21,8225; longitude: 84,4987; para reparar as velas afetadas e esperar que o vento se dissipe.

Em 4 de maio de 2021, às 16:55:30, La Montaña reiniciou a navegação, agora em direção ao oeste-sudoeste, com uma velocidade de 6 nós. Às 17:45:30, na altura do Cabo Corrientes, vira para o Sul-Sudeste. Às 19:05:30 gira para o curso Leste-Nordeste.

Às 00:16:15 do dia 5 de maio, La Montaña navega a 7-8 nós. Às 04:56:30, com Cayo Real e Cayo del Perro ao norte, o motoveleiro ruma para o sul-sudeste. Em frente à costa ocidental da Isla de la Juventud, desenha dois “Z” sucessivos e às 12:07:00 navega paralelamente à costa sul da referida ilha, com 5 nós e na direção leste. O último relatório recebido foi às 23:16:45 de 5 de maio: 6-7 nós rumo ao leste. Se dirige rumo à cidade cubana e ao porto de Cienfuegos, para chegar lá no transcurso do dia 6 de maio.

Em Cienfuegos, La Montaña deverá reabastecer e estacionar por alguns dias, e depois continuar sua viagem. O Esquadrão 421, como um todo, é reportado como estando bem e se adaptando. Sem “vômitos” e apenas com leve mareado.

Isso é tudo por enquanto.

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Relatório enviado por um ser extraordinariamente parecido com um besouro – que viaja clandestinamente em La Montaña -. Os membros da tripulação tentaram de tudo para capturá-lo. Não tiveram sucesso. As vezes em que conseguiram encurralá-lo, o bichinho os enfeitiça com contos e lendas de coisas terríveis e maravilhosas, histórias que aconteceram e ainda estão por acontecer. Quando a tripulação sai do transe, o besouro volta para a coifa do navio e, de lá, declama poemas em várias línguas, grita ameaças e maldições, e desafia a Hydra com um palito como lança e uma tampa de plástico de algum frasco como escudo. Aqui está a narração:

“Mais do que navegar, La Montaña parece dançar ao mar. Como num beijo longo e apaixonado, partiu do porto e se dirigiu para um destino incerto, cheio de obstáculos, desafios, ameaças e não poucos contratempos.

 Uma cumbia lhe acompanha, marcando o ritmo e a distância. Um sol surpreendente se detém, para olhar melhor para os quadris pelo ritmo convocados. A lua, pálida de inveja e raiva, perde o passo com o último e sensual agitar de palmas.

Um vento lascivo, sátiro de nuvens e rajadas, perseguiu La Montaña, olhando para o balançar da popa. A cumbia nada fazia para atenuar desejos e ânsias, e quanto mais ela os encorajava, mais crescia e aumentava. Desajeitado e apressado, como um amante novato, arriscou o vento, com a luxúria, um golpe. Assim, rasgou as velas, douradas pela força do sal e água, com as quais o navio guardava sua preciosa carga.

La Montaña, envergonhada, procurou abrigo e discrição para consertar suas roupas. E assim ela refletiu: “O vento deve aprender que o apetite e os anseios, mútuos hão de ser, ou roubos serão e não amor, que assim chamam”.

Já experiente, La Montaña retomou curso e missão, não sem antes repreender um vento que, entristecido, com furor e brevidade agora o segue, mas que, com a porfiria marinha, a enche de galanteios:

Que abandone o pudor, lhe roga. Que as velas desvaneça e que nua se mostre embora sua luz o olhar fira, suplica. Que a nudez não peca se com outra nudez se cubra, argumenta.

La Montaña, digna e altiva, não cede. Firme e terna o recusa. “Nem mesmo se eu descansar no porto e no porto eu me refaça”, disse La Montaña. E com sua proa aponta e diz: “Olhe aquela outra ilha que nossa esperança e Cuba lhe chamam. A essas montanhas saúdam, desde esta Montaña, seres anacrônicos cujo desafio presente, caminhos de mar andam”.

E, irritada, a embarcação ao vento impertinente repreende. Que se deixe de bisbilhotar debaixo das anáguas, que para desfazer o desejo as vezes uma olhada basta. O vento guardou recato, então, mas não poupou suspiros que o andar do navio melhoravam.

E assim navega La Montaña, lhe segue o vento prometendo madrugadas.

Ao oriente, a espera cresce e, com ela, a esperança”.

Assina: Don Durito de La Lacandona, aka “Black Shield“, aka “Durito“, aka “Nabucodonosor“, aka “Besouro Impertinente“, aka “Desfazedor de Insultos“, aka “o grande, que digo ‘grande’, o gigante, o maravilhoso e superlativo, o hiper-mega-ultra, o supercalifragilisticexpialidoce, o único, o inigualável, ele. ELE, Don Durito de La Lacandona!“, aka “Don Durito de La Lacandona” (seguem vários tomos da enciclopédia de atributos do “maior dos cavaleiros andantes” – a maioria deles, elaborados pelo sobredito).

E acrescenta um longínquo pós-escrito do remoto e finado SupMarcos: “A esperança é como uma bolacha: é inútil se você não a tem dentro de si.

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De minha parte, dissocio-me de tudo o que foi dito acima. Especialmente do informe do bichinho.

Certo. Saúde e que embarcação e ventos da missão se suavizem.

SupGaleano, dançando cumbia como se navegasse.

Planeta Terra.

Maio de 2021.


«Viento en espiral», composição de Jesús G. Camacho Jurado. Interpretado por PsiqueSon.
“Cumbia sobre el mar”: letra e música de Rafael David Mejía Romani. Interpreta: Quantic, Flowering Inferno.
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CULTIVAR A ESPERANÇA REBELDE

Em ciência militar diz-se “moral” para a situação psicológica das tropas, se impulsionadas (ou não) para o combate. Os principais autores de estratégia militar – de Sun Tzu à Klausewitz) apontam que o moral é peça-chave para sustentar e avançar nas lutas, e surge a partir de uma série de situações (orgulho, vitórias heroicas, martirização de indivíduos de um determinado batalhão, etc) que ampliam o sentimento de pertencimento e engajamento para a derrota inimiga.

Em um governo militar-empresarial, a guerra psicológica do moral nos invade permanentemente, e, bem, é óbvio que estão vencendo. Somos massacrados permanentemente por fake news, descrédito, a morte cotidiana pela necropolítica – por vírus ou por chumbo, as cobranças de nosso emprego ou o desespero da incerteza causada pelo desemprego, e sobre a própria vida no projeto governamental em não nos vacinar. Nosso moral, um moral de classe, talvez já toque o fundo do poço. “O Brasil não deu certo”, nas redes sociais, talvez seja a frase mais repetida – e expõe o nosso nível de cansaço diante de nossa avassaladora realidade.

Como, nesse caos e dor que é viver no Brasil, pode-se falar em esperança?

Acontece que a esperança rebelde não espera. Não cabe nas urnas. Não acredita na justiça dos de cima. Ela não aguarda, de 4 em 4 anos, o molho com o qual os ricos irão nos devorar. Se constrói debaixo, pela luta contra o velho mundo e pela construção do novo. Por vezes, uma luta aberta. Grandiosa. Das multidões. Mas em sua maioria, silenciosa, lenta, cheia de obstáculos. Como aquelas flores que nascem no asfalto, rompendo o concreto e encontrando através das fendas, a luz do sol.

E quando nosso horizonte de imaginação se esgota pela ausência de presente (ou melhor, um presente permanente), recorremos ao passado, para lembrar das vitórias do nosso povo, dos exemplos diversos nas formas de garantir a sobrevivência, em geografias e calendários diferentes. Recorremos também ao futuro, tão grande e próspero quanto a nossa luta histórica, na tentativa de erguer um presente de igualdade, liberdade e justiça.

A esperança rebelde é a esperança da ação. É a defesa de um presente e um futuro melhor, que não surgirão sem grandes combates. A esperança rebelde é a solidariedade dos debaixo, a proteção da nossa vida por nós mesmos, mas também é a espada que sustenta nossa digna raiva.

A estrutura que sustenta o neoliberalismo nos ataca ferozmente pois sabe que sua cova já está aberta. Sabe que seu tempo está chegando ao fim, e luta de forma encarniçada para manter-se, mesmo que apodrecida, de pé. Mas luta já sabendo da derrota, e arrastará para a cova todas e todos que conseguir. Para essa cova, busca levar também tudo o que é humano, pois tem consciência de que a paz, a coletividade, o amor e a solidariedade são princípios que podem colocar seus planos em risco. A esperança rebelde nos lembra que a verdadeira amizade, a felicidade, o apoio mútuo, se transformam em armas – ou escudos – em tempos de dificuldade como o que atravessamos.

É chegada a hora. E que a esperança rebelde ilumine nossos caminhos quando a escuridão cobrir nossos passos, e que não permita perdoar nem esquecer quem tirou estas milhares de pessoas de nós.

“Nós sempre vivemos na miséria, e nos acomodaremos a ela por algum tempo, mas não esqueça que os trabalhadores são os únicos produtores de riqueza. Somos nós, os operários, que fazemos marchar as máquinas nas indústrias, nós que extraímos o carvão e os minerais das minas, nós que construímos as cidades. Porque não iríamos reconstruir, e ainda em melhores condições, aquilo que foi destruído? A ruína não nos dá medo. Sabemos que não vamos herdar nada mais que ruínas. Porque a burguesia tratará de arruinar o mundo na última fase da sua história. Porém, nós não tememos as ruínas, porque levamos um mundo novo em nossos corações. Esse mundo está crescendo nesse momento”.

– Buenaventura Durruti.

MURRAY BOOKCHIN | AGRICULTURA RADICAL

Murray Bookchin [1]

A agricultura é uma forma de cultura. O cultivo de alimentos é um fenômeno social e cultural exclusivo da humanidade. Entre os animais, qualquer coisa que possa ser remotamente descrita como cultivo de alimentos parece efêmera, e mesmo entre os humanos, a agricultura se desenvolveu há pouco mais de dez mil anos. No entanto, em uma época em que o cultivo de alimentos é reduzido a uma mera técnica industrial, torna-se especialmente importante insistir nas implicações culturais da agricultura “moderna” – para indicar seu impacto não apenas na saúde pública, mas também na relação da humanidade com a natureza e nas relações humanas.

O contraste entre as práticas agrícolas antigas e modernas é dramático. Na verdade, seria muito difícil compreender uma através da outra, reconhecer que estão unidas por qualquer tipo de continuidade cultural. Nem podemos atribuir esse contraste apenas às diferenças de tecnologia. Nossa época agrícola – distintamente capitalista – concebe o cultivo de alimentos como uma empresa a ser operada com o propósito de gerar lucro em uma economia de mercado. Desse ponto de vista, a terra é uma mercadoria alienável chamada “imóvel”, o solo um “recurso natural” e a comida um valor de troca que é comprada e vendida impessoalmente por meio de um meio chamado “dinheiro”. A agricultura, com efeito, não difere mais de qualquer ramo da indústria como a siderurgia ou a produção de automóveis. De fato, na medida em que o cultivo de alimentos é afetado por fatores não industriais, como mudanças climáticas e sazonais, carece da exatidão que marca uma operação verdadeiramente “racional” e cientificamente administrada. E, para que esses fatores naturais não escapem à manipulação burguesa, eles também são objetos de especulação nos mercados futuros e entre os intermediários no circuito comercial da fazenda ao ponto de venda.

Neste domínio impessoal de produção de alimentos, não é surpreendente descobrir que um “agricultor” muitas vezes acaba sendo um piloto de avião que pulveriza as plantações com pesticidas, um químico que trata o solo como um repositório sem vida de compostos inorgânicos, um operador de imensas máquinas agrícolas que está mais familiarizado com motores do que com botânica e, talvez mais decisivamente, um financista cujo conhecimento da terra pode ser menor do que o de um motorista de táxi urbano. Os alimentos, por sua vez, chegam ao consumidor em embalagens e em formas altamente modificadas e desnaturadas a ponto de ter pouca semelhança com o original. No supermercado moderno e brilhante, o comprador caminha sonhadoramente por um espetáculo de materiais embalados em que as imagens de plantas, carne e laticínios substituem as formas de vida das quais derivam. O fetiche assume a forma do fenômeno real. Aqui, o relacionamento do indivíduo com uma das experiências naturais mais íntimas – os nutrientes indispensáveis ​​à vida – é divorciado de suas raízes na totalidade da natureza. Vegetais, frutas, cereais, laticínios e carnes perdem sua identidade como realidades orgânicas e muitas vezes adquirem o nome da empresa que os produz. O “Big Mac” e a “Salsicha Swift” não transmitem a menor noção de que uma criatura viva foi dolorosamente massacrada para fornecer ao consumidor aquela comida.

Essa visão desnaturada está em forte conflito com uma sensibilidade animista anterior que via a terra como um domínio inalienável, quase sagrado, o cultivo de alimentos como uma atividade espiritual e o consumo de alimentos como um ritual social sagrado. Os Cayuses do Noroeste não foram os únicos a ouvir o solo, pois o “Grande Espírito”, nas palavras de um chefe Cayuse, “apontou as raízes para alimentar os índios”[2]. O solo vivia e sua voz precisava ser atendida. Na verdade, essa visão pode ter sido um obstáculo cultural à disseminação do cultivo de alimentos; poucas declarações do caçador contra a agricultura são mais comoventes do que as memoráveis ​​observações de Smohalla: “Você me pede para arar a terra. Devo pegar uma faca e rasgar o seio de minha mãe? Então, quando eu morrer, ela não me levará ao seu seio para descansar”[3].

Quando a agricultura surgiu, ela claramente perpetuou a sensibilidade animista do caçador. A riqueza da narrativa mítica que cerca o cultivo de alimentos é o testemunho de um mundo encantado repleto de vida, propósito e espiritualidade. A noção de Ludwig Feuerbach de Deus como a projeção do homem omite até que ponto o homem primitivo é marcado pela impressão do mundo natural e, nesse sentido, é uma extensão ou projeção dele. Dizer que a humanidade primitiva viveu em “parceria” com este mundo tende a subestimar o caso; a humanidade viveu como parte deste mundo – não ao lado ou acima dele.

Porque o solo era vivo, na verdade a origem da vida, cultivá-lo era um ato sagrado que exigia rituais invocadores e apaziguadores. Praticamente todos os aspectos do procedimento agrícola tinham sua dimensão santificadora, desde o preparo da lavoura até a colheita da safra. A própria colheita era abençoada, e “partir o pão” era ao mesmo tempo um ritual doméstico que afirmava diariamente a solidariedade dos parentes e um ato de pacificação hospitaleira entre o estrangeiro e a comunidade. Ainda fechamos uma negociação com uma bebida ou celebramos um evento importante com um banquete. Derrubar uma árvore ou matar um animal exigia rituais apaziguadores, que reconheciam que a vida era inerente a esses seres e que essa vida participava de uma constelação sagrada de fenômenos.

Por mais ingênuos que os mitos e muitas dessas práticas possam parecer à mente moderna, eles refletem uma verdade sobre a situação agrícola. Depois de ter perdido o contato com essa sensibilidade “pré-científica” – com grande custo para a fertilidade da terra e seu equilíbrio ecológico – sabemos que o solo está muito vivo; que tem sua saúde, seu equilíbrio dinâmico e uma complexidade comparável à de qualquer comunidade viva. Não que os detalhes que entram nesse conhecimento sejam novos; em vez disso, estamos cientes deles de uma forma nova e holística. Ainda no início dos anos 1960, a agronomia americana geralmente via o solo como um meio no qual os organismos vivos eram em grande parte estranhos ao manejo químico do cultivo de alimentos. Tendo saturado o solo com nitratos, inseticidas, herbicidas e uma espantosa variedade de compostos tóxicos, nos tornamos vítimas de um novo tipo de poluição que poderia muito bem ser chamado de “poluição do solo”. Essas toxinas são os ingredientes ocultos da mesa de jantar, espectros invisíveis que voltam para nós como resíduos de nossa atitude exploradora em relação ao mundo natural. Não menos significativo, danificamos gravemente o solo em vastas áreas da Terra e o reduzimos à imagem simplificada do ponto de vista científico moderno. A vida animal e vegetal tão essencial para o desenvolvimento de um solo nutritivo é diminuída e, em muitos lugares, o solo aproxima-se da esterilidade da areia do deserto.

Em contraste, a agricultura antiga, apesar de seus aspectos imaginários, definiu a relação da humanidade com a natureza dentro de sólidos parâmetros ecológicos. Como observa Edward Hyams, a atitude das pessoas e sua cultura é tanto parte de seu equipamento técnico quanto do modo que os empregam. Se o “machado era apenas a ferramenta física que o homem antigo usava para cortar árvores” (…), “qual era a ferramenta espiritual?”. Esta “ferramenta” é o “membro sagrado que permite que as pessoas controlem e verifiquem suas ações por referência ao ‘sentimento’ que possuem sobre as consequências das mudanças que fazem em seus ambientes”. Assim, o abate de árvores teria sido limitado por seu estado de espírito, já que as primeiras pessoas “acreditavam que as árvores tinham alma e as adoravam, e associavam certos deuses a certas árvores. Osiris com acácia; Apollo com carvalho e maçã. Os templos de muitos povos primitivos eram bosques (…)”. Se os aspectos míticos desta mentalidade são suficientemente evidentes, o fato é que a mentalidade como tal “era imensamente valiosa para a ecologia do solo e, portanto, a longo prazo, para o homem”. Isso significava que nenhuma árvore seria abatida sem necessidade, mas somente quando fosse absolutamente necessário. Os ritos expiatórios serviriam constantemente para lembrar aos arboricultores que eles estavam fazendo um trabalho perigoso e importante (…)”[4]. Pode-se acrescentar que, se a cultura fosse considerada como uma “ferramenta”, uma pequena mudança de ênfase tornaria facilmente possível considerar as ferramentas como cultura. Na verdade, o que marca de forma única a mentalidade burguesa é o rebaixamento da arte, dos valores e da racionalidade a meras ferramentas – uma mentalidade que até se infiltrou na crítica radical do capitalismo se quisermos julgar a partir do teor da literatura marxista que hoje abunda.

Uma abordagem radical da agricultura busca transcender a abordagem instrumental predominante, que vê o cultivo de alimentos apenas como uma “técnica humana” oposta aos “recursos naturais”. Essa abordagem radical é literalmente ecológica, no sentido estrito de que a terra é vista como um oikos – um lar. A terra não é um “recurso” nem uma “ferramenta”, mas o oikos de uma miríade de tipos de bactérias, fungos, insetos, minhocas e pequenos mamíferos. Se a caça deixa este oikos essencialmente intacto, a agricultura, ao contrário, o afeta profundamente e torna a humanidade parte integrante dele. Os seres humanos não afetam mais indiretamente o solo; eles intervêm em suas teias alimentares e ciclos biogeoquímicos direta e imediatamente.

Por outro lado, torna-se muito difícil entender as instituições sociais humanas sem se referir às práticas agrícolas predominantes de um período histórico e, em última instância, à situação do solo a que se aplicam. A descrição de Hyams de cada comunidade humana como uma “comunidade do solo” é infalível; historicamente, os tipos de solo e as mudanças tecnológicas agrárias desempenharam um papel importante, muitas vezes decisivo, para determinar se a terra seria trabalhada de forma cooperativa ou individualista – seja de forma conciliadora ou exploradora – e isto, por sua vez, afetou profundamente o sistema predominante de relações sociais. Os impérios altamente centralizados do mundo antigo eram claramente fomentados pelos trabalhos de irrigação necessários para as regiões áridas do Oriente Próximo; o vilarejo medieval cooperativo, pelo sistema de faixas a céu aberto e pela arado de aiveca. Lynn White, Jr., de fato, enraíza a atitude coerciva ocidental em relação à natureza desde os tempos carolíngios, com a ascendência do pesado arado europeu e a consequente tendência de atribuir terras aos camponeses não de acordo com suas necessidades de subsistência familiar, mas “na proporção de sua contribuição para a lavoura”[5]. “Os antigos calendários romanos haviam ocasionalmente mostrado cenas do gênero na atividade humana, mas a tradição dominante (que continuou em Bizâncio) era a de retratar os meses como personificações passivas. Os novos calendários carolíngios, que estabeleceram o padrão para a Idade Média, são muito diferentes: eles mostram uma atitude coerciva em relação aos recursos naturais. Eles são definitivamente de origem nórdica; pois a azeitona, que se desenvolveu de tal forma nos ciclos romanos, desapareceu atualmente. As imagens mudam para cenas de arado, colheita, corte de madeira, pessoas atirando milho aos porcos, matança de porcos. O homem e a natureza são agora duas coisas, e o homem é o mestre”[6].

No entanto, só quando chegamos à era capitalista moderna é que a humanidade e a natureza se separaram como inimigos quase completos, e o “domínio” pelo ser humano sobre o mundo natural assume a forma de um domínio severo, e não apenas uma mera classificação hierárquica. A ruptura dos laços corporativos que uma vez uniram clansfolk, guildsmen e a fraternidade da polis em um nexo de ajuda mútua, a redução de todos a um comprador ou vendedor antagônico; a regra da competição e do egoísmo em todas as esferas da vida econômica e social – tudo isso dissolve completamente qualquer senso de comunidade, seja com a natureza ou na sociedade. A concepção tradicional de que a comunidade é o autêntico lugar da vida se desvanece tão completamente da consciência humana que ela deixa de exercer qualquer relevância para a própria condição humana. O novo ponto de partida para formar uma concepção da sociedade ou da psique é o homem isolado e atomizado que se defende em uma selva competitiva. As consequências desastrosas desta visão da natureza e da sociedade são suficientemente evidentes em um mundo sobrecarregado por antagonismos sociais explosivos, simplificação ecológica e poluição generalizada.

A agricultura radical procura restaurar o senso de comunidade da humanidade: primeiro, dando pleno reconhecimento ao solo como um ecossistema, uma comunidade biótica; segundo, encarando a agricultura como a atividade de uma comunidade humana natural, de uma sociedade e cultura rurais. De fato, a agricultura se torna a interface prática e cotidiana do solo e das comunidades humanas, o meio pelo qual ambos se encontram e se combinam. Tal encontro e combinação envolve vários pressupostos-chave. O mais óbvio deles é que a humanidade é parte do mundo natural, não acima dele como “mestre” ou “senhor”. Inegavelmente, a consciência humana é única em seu escopo e discernimento, mas esta singularidade não é motivo para dominação e exploração. A agricultura radical, a este respeito, aceita o preceito ecológico de que a variedade não precisa ser estruturada segundo linhas hierárquicas, como tendemos a fazer sob a influência da própria sociedade hierárquica. Coisas e relações que beneficiam a biosfera devem ser valorizadas para beneficiar a biosfera em si mesma, cada uma delas única à sua maneira e contribuindo para o todo – sem uma acima ou abaixo da outra.

A variedade, tanto na sociedade quanto na agricultura, longe de ser limitada, deve ser promovida como um valor positivo. Estamos agora muito familiarizados com o fato de que quanto mais simplificado for um ecossistema – e, na agricultura, quanto mais limitada for a variedade de espécies envolvidas – mais provável é que o ecossistema se decomponha. Quanto mais complexas forem as teias alimentares, mais estável será a estrutura biótica. Esta percepção, que ganhamos com um custo tão alto para a biosfera e para nós mesmos, reflete meramente o antigo impulso de evolução. O avanço do mundo biótico consiste principalmente na diferenciação e crescente teia de interdependência de formas de vida em um planeta inorgânico – um processo longo que remodelou a atmosfera e a paisagem ao longo de linhas que são favoráveis a organismos complexos e cada vez mais inteligentes. O aspecto mais desastroso das metodologias agrícolas predominantes, com ênfase na monocultura, híbridos de culturas e produtos químicos, tem sido a simplificação que introduziram no cultivo de alimentos – uma simplificação que ocorre em uma escala tão global que pode muito bem lançar o planeta de volta a um estágio evolutivo onde poderia suportar apenas formas de vida mais simples.

O respeito da agricultura radical pela variedade implica o respeito pela complexidade de uma situação agrícola equilibrada: os inúmeros fatores que influenciam a nutrição e o bem-estar das plantas; as diversificadas relações de solo que existem de área para área; a complexa interação entre os fatores climáticos, geológicos e bióticos que fazem as diferenças entre um trecho de terra e outro; e a variedade de formas pelas quais as culturas humanas reagem a essas diferenças. Assim, o agricultor radical vê a agricultura não apenas como ciência, mas também como arte. O cultivador de alimentos deve viver em termos íntimos com uma determinada área de terra e desenvolver uma sensibilidade para suas necessidades especiais – necessidades que não podem ser satisfeitas por nenhuma abordagem de manual. O cultivador de alimentos deve fazer parte de uma “comunidade do solo” no sentido muito significativo de que ela ou ele pertence a um sistema biótico único, bem como a um determinado sistema social.

No entanto, lidar com estas questões meramente em termos de técnica seria uma melhoria limitada em relação à abordagem que prevalece hoje em dia na agricultura. Ser um perito técnico em uma abordagem “orgânica” da agricultura não é melhor do que ser um mero praticante da abordagem química. Não nos transformamos em “agricultores orgânicos” simplesmente por meio do consumo das últimas revistas e manuais nesta área, assim como não nos tornamos saudáveis por meio do consumo de alimentos “orgânicos” adquiridos no mais novo supermercado. O que basicamente separa a abordagem orgânica da sintética é a atitude geral e a práxis que o cultivador de alimentos traz para o mundo natural como um todo. Numa época em que os alimentos orgânicos e o ambientalismo se tornaram moda, talvez seja bom distinguir a perspectiva ecológica da agricultura radical do “ambientalismo” tosco que é tão difundido atualmente. O ambientalismo vê o mundo natural meramente como um habitat que deve ser modificado com o mínimo de poluição para atender às “necessidades” da sociedade, por mais irracionais que estas possam ser. Uma perspectiva verdadeiramente ecológica, em contraste, vê o mundo biótico como uma unidade holística da qual a humanidade faz parte. Assim, neste mundo, as necessidades humanas devem ser integradas com as da biosfera para que a espécie humana possa sobreviver. Esta integração, como já vimos, envolve um profundo respeito pela variedade natural, pela complexidade dos processos e relações naturais, e pelo cultivo de uma atitude mutualista em relação à biosfera. A agricultura radical, em suma, implica não apenas novas técnicas no cultivo de alimentos, mas uma nova sensibilidade não-prometeica em relação à terra e à sociedade como um todo.

Podemos esperar alcançar plenamente esta nova sensibilidade apenas como indivíduos, sem considerar o mundo social?

A agricultura radical, penso eu, seria obrigada a rejeitar uma abordagem isolada deste tipo. Embora a prática individual, sem dúvida, desempenhe um papel inestimável no início de um amplo movimento de reconstrução social, no final não conseguiremos uma relação ecologicamente viável com o mundo natural sem uma sociedade ecológica. O capitalismo moderno é inerentemente antiecológico: a relação principal a partir da qual ele é constituído – a relação comprador-vendedor – coloca o indivíduo contra o indivíduo e, em maior escala, a humanidade contra a natureza. A lei de vida do capital é a expansão infinita, da “produção pela produção” e do “consumo pelo consumo”, torna o domínio e a exploração da natureza no “bem mais elevado” da vida social e da autorrealização humana. Mesmo Marx sucumbe a esta mentalidade inerentemente burguesa quando atribui ao capitalismo uma “grande influência civilizadora” por reduzir a natureza “pela primeira vez simplesmente [a] um objeto para a humanidade, puramente uma questão de utilidade (…)”. A natureza “deixa de ser reconhecida como um poder em seu próprio direito; e o conhecimento de suas próprias leis surge exclusivamente como um estratagema destinado a subjugá-la às exigências humanas (…)”[7].

Em contraste com esta tradição, a agricultura radical é essencialmente libertária em sua ênfase na comunidade e no mutualismo, e não na competição. Uma ênfase que deriva dos escritos de Peter Kropotkin[8] e William Morris. Essa ênfase poderia ser justamente chamada de ecológica antes da palavra “ecologia” se tornar moda, de fato, antes de ser cunhada por Ernst Haeckel há um século. A noção de combinar cidade com campo, de alternar tarefas especificamente urbanas com agrícolas, havia sido levantada pelos chamados socialistas utópicos, como Charles Fourier, durante a Revolução Industrial. Variedade e diversidade nas atividades laborais – o ideal helênico do indivíduo completo em uma sociedade completa – encontrou sua contraparte física em ambientes variados que não eram estritamente urbanos ou rurais, mas uma síntese de ambos. A ecologia validou este ideal ao revelar que elas formavam a condição prévia não apenas para o bem-estar psíquico e social da humanidade, mas também para o bem-estar do mundo natural.

Nossa própria era foi mais longe do que esta abordagem visionária. Há um século, ainda era possível chegar ao campo sem dificuldades, mesmo das maiores cidades e, se assim se desejasse, deixar a cidade permanentemente para um modo de vida rural. O capitalismo não tinha apagado tão completamente o legado da humanidade que faltassem evidências de enclaves de bairro, estilos de vida e personalidades peculiares, diversidade arquitetônica e até mesmo pequenas comunidades. Por mais predatório que fosse o novo sistema industrial, ele não havia eliminado completamente a escala humana a ponto de deixar o indivíduo totalmente despersonalizado e alienado. Em contraste, somos obrigados a ocupar até mesmo áreas quase rurais que se tornaram essencialmente urbanizadas, e somos reduzidos a dígitos anônimos em um espantoso aparelho burocrático que carece de personalidade, relevância humana, ou compreensão individual. Em população, senão em tamanho físico, nossas cidades se comparam aos estados-nação do século passado. A escala humana foi substituída pela escala desumana. Dificilmente podemos compreender nossas próprias vidas, muito menos administrar a sociedade ou nosso ambiente imediato. Nossa própria auto-integridade, hoje, está implicada na dificuldade de alcançar a visão que os utópicos e libertários radicais tiveram há um século. Neste assunto, estamos lutando não apenas por um modo de vida melhor, mas por nossa própria sobrevivência.

A agricultura radical oferece uma resposta significativa a esta situação desesperada em termos não de uma busca fantasiosa por um refúgio agrário remoto, mas de uma recolonização sistemática da terra ao longo de linhas ecológicas. As cidades devem ser descentralizadas – e isto não é mais uma fantasia utópica, mas uma necessidade que até mesmo o planejamento urbano convencional está começando a reconhecer – e novas ecocomunidades devem ser estabelecidas, adaptadas artisticamente aos ecossistemas em que estão localizadas. Estas ecocomunidades devem ser dimensionadas pela escala humana, tanto para permitir o maior grau possível de autogestão quanto para permitir a compreensão pessoal da situação social. Não se trata aqui de uma administração burocrática e centralizada, mas de um sistema voluntarioso no qual a economia, a sociedade e a ecologia de uma área são administradas pela comunidade como um todo, e a distribuição dos meios de vida é determinada pela necessidade, e não pelo trabalho, lucro ou acumulação.

Mas a agricultura radical leva esta tradição mais longe na própria tecnologia. No pensamento social contemporâneo, a tecnologia tende a ser polarizada em formas altamente centralizadas de trabalho – formas extensivas de trabalho, por um lado, e formas descentralizadas, em escala artesanal, de trabalho intensivo, por outro. A agricultura radical orienta o meio-termo estabelecido por uma ecotecnologia: ela se vale da tendência à miniaturização e versatilidade, produção de qualidade e uma combinação equilibrada de fabricação em massa e artesanato. Para além da tecnologia de combustível fóssil usada atualmente, estamos começando a ver o surgimento de uma nova tecnologia – uma tecnologia que se presta à implantação local de muitos recursos energéticos em pequena escala (eólica, solar e geotérmica) – que proporciona uma maior autonomia na utilização de máquinas pequenas e polivalentes, e que pode nos fornecer facilmente os produtos semiacabados de alta qualidade que nós, como indivíduos, podemos escolher para produzir de acordo com nossas tendências e gostos. As ecocomunidades do futuro seriam assim sustentadas por ecotecnologias[9]. As pessoas dessas comunidades, vivendo em uma sociedade agrícola e industrial altamente diversificada, estariam livres para se valer das tecnologias mais sofisticadas sem sofrer as distorções sociais que colocaram a cidade contra o campo, a mente contra o trabalho e a humanidade contra si mesma e o mundo natural.

A agricultura radical traz todas essas possibilidades ao centro das atenções, pois devemos começar com a terra, pois os materiais básicos para a vida são adquiridos da terra. Esta não é apenas uma verdade ecológica, mas também uma verdade social. O tipo de prática agrícola que adotamos reflete e reforça a abordagem que vamos utilizar em todas as esferas da vida industrial e social. O capitalismo começou historicamente minando e superando a resistência do mundo agrário tradicional por uma economia de mercado; ele nunca será totalmente transcendido a menos que uma nova sociedade seja criada na terra que liberte a humanidade no sentido mais pleno e restabeleça o equilíbrio entre a sociedade e a natureza.


[1] BOOKCHIN, Murray. Radical agriculture. In: MERRILL, Richard (Ed.). Radical agriculture. Nova York: Harper Colophon Books, 1976. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/murray-bookchin-radical-agriculture. Acesso em 28 jan 2021.[2] T.C. McLuhan, ed., Touch the Earth. New York: Outerbridge & Lazard, 1971, p.8.
[3] Ibid., p. 56.
[4] Edward Hyams, Soil and Cultivation (London: Thames & Hudson, 1952), pp. 274, 276.
[5] Lynn White, Jr., Medieval Technology and Social Change. New York: Oxford Univ. Press, 1962, p. 56.
[6] Ibid., p. 57.
[7] Karl Marx, Grundrisse, ed. and trans. David McLellan. New York; Harper & Row, 1971, p. 94.
[8] P. Kropotkin, Fields, Factories and Workshops Tomorrow. New York: Harper & Row, 1974; Mutual Aid. Boston: Sargent Publishers, 1955., and also: Conquest of Bread. New York: New York University Press, 1972.
[9] Murray Bookchin, Post-Scarcity Anarchism. Berkeley: Ramparts Press, 1972. 

EZLN | O EMBARQUE

Do caderno do Gato-Cachorro:

O Embarque.

La Montaña foi embarcada no dia 30 de abril de 2021. O navio estava ancorado a cerca de 50 braças do porto, “alejado del bullicio/ y la falsa sociedad” (1). À sua volta, as gaivotas, corvos-marinhos, fragatas, guarás e até mesmo um beija-flor cândido, perdido, procurava fazer um ninho no púlpito do arco. No casco, abaixo da linha d’água, golfinhos-garrafa tamborilavam uma cumbia, um tubarão-baleia carregava o ritmo com suas barbatanas e a arraia-manta espalhava suas asas pretas como cadeiras voando.

O grupo bucaneiro era liderado pelo Subcomandante Insurgente Moisés que, com uma tropa formada por uma tercia insurgenta, um choferólogo e mecânico insurgente, um choferólogo de base, 5 terci@s, uma comandanta e dois comandantes, assistia para despedir a delegação marítima, o Esquadrão 421, e verificar, in situ, que a embarcação tinha o que era necessário para a epopeia náutica. Uma equipe de apoio da Comissão Sexta estava presente para escrever os obituários dos caídos em ação.

Não houve resistência por parte da tripulação. De fato, desde antes o capitão havia ordenado içar, por catracas, uma grande manta com a imagem que identifica a delegação marítima zapatista, acrescentando assim a La Montaña, com toda a tripulação incluída, à luta pela vida. Com a armação desfeita, mais luzia e impetuoso cintilava o símbolo do delírio zapatista.

Então, digamos, foi um embarque consensual. Não houve nenhuma intenção agressiva por parte da tropa zapatista, nem por parte dos marinheiros anfitriões. E pode-se dizer que, entre nós e os marinheiros de La Montaña, houve uma espécie de cumplicidade. Embora, na primeira reunião, el@s tenham ficado tão surpres@s quanto nós.

E teríamos ficado lá, olhando uns para os outros e sem movimento, não fosse o fato de, avançando da popa, um inseto extraordinariamente semelhante a um besouro, gritar: “A bordo! Se são muitos, corremos! Se são poucos, nos escondemos! E se não há nenhum, avante, pois para morrer nascemos!”. Foi isso que decidiu tudo. A tripulação parecia estupefata com o bichinho e nós… não sabíamos se pedíamos desculpas pela irrupção ou nos juntávamos ao ataque pirata.

O Subcomandante Insurgente Moisés achou que era o momento certo para as apresentações, então ele disse: “Boa tarde. Meu nome é Moisés, Subcomandante Insurgente Moisés, e este é…“. Quando ele se virou para apresentar a tropa, SubMoy notou que ninguém estava lá.

Todos passeavam pelo barco com mal dissimuladas mostras de alegria e entusiasmo: as companheiras delegadas, como rainhas do Caribe, acenavam do lado do porto para os barcos cheios de turistas que os olhavam com curiosidade e escândalo, talvez surpresos que, com este calor, as compas vestiam longas anáguas. Especialmente porque as turistas estavam usando biquínis que, ao menos por uma vez, bem despojados, você não acreditaria. Marijose foi para a proa e de lá contemplou a casa de Ixchel, e pensava para si que não usaria seus hiper ultra mini shorts, porque não precisava humilhar as cidadãs com sua sensualité.

Os Comandantes David e Hortensia davam as últimas recomendações a Lupita com um sorriso que transbordava a máscara. O Comandante Zebedeo repetia para si mesmo: “Não vou ficar tonto, não vou ficar tonto”, que é o antiemético que SupGaleano lhe recomendou.

@s terci@s (4 homens, uma compa e uma insurgenta), por sua vez, tiravam fotos e vídeos de tudo, e quando eu digo “tudo”, quero dizer tudo. Portanto, não se surpreenda se as fotos mostrarem apenas clarabóias, cordas, a corrente de âncora, guincho, molinete, orinque, lonas, baldes para tirar água, e outras coisas típicas de um navio prestes a atravessar o Atlântico na nobre missão de invadir, quero dizer, conquistar, quero dizer, visitar a Europa.

O Marcelino e o Monarca perguntaram pela casa das máquinas e, não sei de onde, tiraram uma caixa de ferramentas e, com um alicate e chaves de fenda, foram para onde achavam que o motor deveria estar porque, explicaram a um capitão espantado, pelo som se deduzia que precisava de afinação. Bernal e Felipe (ajuda de Darío – que teve que ficar em terra para o passaporte de sua prole -, 49 anos, nativo de Tzeltal; fala fluentemente tzeltal e castilho; pai de 4 – o mais velho tem 23 anos e o mais jovem 13 -; foi miliciano, sargento, líder local, conselho autônomo em MAREZ, diretoria do bom governo, professor da escurlita e motorista; música que ele gosta: romântico, rancheras, banda, cumbias, revolucionárias; cores favoritas: preto, azul e cinza; preparado 6 meses como delegado; voluntário para viajar de barco se alguém não pudesse; experiência marítima: nula), juntou-se à equipe mecânica Zapatista (para que, em alto-mar, não fossem necessários reparos).

A tripulação de La Montaña, uma vez recuperada do desconforto de tal outro embarque, se distribuiu estrategicamente no convés, antecipando que a exaltação zapatista atingiria um de nós no mar.

Se isso tivesse acontecido, estaríamos preparados, acreditem. Devido à composição da delegação, na noite anterior discutimos como deveríamos gritar se isso acontecesse: “homem ao mar” ou “mulher ao mar” ou “outroa ao mar” ou “tercio ao mar” ou “choferólogo ao mar” ou “besouro ao mar”, e assim por diante. O problema era que, para saber o que gritar, o SubMoy tinha que primeiro passar a lista e ver quem estava faltando, e depois, sim, dar a ordem de “pânico a sotavento” (que a delegação havia praticado com perfeição no Centro de Treinamento, área de Naufrágios e Afundamentos) para que tod@s gritassem. Como os segundos que seriam perdidos (na realidade, nas práticas eram longos minutos) poderiam ser decisivos, foi decidido gritar “Zapatista ao mar!” Nada disso aconteceu, o que poupou o grupo corsário maia (permissão em ordem das Juntas de Bom Governo zapatistas), de zombarias e escárnios às suas custas, no Bar de la Mota Negra, em Copenhague, Dinamarca.

A tripulação não tardou em se contagiar do entusiasmo zapatista e, apesar de serem marinheir@s com anos nas águas do oceano, viram novamente, agora através do olhar zapatista, um mar que, calmo, celebrava uma visita tão inesperada, resignado como estava antes da impertinência dos turistas de todo o mundo. O capitão do barco levou SubMoy para a área de comando e o colocou no timão, enquanto @s terci@s tiraram fotos… da água (por isso haverá muitas fotos de um mar vazio de interrupções).

A delegação marítima Zapatista, Esquadrão 421 propriamente dito, por sua vez, passava do entusiasmo para a cautela e animava a tripulação com perguntas sensatas: “E se um raio atingir e o barco quebrar, o que faremos? “E como o vento sabe que estamos indo para lá?” “E onde dorme o mar se tiver sono?” “E se o coração do mar ficar triste, como ele faz para chorar?” “De que tamanho é o coração para querer e amar o mar, que é tão grande?” “E assim como defendemos a terra, há alguém que defenda o mar?”

A tripulação de La Montaña: Capitão Ludwig (Alemanha), Edwin (Colômbia), Gabriela (Alemanha), Ete (Alemanha) e Carl (Alemanha), se olharam desconcertad@s e disseram para si mesm@s: “In welche Schwierigkeiten bin ich geraten?” (2) (exceto Edwin, que pensou em espanhol: “Caramba, em que tipo de confusão me meti”).

-*-

E o bichinho? Bem, prevendo que iriam tentar jogá-lo ao mar (apesar de “ter liderado o embarque com valentia, graça e beleza sem igual” – assim disse ele -), ele subiu até o convés e, de lá, decretou, em galego impecável:

“Volverei, volverei á vida

quando a luz nos quebra os contras

porque tiramos todo o orgulho do mar,

nunca mais iremos afundar

que em sua memória não há volta a dar:

non nos humillaredes NUNCA MÁIS”. (3)

Ao oriente, muito longe, as ondas na costa da Galiza repetiam: “nunca máis“.

Dou fé.

O Gato-Cachorro.

Ainda México, maio de 2021.


(1) trecho da música de Vicente Fernandez, “El Hijo Del Pueblo”.

(2) “Em que tipo de confusão eu me meti?”.

(3) trecho da música “Memoria da Noite”, de Xabier Cordal.

Música: Fragmento de “Aires Bucaneros”. Letra do poeta Luis Palés Matos. Música: Roy Brown.

Música: Memoria da Noite. Letra: Xabier Cordal. Música: Bieito Romero. Interpreta: Luar Na Lubre, com as vozes de Rosa Cedrón e o maestro Pedro Guerra.
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EZLN | ONTEM: A TEORIA E A PRÁTICA

Do caderno do Gato-cachorro:

Ontem: Teoria e Prática.

Uma assembleia em um povoado em uma das montanhas do sudeste mexicano. Devem correr os meses de julho-agosto de um ano próximo, com a pandemia do coronavírus dominando o planeta. Não é uma reunião qualquer. Não só pela loucura que lhes convoca, mas também por causa do evidente distanciamento entre as cadeiras, e porque as cores das máscaras e opacam por trás da umidade das máscaras transparentes.

Estão ali os comandantes político-organizativos da EZLN. Também estão alguns comandantes militares, mas permanecem em silêncio, a menos que sejam convidados a falar sobre um ponto específico.

Há muito mais deles do que se poderia esperar. Existem ali pelo menos 6 línguas originárias, todos eles de raiz maia, e usam o espanhol ou “la castilla” como uma ponte para se entenderem.

Vários dos ali presentes são “veteranos”, estiveram no levante que iniciou em 1º de janeiro de 1994 e, com as armas na mão, desceram às cidades junto com milhares de outros companheiros e companheiras, como mais um, mais uma. Há também “os novos”, homens e mulheres que foram incorporados à liderança zapatista depois de muitos aprendizados. A maioria “dos novos” são mulheres “novas” de todas as idades e de línguas diferentes.

A assembleia em si, seu desenvolvimento, seus tempos, seus modos, reproduzem as assembleias se realizam nas comunidades. Há alguém que coordena a reunião, que dá a palavra e indica os tópicos a serem discutidos, que foram acordados de antemão. Não há limite de tempo para cada intervenção, portanto, o tempo assume aqui um ritmo diferente.

Alguém, agora mesmo, está contando uma história, um conto ou uma lenda. Ninguém se importa se o que está sendo dito é fato ou ficção, apenas o que se diz com esse recurso.

A história é assim:

Um homem zapatista está caminhando por um povoado. Ele está vestido com suas melhores roupas e seu novo sombrero porque, diz ele, vai buscar sua namorada. O narrador imita o passo e os gestos que viu em algum dos filmes que circularam como resultado do Festival de Cinema “Puy Ta Cuxlejaltic I”(1). A assembleia ri quando, quem conta a história, faz o tom do Cochiloco (interpretado por Joaquín Cosío em “El Infierno”, Luis Estrada, 2010), e tira seu sombrero para saudar uma mulher imaginária que passa por ele com uma imaginária mula carregando idêntica lenha. O contador da história mistura o espanhol com um dos idiomas maias, assim, na assembleia, sem interromper, eles traduzem um para o outro.

Quem narra o conto lembrou que é tempo de elote (2), a assembleia acena com a cabeça em confirmação. Segue a narração:

O homem de sombrero encontra um conhecido, eles se cumprimentam um ao outro. “Ei, não te reconheci com esse sombrero tão bonito“, diz o conhecido. O homem responde: “É que eu vou buscar minha namorada“. O outro: “E qual é o nome de sua namorada e onde ela mora?” O do sombrero: “Bem, eu não sei“. O outro: “Como que não sabe“? O de sombrero: “Bem, é por isso que eu disse que estava buscando por ela, eu a encontrei, já sei seu nome e onde ela mora“. O outro avalia por um segundo essa lógica contundente e assente em silêncio.

É a vez do de sombrero: “E o que você está fazendo? O outro responde: “Estou plantando milho porque quero elote“. O de sombrero permanece em silêncio por um tempo, observando como está o outro, com uma vassoura, cavando buracos no meio da estrada de cascalho. O de sombrero: “Ouça compadre, com todo respeito, mas você é um verdadeiro idiota“. O outro: “E por que? Estou realmente trabalhando duro e estou determinado a comer elote“.

O de sombrero se senta, acende um cigarro e o passa para o outro, e acende mais um para si mesmo. Não parecem ter pressa: nem o de sombrero para encontrar uma namorada, nem o outro para comer elote. A tarde vai se alargando e, pouco a pouco, vai rasgando um pouco a luz da noite. Ainda não está chovendo, mas o céu começa a formar nuvens cinzas para cobrir-se. A lua espreita atrás das árvores. Depois de um longo silêncio, o de sombrero explica:

Pois veja compadre. Vamos ver se você me entendeu: antes de tudo, está o terreno. O milho não vai crescer nessa área rochosa. Aí a semente vai morrer com tanto pisoteamento e não terá onde se enraizar. A semente vai morrer, vai morrer. E então sua vassoura, você a usa como enxada, mas a vassoura é vassoura, e a enxada é enxada, por isso a pobre vassoura já está toda quebrada e remendada“.

O de sombrero pega a vassoura, verifica os remendos que, com fita adesiva e fita, o outro fez com ela, e continua: “Já nem ligo para o compadre, caso minha comadre te visse danificando assim a vassoura dela, ela te expulsaria para dormir no monte“.

Segue: “então a milpa (3) não está onde, compadre, não com o que quer que seja, mas tem seu onde e tem seu com o que. Além disso, não tempo de fazer a milpa agora, agora é a hora da colheita. E para que tenha colheita, é porque você já trabalhou duro com a milpa. Ou seja, a terra não é que “estou velho, dê-me meu pozol (4) e minhas tortilhas”, que é como você gritava com a comadre, – bem, até que ela se reuniu como mulheres que somos e foi embora, os gritos pararam -, mas isso é por sua conta, compadre. O que estou lhe dizendo é que você não dá ordens à Terra, mas explica a ela, fala com ela, honra-a, conta-lhe histórias para que ela se alegre. E não é apenas a qualquer momento que a Terra ouve, mas tem, por assim dizer, seu calendário. Quer que tenha que contar os dias e noites, e olhar a terra e o céu para ver quando colocar a semente“.

Então aí está, por assim dizer, o problema. Porque você falha em tudo, e você quer isso só porque trabalhou muito e está muito determinado, vai conseguir o que quer. O que você precisa é de conhecimento. As coisas não saem só por causa de muito trabalho e muita decisão, mas que escolha um bom terreno, depois as ferramentas próprias para isso, depois o tempo para cada parte do trabalho. Então, como dizem, quer a teoria e a prática com conhecimento, e não os absurdos que está fazendo, do qual deveria se envergonhar porque todos estão olhando para você e rindo“.

E os bobos que sorriem não percebem que as coisas estúpidas que você faz também os afetarão, porque bem onde você está cavando, primeiro será inundado, depois a água fluirá e criará riachos como as rugas da sua avó compadre, que a minha já está no céu. E assim o carro da Junta de Bom Governo não poderá entrar, porque ficará preso, e os materiais ou mercadorias que ele carrega terão que ser descarregados à mão, sobre seus ombros, e entrar nos riachos danificará suas botas e calças, ainda mais se estiverem vestidos como eu estou agora, e nunca vão encontrar uma namorada. E as companheiras, pior ainda, compadre, porque elas são bravas. Vão passar ao seu lado, com um burro carregando suas coisas, e dirão: “Existe alguém que é mais teimoso que meu burro, e mais estúpido“. E vão dizer: “Ouça, quando eu disser “vamos lá, maldito burro”, não se ofenda, eu estou falando com meu animalzinho“.

O que aconteceu, compadre, está me ofendendo?“, diz o outro indignado.

O de sombrero: “Não, só estou lhe dizendo. Tome-o como conselho ou orientação, não é uma ordem. Mas, como o falecido Sup costumava dizer: “é melhor você fazer o que eu lhe digo, porque se não fizer, quando der errado eu vou dizer “Odeio dizer que eu lhe disse, mas eu lhe disse”. Então me escute compadre“.

O outro: “Então este terreno não serve? Nem minha enxada? Nem mesmo o tempo?

O de sombrero: “não, não e não“.

E quando é a seu tempo, então?

Oops, já passou. Agora você tem que esperar por outra rodada. Por volta de abril, maio, e para que não falte água, o dia 3 de maio quer que seja dado à terra seu pão, uma bebida para o calor, talvez um cigarro de folhas, suas velas, e que também colha suas frutas e vegetais e até mesmo sua sopa de frango. O falecido Sup disse que só com abóbora não, que se você der abóbora para a terra, ela fica brava e joga uma cobra para fora. Mas acho que isso foi uma mentira do falecido Sup, ele disse isso porque não gostava de abóbora“.

Então quando?

Hmm, agora você vai ver: já estamos como dizem quase em outubro, portanto seis meses. Assim, em abril-maio. Mas depende“.

Muito bem, e agora, como faço se quiser milho agora mesmo?“. O outro continua pensando e, de repente, ele acrescenta: “Eu sei como! Vou pedir um pouco de milho emprestado à autoridade autônoma“.

O de sombrero: “E então como você vai repor a autoridade?

Ah, bem, vou pedir emprestado à Junta e com isso lhes reponho”. E para reabastecer a Junta, peço emprestado aos Tercios (5). E para repor aos Tercios tomo emprestado novamente da autoridade, finalmente você saberá que eu pago“.

O de sombrero, coçando sua cabeça. “Droga compadre, agora, como naquele filme do Vargas, você acabou sendo mais um canalha do que bonito. Se você pensa assim, como os maus governos, deveria ser um deputado, ou um senador ou o governador ou algum desses babacas”.

 “O que aconteceu, compadre? Eu sou apenas resistência e rebeldia. Vou ver o que posso fazer”.

O de sombrero: “Bem, então eu vou porque se não for, não vou encontrar uma namorada”. Nos vemos, compadre“.

A outra: “Vá com Deus, e se você encontrar uma namorada, pergunte-lhe se sua família não tem milho para me emprestar, que logo reponho“.

O contador da história se volta para a assembleia: “Então, o que é melhor: emprestamos elotes ao compadre ou deixarmos que a teoria e a prática o façam com conhecimento“?

-*-

Chegou a hora do pozol. A assembleia se dispersa, o Sup Galeano, apenas por capricho, diz ao Subcomandante Moisés: “Eu só gosto de pipoca pura” e se dirige para sua cabana. O Subcomandante Moisés lhe responde: “E molho picante também…“. SupGaleano não responde, mas muda de direção. “Para onde você está indo?” pergunta o SubMoy. O Sup, se distanciando, quase grita: “Vou pegar o molho emprestado da lojinha das Insurgentas“.

Dou fé.

Miau-au.

O Gato-cachorro, já um ilegal em La Montaña.

(Ah bem, ele não tinha dinheiro e, além disso, há uma placa na entrada de La Montaña que diz: “Não são permitidos gatos, cães… ou besouros esquizofrênicos”).

México, todavia.

Abril de 2021.

– – – – – – – – – – –

(1) Puy ta Cuxlejaltic: “O caracol de nossas vidas”. Em novembro de 2018, o primeiro festival de cinema Zapatista com o mesmo nome, foi realizado no Caracol de Oventik.

(2) Elote: milho mexicano

(3) Milpa é uma forma de plantio milenar pré-colombiana que combina a plantação de milho, abóbora e feijão em um mesmo território, criando um ciclo de ajuda mútua entre estas plantas.

(4) Pozol: bebida feita de pasta de milho, água e sal.

(5) Tercios refere-se aos Tercios Compas: os coletivos de mídia Zapatista.


O Mariachi Renacimiento do Caracol de Roberto Barrios.
Jovena base zapatista se despede da delegação marítima zapatista.

Música: Santiago Feliú, interpretando «Créeme» de Vicente Feliú.

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EZLN | A ROTA DE IXCHEL

Abril de 2021.

A Montanha sairá.

De uma das casas de Ixchel, a mãe do amor e da fertilidade, a avó das plantas e dos animais, a mãe jovem e a mãe velha, a raiva em que a dor da terra se transforma quando é ferida e maculada, a Montanha sairá.

Uma das lendas maias conta que Ixchel se estendeu pelo mundo na forma de um arco-íris. Ela o fez para dar ao planeta uma lição de pluralidade e inclusão, e para lembrar que a cor da terra não é uma, mas muitas, e que todas elas, sem deixar de ser o que são, juntas iluminam a maravilha da vida. E ela, Ixchel, a mulher arco-íris, abraça todas as cores e as faz parte dela.

Nas montanhas do sudeste mexicano, na língua raiz maia do mais antigo dos antigos, é contada uma das histórias de Ixchel, mãe-lua, mãe-amor, mãe-raiva, mãe-vida. Falando assim fala o velho Antonio:

“Do oriente veio a morte e a escravidão. Assim chegou, e de modo algum. Nada podemos mudar em relação ao que veio antes. Mas assim disse Ixchel:

“Que amanhã ao oriente navegue a vida e a liberdade na palavra dos meus ossos e sangues, minhas crias. Que não envie uma cor. Que não mande ninguém para que ninguém obedeça e que cada um seja o que ele é com alegria. Porque a tristeza e a dor vêm daqueles que querem espelhos e não cristais para olhar para todos os mundos que eu sou. Com raiva será necessário quebrar sete mil espelhos até que a dor seja aliviada. Muita morte terá que doer para que, no final, seja a vida o caminho. Que o arco-íris possa então coroar a casa de minhas crias, a montanha que é a terra dos meus sucessores”.

Quando a opressão veio em metal e fogo para o solo maia, o ts’ul, aquele que veio de longe, olhou para muitas figuras da deusa arco-íris e assim batizou aquela terra: Isla Mujeres.

Uma manhã, pela manhã, quando a cruz falante invoca, não o passado, mas o que está por vir, navegará a montanha até a terra do Ts’ul e atracará em frente à velha oliveira que dá sombra ao mar e identidade àqueles que vivem e trabalham nessas margens”.

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Em 3 de maio do ano 21 do século 21, de Isla Mujeres, Quintana Roo, México, zarpará a Montanha para cruzar o Atlântico em uma viagem que tem muito de desafio e nada de reprovação. No sexto mês do calendário, terá que avistar as costas do porto de Vigo (Ciudad olívica), Pontevedra, na Comunidade Autônoma da Galiza, Estado espanhol.

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Se não se pode desembarcar, seja por COVID, migração, discriminação gritante, chauvinismo, ou que erraram o porto ou os anfitriões, estamos preparados.

Estamos dispostos a aguardar lá e vamos desfraldar, frente à costa europeia, uma grande faixa que diz “Acorde!” Esperaremos para ver se alguém lê a mensagem e depois esperar para ver se de fato acordam; e depois esperar para ver se fazem alguma coisa.

Se a Europa de abaixo não quiser ou não puder, então, precavidos, de futuro, pegaremos 4 cayucos com seus respectivos remos e começaremos nosso caminho de volta. É claro que vamos adiar um pouco até termos um vislumbre das margens da casa de Ixchel novamente.

Os cayucos representam 4 etapas de nosso ser como Zapatistas que somos:

– Nossa cultura como um povo original com raízes maias. É o maior cayuco no qual os outros 3 podem ser armazenados. É uma homenagem a nossos antepassados.

– A etapa da clandestinidade e da insurgência. É o cayuco que segue o primeiro em tamanho, e é uma homenagem àqueles que caíram desde o primeiro de janeiro de 1994.

– A etapa da autonomia. É o terceiro em tamanho, do maior ao menor, e é uma homenagem aos nossos povos, regiões e zonas que, em resistência e rebeldia, elevaram e continuam elevando a autonomia zapatista.

– A etapa da infância zapatista. É o menor cayuco que os meninos e meninas zapatistas pintaram e decoraram com as figuras e cores que quiseram.

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Mas se conseguirmos desembarcar e abraçar com nossas palavras aqueles que lutam, resistem e se rebelam lá, então haverá uma festa, baile, canções, e cumbias e caderas sacudirão os céus e solos distantes.

E, em ambos os lados do oceano, uma breve mensagem inundará todo o espectro eletromagnético, o ciberespaço e ecoará nos corações:

вторгнення почалося
bosqinchilik boshlandi
a invasión comezou
Die Invasion hat begonnen
istila başladı
la invasió ha iniciat
l’invasione hè principiata
invazija je započela
invaze začala
инвазията е започнала
invasionen er startet
invázia sa začala
invazija se je začela
la invado komenciĝis
the invasion has started
invasioon on alanud
inbasioa hasi da
hyökkäys on alkanut
l’invasion a commencé
mae’r goresgyniad wedi cychwyn

η εισβολή έχει ξεκινήσει
tá an t-ionradh tosaithe
innrásin er hafin
l’invasione è iniziata
بدأ الغزو
êriş dest pê kiriye
iebrukums ir sācies
prasidėjo invazija
d’Invasioun huet ugefaang
започна инвазијата
bdiet l-invażjoni
de invasie is begonnen
invasjonen har startet
حمله آغاز شده است
rozpoczęła się inwazja
a invasão começou
invazia a început
вторжение началось
инвазија је започела
invasionen har börjat

“A invasão começou”.
.-.. .- / .. -. …- .- … .. – -. / …. .- / .. -. .. -.-. .. .- -.. – (em código morse)

E talvez, apenas talvez, Ixchel, deusa da lua, seja então uma luminária em nosso caminho e, como neste amanhecer, luz e destino.

Dou fé.

Do Centro de Treinamento Marítimo-Terrestre Zapatista
Semillero Comandanta Ramona. Zona Tzotz Choj.

O SupGaleano.
México, 26 de abril de 2021. Lua cheia.

Música do vídeo: “Te Llevaré”, de Lisandro Meza.

EZLN | “E ENQUANTO ISSO, NA SELVA LACANDONA…”

(Terci@s Compas).

Fragmentos visuais da despedida das delegações zapatistas em algumas comunidades indígenas zapatistas, nas margens dos rios Jataté, Tzaconejá e Colorado, montanhas do sudeste mexicano, Chiapas, México, América, América Latina, planeta Terra.

Música na parte das balsas: La piragua (de José Barros). Trío Los Inseparables (versão Rebajada[1] de Sonido Dueñez / Sabotaje Dub.  Sabotaje Media (2021).

Certo. Saúde e “si no vas, te llevaré en mi corazón, te llevaré aquí en mi cantar“. [2]

O SupGaleano dançando raspadito, raspadito, com a cumbia rebajada, esculpindo a terra, amando-a, defendendo-a, dançando-a (que não é a mesma coisa, mas é igual). A vida então. “Até outro continente do planeta Terra”.


[1] Rebajada refere-se a uma cumbia em slow-motion com graves pesados, um gênero que saiu dos barrios do norte do México.

[2] “Te llevaré”, música do cantor e acordeonista Lisandro Meza.

DIA MUNDIAL DO LIVRO – NADA A COMEMORAR NO BRASIL.

Hoje é o dia mundial do livro, e certamente um dos únicos lugares do planeta onde não há motivos para comemorar é o Brasil. Essa triste constatação nasce da constante ameaça contra os livros, que mais recentemente se materializa na possibilidade de privatização dos correios, uma instituição que gera lucros e mesmo assim pode ser entregue a empresários (ou empresárias) pouco interessados em manter sua função social e muito menos a estabilidade de seus trabalhadores e trabalhadoras.

Dentre várias destas funções sociais, destacamos a que mais nos afetaria (assim como todas as outras editoras do Brasil) – a modalidade do envio de impressos. É essa categoria de envio que garante a sobrevida da editora, mesmo sem cobrarmos o frete de quem compra da TsA, pois em comparação ao envio PAC ou Sedex, o valor do envio é bem menor.

Que interesse teria a Amazon ou o Magazine Luiza em manter um serviço dessa natureza? Mesmo que mantido, a que preço aos trabalhadores e trabalhadoras dos correios isso custaria?

Como se não bastasse a possível privatização dos correios, a fusão da PIS/Confins em um único imposto ameaça a isenção tributária sobre os livros impressos, podendo aumentar o valor final das obras em 12%. A base da argumentação da receita federal, que certamente foi tirada de algum orifício anal, é que “só os ricos leem”. Para onde irá o dinheiro arrecadado? Supomos que bancará políticas prioritárias do governo, como a compra de leite condensado ou carne para os relevantes churrascos do Exército. Quem sabe esse golpe quase mortal contra os livros permita que algum senador comprar mais uma humilde mansão de 6 milhões de reais.

Por nossa parte, seguiremos com a gratuidade do frete até onde nos for permitido, pois sabemos que diferentemente do que diz a Receita Federal, nossas leitoras e leitores são hegemonicamente trabalhadoras, trabalhadores e estudantes precarizados.

O fato é que nós – editoras, leitores e leitoras – precisamos realizar um forte movimento em defesa dos correios e combater com veemência pela continuidade da isenção de impostos para os livros. Parafraseando Darcy Ribeiro, a crise do livro no Brasil não é uma crise, é um projeto.

Por fim, e apesar desse turbilhão de incertezas, agradecemos imensamente todas e todos que tornaram possível um projeto autônomo do nordeste do Brasil chegasse onde jamais imaginou estar, trocando experiências com tantas pessoas e fazendo do livro uma trincheira de combate contra os inimigos do povo.

LIVROS RADICAIS SÃO ARMAS CONTRA O FASCISMO!
PROTEJA OS LIVROS!
DEFENDA OS CORREIOS!
ODEIE OS GOVERNOS!

EZLN | ESQUADRÃO 421 – A DELEGAÇÃO MARÍTIMA ZAPATISTA

Abril de 2021.

Calendário? Uma manhã bem cedo no quarto mês. Geografia? As montanhas do sudeste mexicano. Um silêncio repentino se impõe aos grilos, o latido disperso e distante dos cães, o eco da música da marimba. Aqui, nas entranhas das colinas, um sussurro em vez de um ronco. Se não estivéssemos onde estamos, poderiam pensar que era um sussurro do mar aberto. Não as ondas batendo contra a costa, a praia, o penhasco delimitado por um caprichoso corte. Não, algo mais. E então… um longo gemido e um tremor inoportuno e breve.

A montanha se ergue. Levanta, com pudor, um pouco as anáguas. Não sem dificuldade, arranca os pés da terra. Dá o primeiro passo com um gesto de dor. Agora sangram as solas dos pés desta pequena montanha, longe dos mapas, dos destinos turísticos e das catástrofes. Mas aqui tudo é cumplicidade, então uma chuva anacrônica lava seus pés e, com lama, cicatriza suas feridas.

Cuide-se, filha“, diz a Ceiba mãe. “Ânimo“, fala o huapác como se fosse para si mesmo. O pássaro tapacamino a guia. “Ao oriente, amiga, ao oriente“, diz enquanto brinca de um lado para o outro.

Vestida de árvores, pássaros e pedras, caminha a montanha. E enquanto ela passa, se agarram em suas anáguas, homens, mulheres, que não são nem umas nem os outros, meninas e meninos adormecidos. Vão subindo por sua blusa, coroam a ponta de seus seios, seguem aos seus ombros e, já em cima de seus cabelos, acordam.

Ao oriente, o sol, apenas espreitando o horizonte, detém um pouco em sua boba e cotidiana ronda. Parece ter visto que uma montanha, com uma coroa de seres humanos, caminha. Mas além do sol e das nuvens cinzas que a noite deixou para trás, ninguém aqui parece se surpreender.

“Foi assim que foi escrito”, diz o velho Antonio enquanto afia seu facão de dois fios, e Dona Juanita acena com um suspiro.

O fogão cheira a café e milho cozido. Uma cumbia toca na rádio comunitária. A letra fala de uma lenda impossível: uma montanha navegando a contrapelo da história.

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Sete pessoas, sete Zapatistas, formam a fração marítima da delegação que visitará a Europa. Quatro são mulheres, dois são homens e umoa é outroa. 4, 2, 1. Esquadrão 421 já está aquartelado no chamado “Centro de Adestramento Marítimo-Terrestre Zapatista”, localizado no Semillero Comandanta Ramona, na zona de Tzotz Choj.

Não foi fácil. Ao contrário, tem sido tortuoso. Para chegar a este calendário, tivemos que enfrentar objeções, conselhos, desencorajamentos, pedidos de contenção e prudência, francas sabotagens, mentiras, palavrões, relatos detalhados das dificuldades, fofocas e insolências, e uma frase repetida ad nauseam: “o que você quer fazer é muito difícil, para não dizer impossível” e, claro, dizendo-nos, ordenando-nos, o que devíamos ou não fazer. Tudo isso, deste e do outro lado do oceano.

É claro, tudo isso sem contar os obstáculos do governo supremo e sua burocracia ignorante, insensata e racista.

Mas vou lhes contar tudo isso em outra ocasião. Agora devo lhes falar um pouco sobre nossa nova delegação marítima zapatista.

As quatro mulheres, os dois homens e oa outroa são seres humanos. Foi-lhes aplicado o Teste de Turing, com algumas modificações que considerei pertinentes, para descartar a possibilidade de que algum ou tod@s el@s fossem um organismo cibernético, um robô, capaz de dançar a cumbia del Sapito com o passo errado. Ergo, os 7 seres pertencem à raça humana.

Os 7 são nascidos no continente que chamam de “América”, e o fato de compartilharem dores e raivas com outros povos originários deste lado do oceano, os torna latino-americanos. Eles também são mexicanos de nascimento, descendentes dos povos originários maias, como confirmado por suas famílias, vizinhos e conhecidos. Eles também são Zapatistas, com documentos dos municípios autônomos e das Juntas de Bom Governo que apoiam. Não possuem delitos comprovados e que não tenham sido sancionados até o momento. Vivem, trabalham, adoecem, se curam, amam, choram, riem, lembram, esquecem, brincam, ficam séri@s, tomam notas, buscam pretextos, em suma, vivem nas montanhas do sudeste mexicano, em Chiapas, México, América Latina, América, Planeta Terra, etc.

@s 7, além disso, se ofereceram de voluntári@s para fazer a travessia por mar – algo que não provoca muito entusiasmo entre a vasta gama de Zapatistas de todas as idades -. Ou seja que, para deixar claro, ninguém queria viajar de barco. Contribuiu para isso a campanha de terror desencadeada por Esperanza e todo o bando de Defensa Zapatista, sintetizada no famoso algoritmo “tod@s vão morrer miseravelmente”? Eu não sei. Mas o fato de ter derrotado as redes sociais, incluindo o whatsapp, sem nenhuma vantagem tecnológica (sem sequer um sinal de celular rural), me motivou a por meu grãozinho de areia da praia.

Então, movido pela minha simpatia pelo bando de Defensa Zapatista, pedi permissão ao SubMoy para falar com a delegação que, em meio a gritos, guinchos e risos infantis, estava se preparando para a invasão que não é uma invasão… bem, é, mas é algo, digamos, consensual. Algo como um internacionalismo sadomasoquista que, naturalmente, não será bem visto pela ortodoxia feita vanguarda, que, como se deve ser, vai tão à frente das massas que não pode ser vista.

Apresentei-me na assembleia e, colocando meu melhor rosto trágico, contei-lhes coisas horríveis sobre o alto mar: os infinitos “vômitos”; a imensidão monótona do horizonte; a comida pobre em milho, sem pipoca e – que horror! – sem salsa Valentina; a prisão com outras pessoas por várias semanas – com as quais, as primeiras horas, se trocam sorrisos e atenções, e um pouco depois olhares mortais; descrevi, em grandes detalhes, terríveis tempestades e ameaças desconhecidas; referi-me ao Kraken e, por um desses momentos literários, falei-lhes de uma baleia branca gigantesca que procurava furiosamente alguém para arrancar sua perna, o que eliminaria a vítima de um papel decoroso na cumbia mais lenta. Foi inútil. E devo confessar que, não sem meu orgulho de gênero gravemente ferido, foram principalmente as mulheres que disseram: “de barco”, quando apresentadas a escolha de viagem por mar ou viagem pelo ar.

Assim, não 7, não 10, não 15, mas mais de 20 se inscreveram. Até a pequena Verónica, de 3 anos, se inscreveu quando ouviu a história da baleia assassina. Sim, incompreensível. Mas uma vez que a conheçam (a menina, não a baleia), sentirão pena dela. Quero dizer, tiveram pena de Moby Dick.

Então, por que apenas 7? Bem, posso lhes falar sobre os 7 pontos cardeais (a frente, atrás, um lado, o outro lado, o centro, acima e abaixo), os 7 primeiros deuses, aqueles que nasceram no mundo, e assim por diante. Mas a verdade é que, longe de símbolos e alegorias, a quantidade é porque a maioria deles ainda não conseguiu o passaporte, e ainda estão lutando para consegui-lo. Falarei sobre isso mais tarde.

Bem, mas a você com certeza não lhe interessam esses problemas. Você quer saber quem vai navegar em “La Montaña”, cruzar o Oceano Atlântico e invadir… err, quero dizer, visitar a Europa. Portanto, aqui estão suas fotos e um esboço biográfico muito breve:

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Lupita. 19 anos. Mexicana de nascimento. Tzotzil dos Altos de Chiapas. Fala sua língua nativa, o Tzotzil, e o castelhano fluentemente. Sabe ler e escrever. Tem sido coordenadora local de jovens, coordenadora regional de jovens e administradora local do trabalho coletivo. Música que gosta: pop, romântica, cumbias, baladas, eletrônica, rap, hip hop, música andina, música chinesa, revolucionários, clássicos, rock dos anos 80 (assim disseram), mariachis, música tradicional de seu povo… e reggaeton (nota do editor: se isso não é “um mundo onde cabem muitos mundos”, eu não sei o que é. Fim da nota). Cores favoritas: preto, vermelho, cereja e café. Experiência marítima: quando criança, viajou de lancha. Preparada por 6 meses para ser delegada. Voluntária para viajar de barco para a Europa. Servirá como uma Tercia Compa na viagem marítima.

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Carolina. 26 anos. Mexicano de nascimento. Originalmente Tzotzil dos Altos de Chiapas, agora Tzeltal da selva Lacandona. Fala sua língua nativa, o Tzotzil, assim como o Tzeltal e o castelhano fluentemente. Sabe ler e escrever. Mãe solteira de uma menina de 6 anos. Sua mãe a ajuda a cuidar da infanta. Tem sido coordenadora de “como mulheres que somos” e estudante do curso de veterinária. Atualmente é Comandanta na direção político-organizacional zapatista. Música que gosta: pop, romântica, cumbias, rock dos anos 80 (assim disseram), gruperas e revolucionárias. Cores favoritas: creme, preto e cereja. Experiência marítima: Lancha alguma vez. Se preparou durante 6 meses para ser delegada. Voluntária para viajar de barco para a Europa.

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Ximena. 25 anos. Mexicana de nascimento. Cho’ol do norte de Chiapas. Fala sua língua nativa, Cho’ol, e castelhano fluentemente. Sabe ler e escrever. Mãe solteira de uma menina de 6 anos. Sua mãe a apoia cuidando da menina. Foi coordenadora da juventude e atualmente é atualmente Comandanta na liderança político-organizacional zapatista. Música que gosta: cumbias, tropicais, românticas, revolucionárias, rock dos anos 80 (assim disseram), eletrônica e rancheiras. Cores favoritas: roxo, preto e vermelho. Experiência marítima: alguma vez em lancha. Se preparou durante 6 meses para ser delegada. Voluntária para viajar de barco para a Europa. Segunda no comando na delegação marítima, depois de Darío.

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Yuli. 37 anos. Fará 38 anos em maio, em alto-mar. Originária Tojolabal da Selva fronteiriça, agora Tzeltal da selva Lacandon. Fala castelhano fluentemente. Sabe ler e escrever. Mãe de duas crianças: uma menina de 12 anos e um menino de 6 anos. Seu companheiro a apoia cuidando das crianças. Seu compa é tzeltal, então eles se amam, brigam e se amam novamente em castelhano. Foi promotora de educação, formadora de educação (praparam @s promotor@s de educação) e coordenadora de um coletivo local. Música que gosta: Românticas, gruperas, cumbia, vallenato, revolucionárias, tropical, pop, marimba, rancheras e rock dos anos 80 (assim disseram). Cores favoritas: preto, café e vermelho. Experiência marítima nula. Se preparou por 6 meses para ser delegada. Voluntária para viajar de barco para a Europa.

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Bernal. 57 anos. Tojolabal da zona selva fronteiriça. Fala sua língua nativa, o tojolabal, e o castelhano fluentemente. Sabe ler e escrever. Pai de 11 filh@s: o mais velho tem 30 anos e o mais novo tem 6. Sua família apoia cuidando das crias. Foi miliciano, responsável local, professor na escola Zapatista e membro da Junta de Bom Governo. Música que gosta: rancheras, cumbias, huichol musical, marimba e revolucionarias. Cores favoritas: azul, preto, cinza e café. Experiência marítima: cayuco e lancha. Se preparou por 6 meses para ser delegado. Voluntário para viajar de barco para a Europa.

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Darío. 47 anos. Cho’ol do norte de Chiapas. Fala sua língua nativa, Cho’ol, e castelhano fluentemente. Sabe ler e escrever. Pai de 3 filh@s: um de 22 anos, outro de 9 anos e a menor de 3 anos. O menino e a menina vão com sua mãe para a Europa por via aérea em julho. Foi miliciano, responsável local, responsável regional, e é atualmente um Comandante na direção política-organizativa zapatista. Música que gosta: rancheras de Bertín e Lalo, tropicais, marimba, música regional e revolucionária. Cores favoritas: preto e cinza. Experiência marítima: cayuco. Se preparou por 6 meses para ser delegado. Voluntário para viajar de barco para a Europa. Será o coordenador da delegação marítima Zapatista.

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Marijose. 39 anos. Tojolabal da zona fronteiriça. Fala castelhano fluentemente. Sabe ler e escrever. Foi milicianoa, promotoroa de saúde, promotoroa de educação e formadoroa de educação. Música que gosta: cumbias, românticas, rancheras, pop, eletrônica, rock dos anos 80 (assim disseram), marimba e revolucionárias. Cores favoritas: preto, azul e vermelho. Experiência marítima: cayuco e barco. Se preparou por 6 meses para ser delegade. Voluntárie para viajar de barco para a Europa. Foi designadoa como oa primeiroa Zapatista a desembarcar e assim, iniciar a invasão… ok, a visita à Europa.

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Portanto, a primeira sola do pé que pousará em solo europeu (claro, se nos deixarem desembarcar) não será de um homem, nem de uma mulher. Será de umoa outroa.

No que o finado SupMarcos teria chamado de “um cacetada em toda a esquerda heteropatriarcal”, foi decidido que quem primeiro desembarque seja Marijose.

Assim que colocar seus dois pés em solo europeu e se recuperar da vertigem, Marijose gritará:

“Rendam-se cara pálidas heteropatriarcais que perseguem o diferente”!

Nah, é brincadeira. Mas, não seria bom se ela dissesse isso?

Não, quando pisar em terra, oa compoa Zapatista, Marijose, dirá, em voz solene:

“Em nome das mulheres, crianças, homens, anciãos e, naturalmente, outroas Zapatistas, declaro que o nome desta terra, que seus nativos agora chamam de “Europa”, será doravante chamada: SLUMIL K’AJXEMK’OP, que significa “Terra Insubmissa”, ou “Terra que não se resigna, que não desmaia”. E assim será conhecida tanto pelos locais como por estranhos, desde que haja aqui alguém que não desista, que não se venda e que não ceda”.

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Eu atesto.

SupGaleano.

Abril de 2021.

(Continuará…)