EZLN | ESQUADRÃO 421 – A DELEGAÇÃO MARÍTIMA ZAPATISTA

Abril de 2021.

Calendário? Uma manhã bem cedo no quarto mês. Geografia? As montanhas do sudeste mexicano. Um silêncio repentino se impõe aos grilos, o latido disperso e distante dos cães, o eco da música da marimba. Aqui, nas entranhas das colinas, um sussurro em vez de um ronco. Se não estivéssemos onde estamos, poderiam pensar que era um sussurro do mar aberto. Não as ondas batendo contra a costa, a praia, o penhasco delimitado por um caprichoso corte. Não, algo mais. E então… um longo gemido e um tremor inoportuno e breve.

A montanha se ergue. Levanta, com pudor, um pouco as anáguas. Não sem dificuldade, arranca os pés da terra. Dá o primeiro passo com um gesto de dor. Agora sangram as solas dos pés desta pequena montanha, longe dos mapas, dos destinos turísticos e das catástrofes. Mas aqui tudo é cumplicidade, então uma chuva anacrônica lava seus pés e, com lama, cicatriza suas feridas.

Cuide-se, filha“, diz a Ceiba mãe. “Ânimo“, fala o huapác como se fosse para si mesmo. O pássaro tapacamino a guia. “Ao oriente, amiga, ao oriente“, diz enquanto brinca de um lado para o outro.

Vestida de árvores, pássaros e pedras, caminha a montanha. E enquanto ela passa, se agarram em suas anáguas, homens, mulheres, que não são nem umas nem os outros, meninas e meninos adormecidos. Vão subindo por sua blusa, coroam a ponta de seus seios, seguem aos seus ombros e, já em cima de seus cabelos, acordam.

Ao oriente, o sol, apenas espreitando o horizonte, detém um pouco em sua boba e cotidiana ronda. Parece ter visto que uma montanha, com uma coroa de seres humanos, caminha. Mas além do sol e das nuvens cinzas que a noite deixou para trás, ninguém aqui parece se surpreender.

“Foi assim que foi escrito”, diz o velho Antonio enquanto afia seu facão de dois fios, e Dona Juanita acena com um suspiro.

O fogão cheira a café e milho cozido. Uma cumbia toca na rádio comunitária. A letra fala de uma lenda impossível: uma montanha navegando a contrapelo da história.

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Sete pessoas, sete Zapatistas, formam a fração marítima da delegação que visitará a Europa. Quatro são mulheres, dois são homens e umoa é outroa. 4, 2, 1. Esquadrão 421 já está aquartelado no chamado “Centro de Adestramento Marítimo-Terrestre Zapatista”, localizado no Semillero Comandanta Ramona, na zona de Tzotz Choj.

Não foi fácil. Ao contrário, tem sido tortuoso. Para chegar a este calendário, tivemos que enfrentar objeções, conselhos, desencorajamentos, pedidos de contenção e prudência, francas sabotagens, mentiras, palavrões, relatos detalhados das dificuldades, fofocas e insolências, e uma frase repetida ad nauseam: “o que você quer fazer é muito difícil, para não dizer impossível” e, claro, dizendo-nos, ordenando-nos, o que devíamos ou não fazer. Tudo isso, deste e do outro lado do oceano.

É claro, tudo isso sem contar os obstáculos do governo supremo e sua burocracia ignorante, insensata e racista.

Mas vou lhes contar tudo isso em outra ocasião. Agora devo lhes falar um pouco sobre nossa nova delegação marítima zapatista.

As quatro mulheres, os dois homens e oa outroa são seres humanos. Foi-lhes aplicado o Teste de Turing, com algumas modificações que considerei pertinentes, para descartar a possibilidade de que algum ou tod@s el@s fossem um organismo cibernético, um robô, capaz de dançar a cumbia del Sapito com o passo errado. Ergo, os 7 seres pertencem à raça humana.

Os 7 são nascidos no continente que chamam de “América”, e o fato de compartilharem dores e raivas com outros povos originários deste lado do oceano, os torna latino-americanos. Eles também são mexicanos de nascimento, descendentes dos povos originários maias, como confirmado por suas famílias, vizinhos e conhecidos. Eles também são Zapatistas, com documentos dos municípios autônomos e das Juntas de Bom Governo que apoiam. Não possuem delitos comprovados e que não tenham sido sancionados até o momento. Vivem, trabalham, adoecem, se curam, amam, choram, riem, lembram, esquecem, brincam, ficam séri@s, tomam notas, buscam pretextos, em suma, vivem nas montanhas do sudeste mexicano, em Chiapas, México, América Latina, América, Planeta Terra, etc.

@s 7, além disso, se ofereceram de voluntári@s para fazer a travessia por mar – algo que não provoca muito entusiasmo entre a vasta gama de Zapatistas de todas as idades -. Ou seja que, para deixar claro, ninguém queria viajar de barco. Contribuiu para isso a campanha de terror desencadeada por Esperanza e todo o bando de Defensa Zapatista, sintetizada no famoso algoritmo “tod@s vão morrer miseravelmente”? Eu não sei. Mas o fato de ter derrotado as redes sociais, incluindo o whatsapp, sem nenhuma vantagem tecnológica (sem sequer um sinal de celular rural), me motivou a por meu grãozinho de areia da praia.

Então, movido pela minha simpatia pelo bando de Defensa Zapatista, pedi permissão ao SubMoy para falar com a delegação que, em meio a gritos, guinchos e risos infantis, estava se preparando para a invasão que não é uma invasão… bem, é, mas é algo, digamos, consensual. Algo como um internacionalismo sadomasoquista que, naturalmente, não será bem visto pela ortodoxia feita vanguarda, que, como se deve ser, vai tão à frente das massas que não pode ser vista.

Apresentei-me na assembleia e, colocando meu melhor rosto trágico, contei-lhes coisas horríveis sobre o alto mar: os infinitos “vômitos”; a imensidão monótona do horizonte; a comida pobre em milho, sem pipoca e – que horror! – sem salsa Valentina; a prisão com outras pessoas por várias semanas – com as quais, as primeiras horas, se trocam sorrisos e atenções, e um pouco depois olhares mortais; descrevi, em grandes detalhes, terríveis tempestades e ameaças desconhecidas; referi-me ao Kraken e, por um desses momentos literários, falei-lhes de uma baleia branca gigantesca que procurava furiosamente alguém para arrancar sua perna, o que eliminaria a vítima de um papel decoroso na cumbia mais lenta. Foi inútil. E devo confessar que, não sem meu orgulho de gênero gravemente ferido, foram principalmente as mulheres que disseram: “de barco”, quando apresentadas a escolha de viagem por mar ou viagem pelo ar.

Assim, não 7, não 10, não 15, mas mais de 20 se inscreveram. Até a pequena Verónica, de 3 anos, se inscreveu quando ouviu a história da baleia assassina. Sim, incompreensível. Mas uma vez que a conheçam (a menina, não a baleia), sentirão pena dela. Quero dizer, tiveram pena de Moby Dick.

Então, por que apenas 7? Bem, posso lhes falar sobre os 7 pontos cardeais (a frente, atrás, um lado, o outro lado, o centro, acima e abaixo), os 7 primeiros deuses, aqueles que nasceram no mundo, e assim por diante. Mas a verdade é que, longe de símbolos e alegorias, a quantidade é porque a maioria deles ainda não conseguiu o passaporte, e ainda estão lutando para consegui-lo. Falarei sobre isso mais tarde.

Bem, mas a você com certeza não lhe interessam esses problemas. Você quer saber quem vai navegar em “La Montaña”, cruzar o Oceano Atlântico e invadir… err, quero dizer, visitar a Europa. Portanto, aqui estão suas fotos e um esboço biográfico muito breve:

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Lupita. 19 anos. Mexicana de nascimento. Tzotzil dos Altos de Chiapas. Fala sua língua nativa, o Tzotzil, e o castelhano fluentemente. Sabe ler e escrever. Tem sido coordenadora local de jovens, coordenadora regional de jovens e administradora local do trabalho coletivo. Música que gosta: pop, romântica, cumbias, baladas, eletrônica, rap, hip hop, música andina, música chinesa, revolucionários, clássicos, rock dos anos 80 (assim disseram), mariachis, música tradicional de seu povo… e reggaeton (nota do editor: se isso não é “um mundo onde cabem muitos mundos”, eu não sei o que é. Fim da nota). Cores favoritas: preto, vermelho, cereja e café. Experiência marítima: quando criança, viajou de lancha. Preparada por 6 meses para ser delegada. Voluntária para viajar de barco para a Europa. Servirá como uma Tercia Compa na viagem marítima.

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Carolina. 26 anos. Mexicano de nascimento. Originalmente Tzotzil dos Altos de Chiapas, agora Tzeltal da selva Lacandona. Fala sua língua nativa, o Tzotzil, assim como o Tzeltal e o castelhano fluentemente. Sabe ler e escrever. Mãe solteira de uma menina de 6 anos. Sua mãe a ajuda a cuidar da infanta. Tem sido coordenadora de “como mulheres que somos” e estudante do curso de veterinária. Atualmente é Comandanta na direção político-organizacional zapatista. Música que gosta: pop, romântica, cumbias, rock dos anos 80 (assim disseram), gruperas e revolucionárias. Cores favoritas: creme, preto e cereja. Experiência marítima: Lancha alguma vez. Se preparou durante 6 meses para ser delegada. Voluntária para viajar de barco para a Europa.

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Ximena. 25 anos. Mexicana de nascimento. Cho’ol do norte de Chiapas. Fala sua língua nativa, Cho’ol, e castelhano fluentemente. Sabe ler e escrever. Mãe solteira de uma menina de 6 anos. Sua mãe a apoia cuidando da menina. Foi coordenadora da juventude e atualmente é atualmente Comandanta na liderança político-organizacional zapatista. Música que gosta: cumbias, tropicais, românticas, revolucionárias, rock dos anos 80 (assim disseram), eletrônica e rancheiras. Cores favoritas: roxo, preto e vermelho. Experiência marítima: alguma vez em lancha. Se preparou durante 6 meses para ser delegada. Voluntária para viajar de barco para a Europa. Segunda no comando na delegação marítima, depois de Darío.

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Yuli. 37 anos. Fará 38 anos em maio, em alto-mar. Originária Tojolabal da Selva fronteiriça, agora Tzeltal da selva Lacandon. Fala castelhano fluentemente. Sabe ler e escrever. Mãe de duas crianças: uma menina de 12 anos e um menino de 6 anos. Seu companheiro a apoia cuidando das crianças. Seu compa é tzeltal, então eles se amam, brigam e se amam novamente em castelhano. Foi promotora de educação, formadora de educação (praparam @s promotor@s de educação) e coordenadora de um coletivo local. Música que gosta: Românticas, gruperas, cumbia, vallenato, revolucionárias, tropical, pop, marimba, rancheras e rock dos anos 80 (assim disseram). Cores favoritas: preto, café e vermelho. Experiência marítima nula. Se preparou por 6 meses para ser delegada. Voluntária para viajar de barco para a Europa.

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Bernal. 57 anos. Tojolabal da zona selva fronteiriça. Fala sua língua nativa, o tojolabal, e o castelhano fluentemente. Sabe ler e escrever. Pai de 11 filh@s: o mais velho tem 30 anos e o mais novo tem 6. Sua família apoia cuidando das crias. Foi miliciano, responsável local, professor na escola Zapatista e membro da Junta de Bom Governo. Música que gosta: rancheras, cumbias, huichol musical, marimba e revolucionarias. Cores favoritas: azul, preto, cinza e café. Experiência marítima: cayuco e lancha. Se preparou por 6 meses para ser delegado. Voluntário para viajar de barco para a Europa.

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Darío. 47 anos. Cho’ol do norte de Chiapas. Fala sua língua nativa, Cho’ol, e castelhano fluentemente. Sabe ler e escrever. Pai de 3 filh@s: um de 22 anos, outro de 9 anos e a menor de 3 anos. O menino e a menina vão com sua mãe para a Europa por via aérea em julho. Foi miliciano, responsável local, responsável regional, e é atualmente um Comandante na direção política-organizativa zapatista. Música que gosta: rancheras de Bertín e Lalo, tropicais, marimba, música regional e revolucionária. Cores favoritas: preto e cinza. Experiência marítima: cayuco. Se preparou por 6 meses para ser delegado. Voluntário para viajar de barco para a Europa. Será o coordenador da delegação marítima Zapatista.

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Marijose. 39 anos. Tojolabal da zona fronteiriça. Fala castelhano fluentemente. Sabe ler e escrever. Foi milicianoa, promotoroa de saúde, promotoroa de educação e formadoroa de educação. Música que gosta: cumbias, românticas, rancheras, pop, eletrônica, rock dos anos 80 (assim disseram), marimba e revolucionárias. Cores favoritas: preto, azul e vermelho. Experiência marítima: cayuco e barco. Se preparou por 6 meses para ser delegade. Voluntárie para viajar de barco para a Europa. Foi designadoa como oa primeiroa Zapatista a desembarcar e assim, iniciar a invasão… ok, a visita à Europa.

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Portanto, a primeira sola do pé que pousará em solo europeu (claro, se nos deixarem desembarcar) não será de um homem, nem de uma mulher. Será de umoa outroa.

No que o finado SupMarcos teria chamado de “um cacetada em toda a esquerda heteropatriarcal”, foi decidido que quem primeiro desembarque seja Marijose.

Assim que colocar seus dois pés em solo europeu e se recuperar da vertigem, Marijose gritará:

“Rendam-se cara pálidas heteropatriarcais que perseguem o diferente”!

Nah, é brincadeira. Mas, não seria bom se ela dissesse isso?

Não, quando pisar em terra, oa compoa Zapatista, Marijose, dirá, em voz solene:

“Em nome das mulheres, crianças, homens, anciãos e, naturalmente, outroas Zapatistas, declaro que o nome desta terra, que seus nativos agora chamam de “Europa”, será doravante chamada: SLUMIL K’AJXEMK’OP, que significa “Terra Insubmissa”, ou “Terra que não se resigna, que não desmaia”. E assim será conhecida tanto pelos locais como por estranhos, desde que haja aqui alguém que não desista, que não se venda e que não ceda”.

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Eu atesto.

SupGaleano.

Abril de 2021.

(Continuará…)

MEMÓRIA HISTÓRICA | 50 ANOS DO JUSTIÇAMENTO DE HENNING BOILESEN: COMUNICADO DO MRT-ALN

No dia 5 de abril de 1971, foi preso e posteriormente torturado e assassinado na prisão, o líder revolucionário DEVANIR JOSÉ DE CARVALHO (“HENRIQUE”), pelos carrascos da ditadura fascista brasileira.

O Companheiro Henrique, iniciou sua vida revolucionária ainda jovem. De uma dedicação exemplar a causa revolucionária, combateu com todas as armas a ditadura dos ricos – que se implementou no Brasil desde 1964.

O Comandante Henrique morreu jovem, mas deu à Revolução Brasileira uma das maiores contribuições que um combatente possa oferecer; Formou centenas de quadros combatentes, que hoje mais do que nunca se levantam para empunhar armas em sua homenagem e contribuir a grande tarefa iniciada por “Henrique”: a LIBERTAÇÃO DO NOSSO POVO.

Como resposta ao brutal assassinato do Comandante Henrique e de tantos outros Revolucionárias que tombaram pela luta de Libertação do nosso Povo, tais como: CARLOS MARIGHELLA, JOAQUIM CÂMARA FERREIRA, EDUARDO LEITE, YOSHITAME FUJIMORE, ALDO DE SÁ BRITO, OLAVO HANSEN, CHAEL CHARLES SCHREIER, ADERVAL ALVES COQUEIRO, MARCO ANTONIO, JOELSON CRISPIM, VIRGILIO GOMES DA SILVA, JOSÉ MARIANO, JUARES DE BRITO, EIRALDO PALHA FREIRE e tantos outros, foi julgado e condenado por um TRIBUNAL REVOLUCIONÁRIO, o Agente da Cia. HENNING ARTHUR BOILESEN, que hoje é executado por este Comando Revolucionário.

Henning Arthur Boilesen, foi presidente do grupo Ultra em 1966/67 e recentemente era presidente da ASSOCIGÁS (Associação Brasileira dos Distribuidores de Gás Liquefeito de Petróleo), que controla as atividades das Companhias Petroquímicas, inclusive o grupo Ultra; foi colocado nesses cargos para desempenhar suas funções policiais a serviço do imperialismo norte-americano, pela 3° maior indústria monopolista dos EUA, que controla financeiramente o grupo Ultra (entre outros).

Boilesen, como presidente da Associgás, colocou diretamente os recursos das empresas que controlava a disposição dos órgãos repressivos, torturadores e assassinos do Povo Brasileiro.

Em São Paulo, a Operação Bandeirante (Dpto. de operações e informação (DOI) do Centro de Operações e Defesa Interna (CODI) do Exército Brasileiro, onde tem sido constantemente torturados e assassinados revolucionários brasileiros, estudantes e operários, é sustentada financeiramente e materialmente por poderosos grupos industriais. Sob a direção de Boilesen, essas empresas fornecem aos assassinos da Ditadura Fascista Brasileira, desde dinheiro, comida, caminhões usados para cerco e controle das regiões da cidade, até capacetes que produzem choques elétricos comprimindo o cérebro do torturado, causando loucura e morte.

Dentre esses gigantescos grupos industriais, aparentemente nacionais, o grupo Ultra é fundamental para a sustentação do regime fascista brasileiro. Ao mesmo tempo que vende inofensivos artigos eletrodomésticos, gás liquefeito, fertilizantes, etc., as suas lojas: Ultralar, Ultragás, Ultrafértil, fornece matéria prima para confecção de bombas NAPALM, DESFOLHANTES, etc.

HENNING ARTHUR BOILESEN, foi justiçado, não pode mais fiscalizar PESSOALMENTE as torturas e assassinatos da OBAN, nem oferecer banquetes aos altos oficiais das forças armadas brasileiras, que comandam o terror e a opressão de que é vítima o povo brasileiro desde 31 de março de 1964. Boilesen era apenas um dos responsáveis por este terror e opressão. Como ele, existem muitos outros e sabemos quem são. Todos terão o mesmo fim, não importando quanto tempo demore; o importante é que todos eles sentirão o peso da JUSTIÇA REVOLUCIONÁRIA.

“OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE”
“SE DEZ VIDAS TIVER, DEZ VIDAS DARIA”
“OU FICAR A PÁTRIA LIVRE, OU MORRER PELO BRASIL”
“À VITÓRIA SEMPRE” – COMANDO REVOLUCIONÁRIO “DEVANIR JOSÉ DE CARVALHO”
MRT – ALN

LANÇAMENTO | COLEÇÃO TEXTOS ESSENCIAIS: FRANTZ FANON – RACISMO E CULTURA

Iniciamos hoje a coleção “Textos essenciais”, que buscará produzir pequenos livretos em formato A6, com poderosas reflexões de autoras e autores que nos auxiliam a pensar na transformação radical de nossa sociedade. A coleção será publicada na segunda quinzena, de forma bimestral, e sempre terá uma versão digital para download gratuito, que será incluída na Biblioteca Virtual David Graeber, e outra impressa.

Quem dá o ponto de partida em nosso novo projeto é ninguém menos que o psiquiatra martinicano Frantz Fanon (1925-1961), com o texto “Racismo e cultura“, uma comunicação realizada no Primeiro Congresso de Escritores e Artistas Negros realizado em 1956 na Sorbonne, em Paris. Aqui utilizamos a versão publicada no livro “Em defesa da Revolução Africana”, disponível no Arquivo Marxista da Internet e adaptado ao português-brasileiro. Na obra, Fanon analisa os impactos sociais que o racismo e sua constante adaptação no intuito de ampliar sua dominação e controle cultural de um povo ou uma região. 

A obra pode ser acessada gratuitamente por este <link>, e a partir da compra de outras obras em nosso catálogo, adquirida em sua versão física pelo valor de R$5,00 com frete grátis.

EZLN | O CAMINHO PARA A EUROPA…

COMISSÃO SEXTA DO EZLN.
MÉXICO.

10 de abril de 2021.

Às pessoas, grupos, coletivos, organizações, movimentos, coordenadorias e povos originários da Europa que aguardam nossa visita:
À Sexta Nacional e Internacional:
Às redes em resistência e rebelião:
Ao Congresso Nacional Indígena:
aos povos do mundo:

Irmãs, irmãos, companheir@s:

Em 10 de abril de 2021 se concentraram no “Semillero Comandanta Ramona” @s companheir@s que formam parte do primeiro grupo de delegad@s em nossa Travessia pela Vida, capítulo Europa. Esta é a delegação marítima.

Com uma pequena cerimônia, segundo nossos usos e costumes, a delegação recebeu o mandato dos povos zapatistas de levar para longe nosso pensamento, ou seja, nosso coração. Noss@s delegad@s carregam um grande coração. Não apenas para abraçar aqueles que no continente europeu que se rebelam e resistem, mas também para ouvir e aprender com suas histórias, geografias, calendários e modos.

Este primeiro grupo permanecerá em quarentena por 15 dias, isolado no semillero, para garantir que não estejam infectados do chamado COVID 19 e para que se preparem para o tempo que dura a travessia pelo mar. Durante essas duas semanas, eles estarão vivendo dentro da réplica da embarcação que construímos no Semillero.

No dia 26 de abril de 2021, partirão para um porto da República Mexicana. Chegarão no mais tardar até 30 de abril e subirão na embarcação que batizamos de “La Montaña”. Durante dois ou três dias e noites, permanecerão a bordo do barco, e em 3 de maio de 2021, dia da Santa Cruz, Chan Santa Cruz, o navio “La Montaña” zarpará com noss@s companheir@s com destino às costas europeias, em uma viagem que deve levar de 6 a 8 semanas. Calcula-se que na segunda metade do mês de junho de 2021 eles estarão frente às costas europeias.

A partir de 15 de abril de 2021, desde os 12 caracoles Zapatistas, noss@s companheir@s bases de apoio estarão realizando atividades para despedir a delegação zapatista que, pelo mar e pelo ar, viajará para a geografia que chamam de “Europa”.

Nesta parte do que chamamos de “Travessia pela Vida. Capítulo Europa”, @s delegad@s zapatistas se encontrarão com aqueles que nos convidaram para conversar sobre nossas histórias mútuas, dores, fúrias, conquistas e fracassos. Até o momento, recebemos e aceitamos convites das seguintes geografias:

Alemanha
Áustria
Bélgica
Bulgária
Catalunha
Sardenha
Chipre
Croácia
Dinamarca
Eslovênia
Espanha
Finlândia
França
Grécia
Países Baixos
Hungria
Itália
Luxemburgo
Noruega
Países Basco
Polônia
Portugal
Reino Unido
Romênia
Rússia
Sérvia
Suécia
Suíça
Turquia
Ucrânia

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A partir de hoje, o Subcomandante Insurgente Galeano publicará uma série de textos onde ele lhes falará sobre quem compõem a delegação marítima zapatista, o trabalho que tem sido feito, alguns dos problemas que temos enfrentado, e assim por diante.

Em resumo: já estamos a caminho da Europa.

Isso é tudo por enquanto.

Das montanhas do sudeste mexicano.

Subcomandante Insurgente Moisés.
Comissão Sexta do EZLN.
México, abril de 2021.


LANÇAMENTO | “A QUARTA GUERRA MUNDIAL E OUTROS ESCRITOS”, DO SUBCOMANDANTE MARCOS

É com prazer que hoje lançamos o livro “A quarta guerra mundial e outros escritos”, um compilado de textos do Subcomandante Marcos, do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). A obra conta com quatro textos, sendo o primeiro “A quarta guerra mundial”, que analisa a luta entre estados imperialistas no século XXI e a necessidade de resistências contra a nova ofensiva, seguido de “carta do Subcomandante Marcos e do EZLN ao General Emiliano Zapata”, um diálogo imaginário com Emiliano Zapata, redigido no ano de 1997, que reafirma as posições do Exército Zapatista ante a luta por terra e liberdade no México. Além destes, “duas políticas e uma ética”, uma fala realizada aos estudantes da UNAM, no auditório Che Guevara, em 2007, e “carta ao menino Miguel”, uma sensível comunicação escrita em 1994, que trata de forma simples as razões e esperanças do EZLN.

A obra possui 40 páginas e poderá ser adquirida em nossa loja (https://linktr.ee/tsa.editora) pelo valor de R$ 15,00 com frete grátis para todo o país. Durante sua pré-venda, acompanhará o pôster “Esta usted en territorio zapatista“, em papel reciclado, 75g no formato A4.

“A Quarta Guerra Mundial está destruindo a humanidade na medida em que a globalização é uma universalização do mercado, e qualquer ser humano que se oponha à lógica do mercado é um inimigo e deve ser destruído. Neste sentido somos todos o inimigo a ser derrotado: indígenas, não indígenas, observadores dos direitos humanos, professores, intelectuais, artistas. Qualquer um que pense que é livre e não é”.

Subcomandante Marcos

CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO | OUTRO MUNDO ESTÁ SENDO: INSURGÊNCIAS E AUTONOMIAS ENTRE O CURDISTÃO E A AMÉRICA LATINA

A chamada                                 

É com muito prazer que convocamos pesquisadoras, pesquisadores e militantes de diversas matrizes ideológicas para construirmos coletivamente o livro “Outro mundo está sendo: insurgências e autonomias entre o Curdistão e América Latina”. A obra buscará reunir reflexões sobre as correlações teórico-práticas entre as lutas de libertação do povo curdo com as experiências de combate por uma vida digna pelos povos que habitam Nuestramérica.

Nossa intenção com o livro é ampliar a ponte há muito construída, sobre os mares e as opressões que nos cercam, para afirmar no campo da escrita o inquebrável compromisso de solidariedade, apoio mútuo e rebeldia daquelas e daqueles que constroem um mundo novo, em qualquer geografia ou calendário deste que será o nosso planeta.   

“Outro mundo está sendo” terá uma versão online para download gratuito e outra física, para compra. Contará com ISBN e ficha catalográfica. Para participar, autoras e autoras não precisam pagar absolutamente nada, devendo apenas seguir as normas descritas abaixo.

Normas para publicação (DOWNLOAD)

1. Condições para submissão:

1.1 Como parte do processo de submissão, autoras e autores obrigam-se a verificar a conformidade da submissão em relação a todos os itens listados a seguir.

1.2 A contribuição pode ser enviada em português ou espanhol.

1.3 Os arquivos para submissão devem estar no formato Microsoft Word, OpenOffice ou RTF (desde que não ultrapassem 2MB).

1.4 O texto segue os padrões de estilo e requisitos bibliográficos descritos abaixo.

2. Configurações gerais:

2.1 Os artigos devem ter a extensão mínima de 5 e máxima de 15 páginas.

2.2 Página: tamanho do papel: A4; margens superior e inferior: 3 cm; direita e esquerda: 3 cm. Tipo de letra: Times New Roman, corpo 12.

2.4 Espaçamentos: 1,15 entre linhas e parágrafos; deixar uma linha em branco (1,5) com espaçamento 6 pt antes e 0 pt depois do título de cada seção do artigo.

2.5 Recuo da primeira linha: 1,25 cm para assinalar início de parágrafos.

2.6 As referências bibliográficas devem aparecer no corpo do texto, indicando sobrenome do autor, data de publicação, página citada (Ex: AUTORA, ANO, página). A referência completa deve constar na bibliografia ao final do texto.

2.7 As citações de até quatro (4) linhas deverão vir entre aspas no corpo do texto. As citações de mais de quatro linhas devem vir destacadas, sem aspas, com recuo à esquerda de 2 cm, com espaço entre linhas simples e com letra tamanho 11; ambas seguidas das devidas referências no corpo do texto.

3. Envio de textos

3.1 Os textos devem ser enviados ao e-mail da editora (tsa.editora@gmail.com), com o assunto correspondente ao material enviado (artigo para livro).

3.2 Autoras e autores não deverão pagar absolutamente nada para enviar seus textos.

3.3. Após a avaliação, será enviado um e-mail com o resultado das considerações, indicando a publicação, revisão do texto ou não publicação.

Data limite para envio de trabalhos: 31 de Julho de 2021.

Data da publicação: Setembro de 2021.

“Resistência é vida”

Parnaíba, Piauí, Brasil. 20 de março de 2021.

Editora Terra sem Amos




CONVOCATORIA DE PUBLICACIÓN: OTRO MUNDO ESTÁ SIENDO: INSURGENCIAS Y AUTONOMÍAS ENTRE EL KURDISTÁN Y LA AMÉRICA LATINA

La llamada

Es un gran placer invitar a investigadoras, investigadores y militantes de diversas tendencias ideológicas a construir colectivamente el libro “Otro mundo está siendo: insurgencias y autonomías entre el Kurdistán y América Latina”. La obra tratará de reunir reflexiones sobre las correlaciones teórico-prácticas entre las luchas de liberación del pueblo kurdo y las experiencias de lucha por una vida digna para los pueblos que habitan Nuestramérica.

Nuestra intención con el libro es ampliar el puente que hace tiempo se ha construido, por encima de los mares y las opresiones que nos rodean, para afirmar en el campo de la escritura el compromiso inquebrantable con la solidaridad, el apoyo mutuo y la rebelión de quienes construyen un mundo nuevo, en cualquier geografía o calendario de éste que será nuestro planeta.  

“Otro mundo está siendo” tendrá una versión online de descarga gratuita y una versión física para compra. Contará con un ISBN y tarjeta catalográfica. Para participar, las autoras y autores no tienen que pagar nada y sólo deben seguir las normas que se describen abajo.

Normas de publicación (DOWNLOAD)

1. CONDICIONES DE SUMISIÓN:

1.1 Como parte del proceso de sumisión, autoras y autores están obligados a verificar la conformidad de la sumisión en relación con todos los puntos que se enumeran a seguir.

1.2 La contribución puede presentarse en portugués o en español.

1.3 Los archivos de la sumisión deberán estar en formato Microsoft Word, OpenOffice o RTF (siempre que no superen los 2 MB).

1.4 El texto sigue las normas de estilo y los requisitos bibliográficos que se describen abajo.

2. CONFIGURACIONES GENERALES:

2.1 Los artículos deberán tener una extensión mínima de 5 y máxima de 15 páginas.

2.2 Página: tamaño del papel: A4; márgenes superior e inferior: 3 cm; derecha y izquierda: 3 cm. Fuente: Times New Roman, tamaño 12.

2.4 Espaciado: 1,15 entre líneas y párrafos; deje una línea en blanco (1,5) con un espaciado de 6 pt antes y 0 pt después del título de cada sección del artículo.

2.5 La primera línea de sangría: 1,25 cm para marcar el comienzo de los párrafos.

2.6 Las referencias bibliográficas deben aparecer en el cuerpo del texto, indicando el apellido del autor, la fecha de publicación y la página citada (Ej: AUTORA, AÑO, página). La referencia completa debe aparecer en la bibliografía al final del texto.

2.7 Las citas de hasta cuatro (4) líneas deben ir entre comillas en el cuerpo del texto. Las citas de más de cuatro líneas deben ir resaltadas, sin comillas, con una sangría de 2 cm a la izquierda, con espacio simple entre líneas y tamaño de letra 11; ambas seguidas de las referencias correspondientes en el cuerpo del texto.

3. ENVÍO DE TEXTOS

3.1 Los textos deben enviarse al correo electrónico de la editora (tsa.editora@gmail.com), con el asunto correspondiente al material enviado (artículo para libro).

3.2 Las autoras y autores no tendrán que pagar nada por enviar sus textos.

3.3 Tras la evaluación, se enviará un correo electrónico con el resultado de las consideraciones, indicando la publicación, la revisión del texto o la no publicación.

Fecha límite de presentación: 31 de julio de 2021.

Fecha de publicación: septiembre de 2021.

“Resistencia es vida “

Parnaíba, Piauí, Brasil. 20 de marzo de 2021.

Editora Terra sem Amos

ROAR MAG | MANIFESTO N. 170 DA COMUNA DE PARIS – 19 DE MARÇO DE 1871

O Manifesto apresenta uma visão poderosa do papel que a Comuna pode desempenhar na realização de uma “nova era de política científica, experimental e positiva”.


REPÚBLICA FRANCESA
Liberdade. — Igualdade. — Fraternidade

COMUNA DE PARIS

DECLARAÇÃO
AO POVO FRANCÊS

No doloroso e terrível conflito que novamente ameaça Paris com os horrores de um cerco e bombardeio; que faz correr sangue francês, não poupando nem nossos irmãos, nem nossas esposas, nem nossos filhos; esmagados sob balas de canhão e tiros de fuzil, é necessário que a opinião pública não seja dividida, que a consciência nacional seja perturbada.

Paris e a nação inteira devem conhecer a natureza, a razão e o objetivo da revolução que está sendo realizada. Finalmente, é justo que a responsabilidade pelas mortes, pelo sofrimento e pelas desgraças de que somos vítimas recaia sobre aqueles que, depois de ter traído a França e entregue Paris aos estrangeiros, perseguem com uma obstinação cega e cruel a ruína da grande cidade para enterrar, no desastre da república e da liberdade, o duplo testemunho de sua traição e de seu crime.

A Comuna tem a obrigação de afirmar e determinar as aspirações e desejos da população de Paris, de definir o caráter do movimento de 18 de março, mal compreendido, desconhecido e difamado pelos políticos sentados em Versalhes.

Mais uma vez, Paris trabalha e sofre por toda a França, para a qual prepara, através de seus combates e sacrifícios, a regeneração intelectual, moral, administrativa e econômica, sua glória e prosperidade.

O que ela pede?

O reconhecimento e a consolidação da República, única forma de governo compatível com os direitos do povo e com o desenvolvimento normal e livre da sociedade.

A autonomia absoluta da Comuna se estenda a todas as localidades da França e assegure a cada uma seus plenos direitos, e a cada francês o pleno exercício de suas faculdades e habilidades como homem, cidadão e produtor.

O único limite à autonomia da Comuna deva ser o direito igualitário à autonomia de todas as comunas aderentes ao contrato, cuja associação deve assegurar a unidade francesa.

Os direitos inerentes à Comuna são:

A votação dos orçamentos, receitas e despesas comunais; a fixação e distribuição de impostos; a administração dos serviços públicos; a organização de sua magistratura, polícia interna e educação; a administração dos bens pertencentes à Comuna.

A escolha por eleição ou competição de magistrados e funcionários comunais de todas as ordens, assim como o direito permanente de controle e revogação.

A garantia absoluta da liberdade individual e da liberdade de consciência.

A intervenção permanente dos cidadãos em assuntos comunais pela livre manifestação de suas ideias, a livre defesa de seus interesses, com garantias dadas para essas manifestações pela Comuna, a única encarregada de supervisionar e assegurar o livre e justo exercício do direito de reunião e propaganda.

A organização da defesa urbana e a Guarda Nacional, que elege seus chefes e sozinha se encarrega da manutenção da ordem na cidade.

Paris não quer mais nada como garantia local, na condição, é claro, de encontrar na grande administração central – a delegação de Comunas federadas – a realização e a prática dos mesmos princípios.

Mas como elemento de sua autonomia, e beneficiando-se de sua liberdade de ação, dentro de suas fronteiras se reserva para si o direito de operar as reformas administrativas e econômicas solicitadas pela população como ela deseja; criar as instituições necessárias para desenvolver e difundir instrução, produção, intercâmbio e crédito; universalizar o poder e a propriedade de acordo com as necessidades do momento, os desejos dos interessados e os elementos dados pela experiência.

Nossos inimigos estão sendo enganados ou estão enganando o país quando acusam Paris de querer impor sua vontade ou sua supremacia sobre o resto da nação e pretender uma ditadura, o que seria um verdadeiro ataque à independência e à soberania de outras comunas.

Eles estão sendo enganados ou enganando o país quando acusam Paris de buscar a destruição daquela unidade francesa constituída pela Revolução para a aclamação de nossos pais, que apressaram a Fete de la Fédération de todos os cantos da velha França.

Unidade, como nos tem sido imposta até hoje pelo Império, a monarquia ou parlamentarismo não é nada mais que uma centralização ininteligente, arbitrária ou onerosa.

A unidade política, como Paris quer, é a associação voluntária de todas as iniciativas locais, o concurso espontâneo e livre de todas as energias individuais em vista de um objetivo comum: o bem-estar, a liberdade e a segurança de todos.

A revolução comunal, iniciada pela iniciativa popular em 18 de março, inicia uma nova era de política científica, experimental e positiva.

É a necessidade do velho mundo governamental e clerical, do militarismo e do funcionalismo, da exploração, especulação, monopólios e privilégios aos quais o proletariado deve sua servidão e a Pátria seus infortúnios e desastres.

Que este amado e grande país – enganado por mentiras e calúnias – seja tranquilizado! A luta entre Paris e Versalhes é uma daquelas que não podem ser terminadas através de compromissos ilusórios. O fim não pode ser questionado. A vitória, perseguida com uma energia indomável pela Guarda Nacional, avançará para a ideia e para a verdade.
Exortamos a França.

Advertimos que Paris em armas possui tanta calma quanto coragem, que apoia a ordem com tanta energia quanto entusiasmo, que se sacrifica com tanta razão quanto energia, que só se armou em devoção à liberdade e à glória de todos: que a França cesse este conflito sangrento.

Cabe à França desarmar Versalhes através da manifestação solene de sua vontade irresistível.

Convocada a se beneficiar de nossas conquistas, que ela se declare solidária com nossos esforços. Que seja nossa aliada neste combate que só pode terminar no triunfo da ideia comunal ou na ruína de Paris.

Quanto a nós, cidadãos de Paris, nossa missão é a realização da Revolução moderna, a maior e mais fecunda de todas aquelas que iluminaram a história.

É nossa obrigação de lutar e vencer.

19 de abril de 1871,

A COMUNA DE PARIS


Fonte: April 19 – Manifesto of the Paris Commune

CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO: REVISTA TSA N. 03

É com muita felicidade que abrimos hoje, no sesquicentenário da Comuna de Paris, a chamada para publicação na terceira edição da Revista Terra sem Amos (ISSN: 2675-3650 online | 2675-3642 impressa). A edição tem por título “Novos Junhos Virão: reflexões sobre o levante dos marginalizados de junho de 2013“, e acolherá artigos que discutam as motivações, origens e reflexos do maior levante popular do país desde a ditadura civil-militar. As normas podem ser consultadas neste link.

Limite para envio de trabalhos: 15 de junho de 2021.

Data de lançamento: 20 de junho de 2021.

MICHAEL LÖWY – O SOCIALISMO INTERNACIONALISTA DE ROSA LUXEMBURGO

Diante do nacionalismo crescente e de uma crise ecológica planetária fomentada pelo capitalismo global, o ethos internacionalista de Rosa Luxemburgo é mais relevante do que nunca.

Poucos pensadores marxistas estavam mais comprometidos com o programa internacionalista do socialismo do que Rosa Luxemburgo. Ela era judia, polonesa e alemã, mas sua primeira e única “pátria” era a Internacional Socialista.

Ao contrário de tantos outros socialistas de sua época, para Luxemburgo o internacionalismo não estava limitado aos países europeus. Ela se opôs ativamente ao colonialismo europeu desde cedo, e não escondeu sua simpatia pelas lutas dos povos coloniais. Isto naturalmente incluiu guerras coloniais alemãs na África, como a brutal repressão da revolta de Herero no Sudoeste da África alemã em 1904. Em um discurso público realizado em junho de 1911, ela explicou:

“Os Herero são um povo negro, que vivem há séculos em sua pátria… Seu ‘crime’ foi não terem cedido aos traficantes brancos de escravos… e defendido suas terras contra invasores estrangeiros… Também nesta guerra, as armas alemãs foram ricamente cobertas com – glória. … Os homens foram fuzilados, as mulheres e crianças… empurrados para o deserto ardente”.


Enquanto condenava as pretensões imperialistas alemãs (contra a França) no Norte da África – o chamado “incidente do Marrocos” em 1911, quando a Alemanha enviou seus barcos de guerra para Agadir – ela descreveu o colonialismo francês na Argélia como uma violenta tentativa de impor a propriedade privada burguesa contra o antigo comunismo de clã das tribos árabes. Em suas palestras sobre economia política na escola do Partido Social Democrata em 1907-1908, ela enfatizou a conexão entre o comunismo moderno das massas proletárias nos países capitalistas avançados e os “antigos sobreviventes comunistas que colocaram resistência teimosa nos países coloniais à marcha progressiva da dominação imperial “faminta de lucro”.

Em seu ensaio econômico mais importante, A Acumulação de Capital, ela argumentou que a acumulação capitalista em escala global não era apenas um estágio inicial, mas um processo permanente de expropriação violenta:

A acumulação de capital, vista como um processo histórico, emprega a força como uma arma permanente, não apenas em sua gênese, mas mais adiante até os dias de hoje. Do ponto de vista das sociedades primitivas envolvidas, trata-se de uma questão de vida ou morte; para elas não pode haver outra atitude além de oposição e luta até o fim… Daí a ocupação permanente das colônias pelos militares, os levantamentos nativos e as expedições punitivas são a ordem do dia para qualquer regime colonial.

Muito poucos socialistas na época não apenas denunciaram as expedições coloniais, mas justificaram a resistência e a luta do povo colonizado. Esta atitude revela a natureza verdadeiramente universal de seu internacionalismo – mesmo que, é claro, a Europa estivesse no centro de sua atenção.

“TRABALHADORES DO MUNDO, UNI-VOS!”
Georg Lukács, em seu capítulo sobre “O Marxismo de Rosa Luxemburgo” em História e Consciência de Classe (1923), argumentou que a categoria dialética da totalidade é a “portadora do princípio da revolução na ciência”. Ele via os escritos de Rosa Luxemburgo, especialmente sua Acumulação de Capital (1913), como um exemplo marcante desta abordagem dialética. No entanto, o mesmo pode ser dito de seu internacionalismo: ela julga, analisa e discute todas as questões sociais e políticas do ponto de vista da totalidade, ou seja, da perspectiva dos interesses do movimento internacional da classe trabalhadora.

Esta totalidade dialética não era uma abstração, um universalismo vazio ou um conglomerado de seres indiferenciados: ela sabia bem que o proletariado internacional era uma pluralidade humana composta de pessoas com culturas, línguas e histórias próprias; suas condições de vida e de trabalho também eram muito diferentes. Em Acumulação de Capital há uma longa descrição do trabalho forçado nas minas e plantações da África do Sul – nada equivalente poderia ser encontrado nas fábricas alemãs. Mas esta diversidade não devia ser entendida como um obstáculo à ação comum: em outras palavras, o internacionalismo significava para ela, como para Marx e Engels, “Proletarier aller Länder, vereinigt euch! – a unidade dos trabalhadores de todos os países contra seu inimigo comum: o sistema capitalista, o imperialismo e as guerras imperialistas.

Por isso, logo após sua chegada à Alemanha e entrada nas fileiras do Partido Social Democrata Alemão (SDP), ela se recusou a fazer qualquer concessão ao militarismo, aos créditos militares ou às expedições navais. Enquanto a direita socialdemocrata (pessoas como Wolfgang Heine e Max Schippel) estava disposta a negociar acordos com o governo do Kaiser sobre estas questões, ela denunciou abertamente tais capitulações, supostamente justificadas pela “necessidade de criar empregos”.

CONSISTENTEMENTE ANTIGUERRA
Rosa Luxemburgo viu claramente o perigo crescente de uma guerra europeia, e nunca deixou de denunciar os preparativos de guerra do governo imperial alemão. Em 13 de setembro de 1913, ela deu uma palestra em Bockenheim, uma cidade perto de Frankfurt am Main, que terminou com uma solene declaração internacionalista: “Se eles pensam que vamos levantar as armas do assassinato contra nossos franceses e outros irmãos, então gritaremos: nunca o faremos”! O promotor público imediatamente a acusou de “apelar para a desobediência pública à lei.

O julgamento foi realizado em fevereiro de 1914, e Rosa Luxemburgo fez um discurso destemido atacando o militarismo e as políticas de guerra e citando uma resolução da Conferência de Bruxelas de 1868 da Primeira Internacional: em caso de guerra, os trabalhadores devem convocar uma greve geral. A palestra apareceu na imprensa socialista e se tornou uma espécie de clássico da literatura antiguerra. Ela foi condenada a um ano de prisão, mas somente depois que a guerra começou, em 1915, as autoridades Imperiais ousaram prendê-la.
Enquanto tantos outros socialistas e marxistas europeus apoiaram seus próprios governos no início da Primeira Guerra Mundial em nome da “defesa da pátria”, ela imediatamente procurou organizar a oposição à guerra imperialista. Seus escritos durante estes primeiros meses cruciais não fazem concessões à agressiva ideologia oficial “patriótica”, e desenvolvem argumentos cada vez mais críticos contra a infeliz traição da liderança do SPD aos princípios do internacionalismo proletário.

Presa várias vezes por sua propaganda anti-militarista e anti-nacionalista, ela resumiu seu ponto de vista de princípios em um ensaio de 1916 intitulado “Either/Or”: “A pátria do proletariado, cuja defesa deve prevalecer sobre tudo o resto, é a Internacional Socialista”. A Segunda Internacional havia sucumbido sob o impacto do que ela chamou de “social-chauvinismo”, substituindo “Proletários de todos os países, uni-vos!” por “Proletários de todos os países, cortem as gargantas uns dos outros!”
Em resposta, Luxemburgo lançou um apelo para a criação de uma nova Internacional. Escrevendo sua proposta para os princípios básicos desta futura Internacional, ela enfatizou: “Não pode haver socialismo fora da solidariedade internacional do proletariado e não pode haver socialismo sem luta de classes”. O proletariado socialista não pode renunciar à luta de classes e à solidariedade internacional, seja em guerra ou em paz, sem cometer suicídio”.

Isto foi, naturalmente, uma resposta ao argumento hipócrita de Karl Kautsky de que a Internacional era uma ferramenta para tempos de paz, mas infelizmente não adequada em uma situação de guerra. Esta nova teoria serviu de justificativa para seu apoio à “defesa nacional” alemã em 1914. “Either/Or” inclui uma declaração pessoal, uma comovente confissão de seus mais queridos valores éticos e políticos: “A fraternidade internacional dos trabalhadores é para mim a coisa mais elevada e sagrada do mundo, é minha estrela-guia, meu ideal, minha pátria; prefiro desistir de minha vida, do que me tornar infiel a este ideal”!

ADVERTÊNCIA CONTRA O NACIONALISMO
Rosa Luxemburgo foi profética em seus avisos contra os males do imperialismo, do nacionalismo e do militarismo. Um profeta não é alguém que prevê milagrosamente o futuro, mas alguém que, como Amós e Isaías, adverte o povo da catástrofe que se avizinha – a menos que eles tomem medidas coletivas para evitá-la. Ela advertiu que sempre haveria novas guerras enquanto o imperialismo e o capitalismo continuassem a existir:

A paz mundial não pode ser assegurada por planos tão utópicos ou basicamente reacionários como as cortes internacionais de arbitragem compostas por diplomatas capitalistas, acordos diplomáticos relativos ao “desarmamento” … “federações europeias”, “uniões alfandegárias da Europa média”, “Estados-tampão nacionais” e similares. Imperialismo, militarismo e guerras não serão abolidos ou condenados enquanto a regra das classes capitalistas continuar incontestável.

Ela advertiu contra o nacionalismo como inimigo mortal dos trabalhadores e do movimento socialista e como um terreno fértil para o militarismo e a guerra. “A tarefa imediata do socialismo”, escreveu ela em 1916, “será a libertação intelectual do proletariado do domínio da burguesia como manifesta na influência da ideologia nacionalista”.

No “Fragmento sobre a Guerra, a Questão Nacional e a Revolução” (1918), ela se preocupa com o súbito aumento dos movimentos nacionalistas durante o último ano da guerra: “No nacionalista Blockberg estamos hoje na noite de Walpurgis” (uma referência ao sábado das bruxas mitológicas alemãs). Estes movimentos eram de natureza muito diferente, sendo alguns a expressão de classes burguesas menos desenvolvidas (como nos Balcãs), enquanto outros, como o nacionalismo italiano, eram puramente imperial-coloniais. Esta “atual explosão mundial do nacionalismo” continha uma variedade multicolorida de interesses especiais, mas estava unida por um interesse comum decorrente da situação histórica excepcional criada em outubro de 1917: a luta contra a ameaça da revolução mundial do proletariado.

O que ela quis dizer com “nacionalismo” não foi, naturalmente, a cultura nacional ou a identidade nacional de diferentes povos, mas sim a ideologia que transforma “A Nação” no supremo valor político ao qual tudo o mais deve se submeter (“Deutschland über alles“).

Suas advertências foram proféticas, na medida em que alguns dos piores crimes do século XX – da Primeira à Segunda Guerra Mundial (Auschwitz, Hiroshima) e mais além – foram cometidos em nome do nacionalismo, da hegemonia nacional, da “defesa nacional”, do “espaço vital nacional” e afins. O próprio estalinismo foi o produto da degeneração nacionalista do estado soviético, como encarnado no slogan “Socialismo em um só país”.

Pode-se criticar algumas de suas posições em relação às demandas nacionais, mas ela percebeu claramente os perigos da política de Estado-nação (conflitos territoriais, “limpeza étnica”, opressão das minorias). Ela não poderia ter previsto genocídios.

OPOSIÇÃO À INDEPENDÊNCIA NACIONAL
É verdade, porém, que este internacionalismo radical a levou a tomar posições questionáveis sobre a questão nacional. Por exemplo, em relação a seu país natal, a Polônia, ela não só se opôs ao apelo à independência nacional polonesa levantado pelos “patriotas sociais” do Partido Socialista Polonês (PPS) de Piłsudski, mas até rejeitou o apoio bolchevique ao direito da Polônia à autodeterminação (incluindo o direito de se separar da Rússia).

Até 1914, ela basearia suas opiniões em argumentos “economistas”: A Polônia já estava integrada na economia russa e, portanto, a independência polonesa era uma demanda puramente utópica compartilhada apenas por camadas reacionárias aristocráticas ou mesquinhas burguesas. Ela também concebeu as nações como fenômenos essencialmente “culturais”, propondo a “autonomia cultural” como a solução para as demandas nacionais. Faltando em sua abordagem é precisamente a dimensão política da questão nacional, como enfatizado nos escritos de Lenin sobre o tema: o direito democrático à autodeterminação.

No entanto, pelo menos em um artigo, ela declarou o problema de uma forma muito mais aberta e dialética: a introdução de 1905 à coleção A Questão Polonesa e o Movimento Socialista. Neste ensaio, ela faz uma distinção cuidadosa entre o direito legítimo de cada nação à independência – “que fluiu diretamente dos princípios mais elementares do socialismo” – e a conveniência desta independência para a Polônia, que ela rejeitou. Ela também insistiu que a opressão nacional é “a opressão mais intoleravelmente bárbara”, e só pode provocar “uma revolta irada e fanática”.
No entanto, alguns anos mais tarde, em seu caderno de 1918, A Revolução Russa – que contém críticas altamente valiosas aos controles da democracia e liberdade dos bolcheviques – ela rejeita mais uma vez qualquer referência ao direito da nação à autodeterminação como “fraseologia oca, mesquinha e pequeno-burguesa”.

UMA BÚSSOLA PARA A ESQUERDA GLOBALIZADA
Qual é a relevância do internacionalismo de Rosa Luxemburgo hoje? É claro que as condições históricas do início do século XXI são muito diferentes das do início do século XX, quando ela escreveu a maioria de seus textos. No entanto, em alguns aspectos decisivos, sua mensagem internacionalista é tão – ou talvez até mais – relevante hoje como no seu tempo.
No século XXI, a globalização capitalista impôs seu poder a um grau historicamente sem precedentes, promovendo níveis obscenos de desigualdade e levando a consequências ambientais catastróficas. De acordo com o Relatório Oxfam de 2017, oito bilionários e proprietários de empresas multinacionais têm uma fortuna equivalente à da metade mais pobre da humanidade (3,8 bilhões de pessoas). Através de suas instituições – o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio (OMC) e o G7 – o capital consolidou um bloco unido de classes dirigentes capitalistas em torno do neoliberalismo e da desregulamentação.

É claro que existem contradições entre vários interesses imperialistas, mas todos eles compartilham uma agenda comum: apagar todas as conquistas parciais do movimento dos trabalhadores, eliminar os serviços públicos, privatizar os lucros e socializar as perdas, e assim intensificar a exploração. Este processo planetário é hegemonizado pelo capital financeiro parasitário, cujo governo despótico através dos mecanismos cegos e reificados dos “mercados financeiros” é agora imposto às populações de todos os países.

A resistência local e nacional é necessária, mas insuficiente: um sistema planetário tão perverso deve ser combatido em escala planetária. Em outras palavras, a resistência anticapitalista deve ser globalizada. As Internacionais Comunistas e Socialistas da época de Rosa Luxemburgo quase não existem nesta forma. Existem algumas organizações regionais, como o Partido da Esquerda Europeia ou a Conferência Latino-americana de São Paulo, mas nenhum organismo internacional equivalente. A Quarta Internacional fundada por Leon Trotsky em 1938 ainda está ativa em todos os quatro continentes, mas sua influência é limitada.
A principal razão de esperança é o novo movimento internacional pela justiça global, que está plantando as sementes de uma nova cultura internacionalista. A forma tomada por esta resistência planetária à globalização capitalista é a do “movimento de movimentos”, uma federação flexível de movimentos sociais cuja principal expressão é o Fórum Social Mundial, fundado em 2001. Esta convergência de sindicalistas, feministas, ambientalistas, trabalhadores, camponeses, comunidades indígenas, redes de juventude, assim como grupos socialistas ou comunistas na luta comum contra a globalização empresarial – ou seja, capitalista – é um importante passo em frente. Naturalmente, é principalmente um espaço para a troca de experiências e a tomada de iniciativas comuns dispersas e carece da ambição de definir uma estratégia ou programa comum.

O legado de Rosa Luxemburgo pode ser importante para este movimento em muitos aspectos. Ela deixa claro que o inimigo não é a “globalização” ou apenas o “neoliberalismo”, mas o próprio sistema capitalista global. A alternativa à hegemonia capitalista global não é a “soberania nacional”, a defesa do nacional contra o global, mas sim a resistência globalizante, ou seja, internacionalizante. A alternativa ao Império não é uma forma “regulada”, “humanizada” de capitalismo, mas uma nova civilização mundial, socialista e democrática. Naturalmente, em nossos tempos temos que lidar com novos desafios desconhecidos para Rosa Luxemburgo: catástrofe ecológica e aquecimento global. Eles resultam da dinâmica destrutiva do desejo ilimitado de expansão e crescimento dos capitalistas e devem ser enfrentados em escala global. Em outras palavras, a crise ecológica é um novo argumento para a relevância do ethos internacionalista de Luxemburgo.

O aviso de Rosa Luxemburgo contra o veneno do nacionalismo nunca foi tão relevante. No mundo de hoje – e particularmente na Europa e nos Estados Unidos – o nacionalismo, a xenofobia e o racismo sob diversas formas “patrióticas”, reacionárias, fascistas ou semifascistas estão em ascensão e constituem um perigo mortal para a democracia e a liberdade. A islamofobia, o antisemitismo e o racismo anti-cigano estão em ascensão, desfrutando de um apoio governamental aberto ou discreto. Acima de tudo, o ódio xenófobo aos migrantes – populações desesperadas fugindo de perseguições, guerras e fome – é cinicamente promovido pelos partidos neofascistas e/ou governos autoritários. Orbán, Salvini e Trump são apenas os representantes mais flagrantes e nauseabundos das políticas que expulsam os migrantes – sejam muçulmanos, africanos ou mexicanos – e os denunciam como uma ameaça à identidade nacional, racial ou religiosa. Milhares de migrantes são condenados à morte nas águas do Mediterrâneo pelo fechamento hermético das fronteiras da Europa. Pode-se tratar isto como uma nova forma do comportamento colonialista brutal, tão duramente denunciado por Rosa Luxemburgo.

Seu internacionalismo socialista continua sendo uma inestimável bússola moral e política em meio a esta tempestade xenofóbica. Felizmente, os internacionalistas marxistas não são os únicos a se opor obstinadamente à onda racista e nacionalista: muitas pessoas em todo o mundo, movidas por valores humanistas, religiosos ou morais, estão demonstrando solidariedade com minorias perseguidas e migrantes. Sindicalistas, feministas e outros movimentos sociais estão ocupados em organizar pessoas de todas as raças e nacionalidades em uma luta comum contra a exploração e a opressão.

A xenofobia reacionária é a única forma de nacionalismo no mundo de hoje? Não se pode negar que ainda existem movimentos de libertação nacional com exigências legítimas de autodeterminação – um conceito que, como sabemos, Rosa Luxemburgo não subscreveu. Os palestinos e os curdos são dois exemplos óbvios. No entanto, é interessante observar que a principal força nacionalista curda de esquerda, o PKK (Partido dos Trabalhadores Curdos), decidiu abandonar o apelo por um Estado-nação separado. Criticando o Estado-nação como uma forma opressiva, adotou uma nova perspectiva influenciada pelas ideias anarquistas de Murray Bookchin: o “Confederalismo Democrático”.

As ideias internacionalistas de Rosa Luxemburgo, mas também de Marx, Engels, Lenin, Trotsky, Gramsci, José Carlos Mariatégui, W.E.B. Dubois, Frantz Fanon e muitos outros são instrumentos preciosos para compreender e transformar nossa realidade. São armas necessárias e indispensáveis para as lutas de nosso tempo. No entanto, o marxismo é um método aberto, em constante movimento, que deve cultivar novas ideias e conceitos para enfrentar os novos desafios de cada época.


Publicado em ROARMag, com o título “The socialist internacionalism of Rosa Luxemburg” em 05.03.2021

LANÇAMENTO DO LIVRO “PARIS ESTÁ EM CHAMAS: MEMÓRIAS DA COMUNA – LOUISE MICHEL”

É com imenso prazer que lançamos hoje o livro “Paris está em chamas: memórias da Comuna – Louise Michel“, com memórias da revolucionária anarquista e comunarda Louise Michel, traduzidas pela primeira vez ao português. A obra é iniciada com um prefácio do prof. Dr. Raphael Cruz, que busca traçar um pequeno esboço biográfico que se confunde com insurgências e rebeliões que eclodiram em toda a Europa, culminando com o assalto aos céus que trouxe ao mundo a primeira experiência de autogoverno do povo – a Comuna de Paris. Conta ainda com três memórias de Michel enquanto participava da Comuna, no Comitê de Vigilância do 18º Distrito. Essas memórias registram suas impressões durante a proclamação da Comuna, a vida cotidiana na insurgente cidade de Paris e sobre as mulheres que participaram do levante. Finaliza-se a obra com uma cronologia de sua vida.

O livro tem o valor de R$15,00 com frete gratuito para todo o país e acompanha, durante o período de pré-venda, um cartaz comemorativo ao sesquicentenário da Comuna de Paris. Para adquirir, visite nossa loja online pelo link: https://linktr.ee/tsa.editora.

“A proclamação da Comuna foi esplêndida. Não era a festa do poder, mas a cerimônia do sacrifício. Sentia-se que os eleitos eram votados ao martírio e à morte”.

Louise Michel