TURQUIA: CENSURAM A PALAVRA “CURDISTÃO” NOS ROMANCES DE PAULO COELHO E SALMAN RUSHDIE

A censura da palavra “Curdistão” na tradução turca do romance Onze Minutos do escritor Paulo Coelho, que foi notícia no The Guardian em 2019, foi repetida, desta vez na tradução do romance A Feiticeira de Florença, de Salman Rushdie.

A seguinte oração está incluída na edição inglesa do romance de Rushdie: “Depois do saque de Tabriz, Selim quis ficar na capital safávida durante o inverno e conquistar o resto da Pérsia na primavera, mas Argalia lhe disse que o exército se amotinaria se ele insistisse nisso. Tinham conquistado a vitória e tinham anexado grande parte da Anatólia oriental e Curdistão, quase duplicando o tamanho do império otomano”.

Gazete Duvar relatou que os leitores notaram a censura e tornaram pública a denúncia nas redes sociais, provocando protestos aos quais o dono da proeminente editora turca, Can Publications, respondeu.

O termo Curdistão foi traduzido por Begüm Kovulmaz como “as terras onde os curdos viviam” na décima segunda edição da versão turca, que foi publicada em dezembro de 2020.

Can Öz, o proprietário da editora, respondeu às críticas em sua conta no Twitter: “Não temos tal política. Parece que o livro foi impresso pela primeira vez em 2005. Isto é inacreditável. Será retirado e corrigido imediatamente”.

A palavra Curdistão havia sido censurada anteriormente na edição turca de Onze Minutos, de Coelho, traduzida por Saadet Özen.

A seguinte oração está incluída na edição inglesa: “Entrou em um cybercafé e descubriu que os curdos vinham do Curdistão, um país inexistente, agora dividido entre Turquia e Iraque”.

Foi traduzido na edição turca como “que os curdos viviam no Oriente Médio”.

Em 13 de julho de 2019, em resposta às reações dos leitores, Can Öz fez uma declaração: “Eu não sei quem é responsável pela discrepância entre a versão original e a versão traduzida dos Onze Minutos de Paulo Coelho. Eu não sei quem é o editor. A primeira edição é muito antiga. Mas a editora não tem o direito de agir por capricho. Os leitores estão certos ao reagir. Vamos corrigi-lo na próxima reimpressão”.

Sezgin Dinç, advogado e secretário-geral da Ordem dos Advogados de Mardin, tweetou em 24 de julho, colocando uma foto das páginas relevantes do Onze Minutos, e respondeu a Can Öz: “Você disse que os leitores tinham razão e que iria fazer correções depois que os leitores reagiram à 38ª reimpressão do Onze Minutos. Ainda não há correção na 43ª edição. Antes responsabilizava o editor e o tradutor. Não acha que é hora de assumir a responsabilidade e dizer ‘esta é nossa política editorial’?”.

FONTE: Medya News / Tradução e Edição: Kurdistán América Latina

COLÔMBIA SEQUESTRA 134 DA PRIMERA LÍNEA EM MEGAOPERAÇÃO POLÍTICO-MILITAR

No domingo (25/07), Diego Molano, ministro da defesa colombiano, noticiou publicamente o sequestro de 134 pessoas que supostamente participavam da primera línea durante os poderosos protestos antineoliberais na Colômbia. Segundo o carrasco do povo, 34 operações em 18 cidades do país, realizadas pela Policía Nacional Colombiana, sob a falsa argumentação de que a tática é financiada por organizações como o ELN e os militantes das FARC que não caíram no canto da sereia republicano-burguês e se mantiveram em armas.

O que é a Primera Línea?

Primera Línea (linha de frente) é uma tática avançada de autodefesa popular realizada durante os protestos para garantir a integridade física dos manifestantes, ante a brutalidade criminosa das forças de repressão. Surgiu no Chile, durante os protestos antineoliberais de 2019, diante do assassinato e sequestro de centenas de manifestantes que decidiram por não mais serem torturados pelos carabineros. Baseia-se na formação de pequenos agrupamentos divididos por funções (autodefesa, barricadas, saúde, anti-reconhecimento com uso de lasers, etc) que operam em conjunto.

A Colômbia e a luta pela vida contra o neoliberalismo.

A Colômbia é palco de uma das mais sangretas batalhas pela vida na América Latina. Para além do sanguinário Escuadrón Móvil Antidisturbios (ESMAD), o narcoestado de Iván Duque conta com o apoio de milícias reacionárias e cartéis de drogas como soldados de combate antipovo, para garantir o aprofundamento do neoliberalismo no país e a integridade do mandato de Duque. As detenções em massa são a ponta de um antigo iceberg da América Latina: uma nova Operação Condor, que sobrevoa o cone sul, desta vez para seu alinhamento neoliberal, na marra ou na marra. Desta vez, além de armada política, ideológica e militarmente, conta com um suporte tecnológico que na década de 1960 não possuía, como robôs em redes sociais, a proteção destas plataformas virtuais, como o Instagram e Facebook, redes de reconhecimento facial, dentre outros. Este sobrevoo alcança também o Brasil, e o desarme/criminalização de táticas de autodefesa pregado por conservadores e reformistas precipita a derrota coletiva do povo.

Escreve para a TsA, Jules Elysard.

PKK | A REVOLUÇÃO DE ROJAVA BRILHA INTENSAMENTE COMO UMA ESTRELA

Fonte: Agência de Notícias Firat/ES


O dia 19 de julho marca o nono aniversário do início da Revolução Rojava. Nesta ocasião, o PKK emitiu uma declaração focando o significado global desta revolução democrática e de libertação da mulher. A declaração do Comitê Executivo da PKK diz o seguinte:

“Estamos agora entrando no décimo ano após 19 de julho de 2012, data em que começou a Revolução pela Liberdade de Rojava”. Esta revolução vem brilhando para o mundo como uma estrela há nove anos; é um novo farol de esperança para toda a humanidade, especialmente para as mulheres, os jovens e os trabalhadores. A revolução mostra a todos que é possível criar um mundo em unidade democrática fraterna. Esta revolução derrotou o criminoso ISIS, a calamidade para os curdos, especialmente para as mulheres e os povos do Oriente Médio; e esta revolução é a primeira implementação prática integral da “teoria da modernidade democrática” do líder Apo (Abdullah Ocalan), e criou um importante acúmulo de experiências revolucionárias com lições.
Nesta base, saudamos o espírito revolucionário, a vontade e a coragem de 19 de julho. Parabenizamos todo o povo do Norte e Leste da Síria, especialmente o povo de Rojava, por seus sucessos democráticos revolucionários coletivos. Parabenizamos a Revolução pela Liberdade de Rojava por todas as forças da liberdade, nosso povo e os povos do Oriente Médio, as mulheres e todos os oprimidos, mas especialmente o líder Apo. Prestamos homenagem a todos os nossos heróicos mártires na pessoa dos grandes líderes revolucionários da Rojava, Şîlan Kobanê e Xebat Dêrik. Em particular, saudamos todos aqueles que estão liderando a guerra de libertação contra a ocupação em Afrin, Girê Sipî e Serêkaniyê e lhes desejamos o maior dos êxitos.

“A revolução no norte e leste da Síria é uma revolução pela liberdade das mulheres”.

Estamos convencidos de que, embora esta revolução tenha ocorrido em uma pequena região, é uma parte inseparável da revolução democrática na Síria, no Curdistão e no Oriente Médio. Portanto, atraiu a atenção de todos os oprimidos, especialmente mulheres e jovens, e lançou as bases de um sistema democrático alternativo à modernidade capitalista. Especialmente através da luta contra o ISIS, a revolução demonstrou seu caráter internacionalista. Ações foram realizadas em todo o mundo e pessoas de muitos povos do mundo se organizaram em unidades para a guerra contra o ISIS.
Aqui também vemos e entendemos que a Revolução pela Liberdade de Rojava, embora contenha características nacionais e democráticas, é essencialmente uma revolução de libertação da mulher. Desde o início, foi realizado um modelo baseado na liderança das mulheres em todos os campos do trabalho e da luta revolucionária. Isto tem sido mais do que evidente nos últimos nove anos do processo revolucionário. Assim, ficou claramente demonstrado que se pode criar uma vida social baseada na liberdade das mulheres. Assim, ficou claro para todos que este será o caráter básico do novo século.

“Uma revolução da verdade”.

Mas a revolução da Rojava é também uma revolução da verdade. Ela se baseia na teoria da modernidade democrática de Líder Apo.
Sobre esta base, é evidente que se desenvolveu na forma de construção de uma nação democrática baseada em uma comuna livre, individual e democrática e em autonomia democrática de todas as diversidades. Sobre esta base, o modelo de autonomia democrática, baseado no indivíduo livre e na comunidade democrática e que inclui todas as diversidades, desenvolveu-se na forma de nação democrática. É uma revolução de mentalidade e do modo de vida. Se baseia na criação de um indivíduo livre e uma sociedade democrática. Tudo isso é realizado com educação e persuasão no nível da mobilização. Por este caráter, a revolução está aberta aos mais diversos tipos de relações e alianças. É uma experiência revolucionária que oferece lições muito ricas em todos os aspectos.

“Nove anos de persistência da revolução é uma conquista em si mesma”.

A Revolução pela Liberdade de Rojava, que cria tais valores e riquezas, está agora entrando em seu décimo ano. Em um contexto onde os sistemas estatais patriarcais e baseados em políticas de poder estenderam seu domínio baseado na opressão e na exploração em todo o mundo, o próprio fato de que a Revolução da Liberdade de Rojava exista e se desenvolva durante nove anos é uma grande conquista em si mesma. Além disso, tornou-se evidente que, apesar de suas deficiências e perdas, conseguiu avanços importantes nos últimos nove anos. Acreditamos que, no décimo ano, novas conquistas revolucionárias serão feitas superando ainda mais erros e deficiências.

“Continuará a construção social, econômica e cultural”.

Como é sabido, o décimo ano representa um importante ponto de inflexão na vida. Pois permite refletir de qualquer forma e fazer um balanço do que aconteceu e do que foi criado. Oferece a oportunidade de tirar lições profundas do passado, de se renovar e de planejar um futuro sólido. Acreditamos que no décimo ano, a revolução da liberdade será vista da mesma maneira, e se aprenderão valiosas lições dos últimos nove anos através de profundas críticas e autocríticas, de acordo com as linhas da modernidade democrática. Assim, o décimo ano da revolução se tornará um ano de ofensiva para o aprofundamento e a perpetuação da revolução. Não há momento de pausa nesta revolução da verdade, uma revolução da mentalidade e do modo de vida. É permanente. O decisivo é perseguir a vida livre no amor. Com o poder do pensamento e da prática, é preciso buscar constantemente a vida bondosa, verdadeira, bela e livre e, assim, lutar para alcançar a verdade de uma vida reta. Neste sentido, é certo que a revolução pela liberdade de Rojava, que é também uma revolução da verdade, se aprofundará e se desenvolverá ainda mais em seu décimo ano.
Ficou claro que, através de uma compreensão adequada da autodefesa e da prática correspondente, a defesa da sociedade será fortalecida. Com base na autodefesa, será promovido o desenvolvimento econômico, social, político e cultural da sociedade. A liderança da revolução por parte das mulheres e jovens será ainda mais fortalecida através da eliminação de falhas. Com a linha política correta e uma diplomacia eficaz, os perigos da revolução podem ser evitados. Acreditamos que isso é possível e que as forças da liberdade no norte e leste da Síria têm a consciência e a força para fazer tudo isso. Sobre esta base, saudamos mais uma vez o início do décimo ano da Revolução pela Liberdade de Rojava e desejamos ao povo do norte e leste da Síria muito sucesso no décimo ano da revolução”.

EZLN | VOLANTEM EST ALIO MODO GRADIENDI (o que esperamos?)

Qualquer dia, qualquer mês de qualquer ano.

Secas. Inundações. Terremotos. Erupções. Poluição. Pandemias atuais e futuras. Assassinatos de líderes de povos originários, de defensores dos direitos humanos, de guardiões da Terra. A violência de gênero que se eleva ao genocídio contra as mulheres – o suicídio imbecil da humanidade. Racismo não raro mal escondido atrás de esmolas. Criminalização e perseguição da diferença. A condenação irremediável do desaparecimento forçado. A repressão como resposta às exigências legítimas. Exploração dos mais pelos menos. Grandes projetos de destruição de territórios. Aldeias desoladas. Pessoas deslocadas aos milhões, escondidas sob a figura da “migração”. Espécies em perigo de extinção ou já apenas um nome na pasta de “animais pré-históricos”. Gigantescos lucros dos mais ricos do planeta. Extrema miséria dos mais pobres entre os mais necessitados do mundo. A tirania do dinheiro. A realidade virtual como um caminho falso para sair da realidade real. Estados-nações agonizantes. Cada indivíduo é um inimigo estranho. A mentira como um programa governamental. O frívolo e superficial como ideais a serem alcançadas. O cinismo como a nova religião. A morte como cotidianidade. Guerra. Sempre a guerra.

A tormenta varrendo tudo, sussurrando, aconselhando, gritando:

Renda-se!

Renda-se!

RENDA-SE!

E ainda assim…

Ali, perto e longe de nossos solos e céus, há alguém. Uma mulher, um homem, outra pessoa, um grupo, um coletivo, uma organização, um movimento, um povo originário, um bairro, uma rua, uma aldeia, uma casa, um quarto. No menor, mais esquecido, mais distante rincão, há alguém que diz “NÃO”. Que o diz em silêncio, que mal pode ser ouvido, que o grita, que vive e o que morre. E se rebela e resiste. Alguém. Temos que procurá-lo. Temos que encontrá-lo. Devemos ouvi-lo. Temos que aprender com ele.

Mesmo se tivermos que voar para abraçá-lo.

Porque, afinal de contas, voar é apenas mais uma forma de caminhar. E, bem, caminhar é nossa maneira de lutar, de viver.

Então, na Jornada pela Vida, o que esperamos? Esperamos olhar seu coração. Esperamos que não seja tarde demais. Esperamos… tudo.

Dou fé.
SupGaleano.
Planeta Terra… ou o que resta dele.

“On lâche rien” em francês, espanhol, catalão, basco e galego. Interpretada por: HK et les SALTIMBANKS com LA PULQUERIA, TXARANGO, LA TROBA KUNG-FÙ, FERMIN MUGURUZA e DAKIDARRIA.

EZLN | A TRAVESSIA PELA VIDA: PARA QUE VAMOS?


Junho de 2021.

Um esclarecimento: muitas vezes, quando usamos “os zapatistas” não estamos nos referindo aos homens, mas aos povos zapatistas. E quando usamos “as zapatistas”, não estamos descrevendo as mulheres, mas as comunidades zapatistas. Assim, encontrarão esse “salto” de gênero em nossa palavra. Quando nos referimos ao gênero, sempre acrescentamos “otroa” para apontar a existência e a luta de quem não é homem nem mulher (e que nossa ignorância sobre o assunto nos impede de detalhar – mas aprenderemos a nomear todas as diferenças).

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Agora, a primeira coisa que você precisa saber ou entender é que os zapatistas, quando vamos fazer algo, primeiro nos preparamos para o pior. Partimos de um fim fracassado e, no sentido inverso, nos preparamos para enfrentá-lo ou, no melhor dos casos, para evitá-lo.

Por exemplo, imaginamos que somos atacados, os massacres habituais, o genocídio disfarçado de civilização moderna, o extermínio total. E nós nos preparamos para essas possibilidades. Bem, em 1º de janeiro de 1994, não imaginávamos a derrota, nós a assumimos como uma certeza.

De qualquer forma, talvez isso ajude a entender por que inicialmente ficamos atordoados, hesitantes e desconcertados com a improvisação quando, depois de muito tempo, trabalhamos e nos preparamos para a ruína, descobrimos que… vivemos.

É a partir deste ceticismo que nossas iniciativas se desenvolvem. Algumas pequenas, outras maiores, todas delirantes, nossas convocatórias são sempre dirigidas ao “outro”, o que está além de nosso horizonte cotidiano, mas que reconhecemos como algo necessário na luta pela vida, ou seja, na luta pela humanidade.

Nesta iniciativa ou aposta ou delírio ou irracionalidade, por exemplo, em sua versão marítima nos preparamos para o Kraken, uma tempestade ou uma baleia branca perdida para afundar o barco, por isso fizemos canoas – e viajaram com o Esquadrão 421 em La Montaña até chegar a Vigo, Galiza, Espanha, Europa.

Também nos preparamos para não sermos bem-vindos, por isso procuramos de antemão o consenso para a invasão, quer dizer, a visita… Bem, isso de sermos “bem-vindos” não temos muita certeza. Para mais de um, uma, umoa, nossa presença é perturbadora, para dizer o mínimo, se não mesmo totalmente irruptiva. E entendemos que pode ser que alguém, após um ano ou mais de confinamento, possa achar pelo menos inoportuno que um grupo de indígenas de raízes maias, tão pouca coisa como produtores e consumidores de mercadorias (eleitorais e não eleitorais), pretenda falar pessoalmente. (lembra que isto fazia parte de sua cotidianidade?) E, além disso, que tenha como missão principal escutá-lo, enchê-lo de perguntas, compartilhar pesadelos e, é claro, sonhos.

Nos preparamos para que os maus governos, de ambos os lados, impeçam ou obstruam nossa partida e chegada, é por isso que @s zapatistas já estávamos na Europa… Ops, não devia escrever isso, apaguem. Sabemos que o governo mexicano não colocará obstáculos. Falta ver o que os outros governos europeus dizem e fazem – porque Portugal e Espanha não se opuseram.

Nos preparamos para que a missão fracasse, ou seja, se torne um evento midiático e, portanto, fugaz e intranscendente. É por isso que aceitamos principalmente os convites de que quer ouvir e falar, isto é, conversar. Porque nosso principal objetivo não são eventos massivos – embora não os excluamos -, mas a troca de histórias, conhecimentos, sentimentos, avaliações, desafios, fracassos e sucessos.

Nos prepararemos para o caso do avião falhar, por isso fabricamos paraquedas com bordados de muitas cores para que, ao invés de um “Dia D” na Normandia (oh, oh, isso significa que o desembarque aéreo seria na França?… hmm?.. em Paris?!), será um “Dia Z” para a Europa de abaixo, e parecerá então que do céu, choverão flores como se Ixchel, deusa mãe, deusa arco-íris, nos acompanhasse e, pela mão e com seu voo, abrisse uma segunda frente para a invasão. E mais segura porque agora, graças à Galiza de abaixo, o esquadrão 421 conseguiu assegurar uma ponta de praia nas terras de Breogán.

Em suma, sempre nos preparamos para fracassar… e para morrer. É por isso que a vida, para o zapatismo, é uma surpresa a ser celebrada todos os dias, a cada hora. E que melhor maneira de fazer isso do que com bailes, músicas e artes.

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Durante todos estes anos, aprendemos muitas coisas. Talvez o mais importante seja perceber o quão pequenos somos. E não estou me referindo à estatura e peso, mas ao tamanho de nosso compromisso. Nossos contatos com pessoas, grupos, coletivos, movimentos e organizações de diferentes partes do mundo nos mostraram um mundo diversificado, múltiplo e complexo. Isto reforçou nossa convicção de que qualquer proposta de hegemonia e homogeneidade não só é impossível, mas acima de tudo criminosa.

Porque as tentativas – não raro escondidas atrás de nacionalismos de papelão nas vitrines do mall da política eleitoral – de impor formas e pontos de vista são criminosas porque buscam o extermínio de diferenças de todo tipo.

O outro é o inimigo: a diferença de gênero, raça, identidade sexual ou assexual, língua, cor da pele, cultura, crença ou descrença, concepção do mundo, físico, estereótipo de beleza, história. Levando em conta todos os mundos que existem no mundo, há praticamente tantos inimigos, reais ou potenciais, quanto seres humanos.

E poderíamos dizer que quase qualquer afirmação de identidade é uma declaração de guerra contra o que é diferente. Eu disse “quase”, e a esse “quase” nos agarramos como os zapatistas que somos.

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Em nossos caminhos, em nossos calendários e em nossa geografia, chegamos à conclusão de que é sempre possível que o pesadelo piore. A pandemia do chamado “Coronavírus” não é o apocalipse. É apenas o seu prelúdio. Se a mídia e as redes sociais quisessem nos tranquilizar antes, “nos informando” sobre a extinção de uma geleira, um terremoto, um tsunami, uma guerra em uma parte distante do planeta, o assassinato de outro indígena pelos paramilitares, uma nova agressão contra a Palestina ou o povo mapuche, a brutalidade governamental na Colômbia e na Nicarágua, imagens de campos de migrantes que são de outro lugar, de outro continente, de outro mundo, e assim nos convencer de que isso “acontece em outro lugar”, em apenas algumas semanas, a pandemia demonstrou que o mundo pode ser apenas uma pequena paróquia egoísta, néscia e vulnerável. Os diferentes governos nacionais são as quadrilhas que fingem controlar, com violência “legal”, uma rua ou um bairro, mas o “capo” que controla tudo é o capital.

Por fim, coisas piores estão por vir. Mas você já sabia disso, não sabia? E se não, já é hora de saber. Porque, além de tentar convencê-lo de que as tristezas e desgraças sempre estarão distantes (até que deixem de ser e se sentem com você na mesa, perturbem seu sono e deixem você sem lágrimas), eles lhe dizem que a melhor maneira de enfrentar estas ameaças é individualmente.

Esse mal é evitado afastando-se dele, construindo seu próprio mundo impermeável e tornando-o cada vez mais estreito até que só haja espaço para o “eu, meu, mim, comigo”. E para isso, bem, eles lhe oferecem “inimigos” de certo modo, sempre com um flanco fraco e que é possível derrotar adquirindo, veja só você, este produto que, veja que coincidência, para esta ocasião única, temos em oferta e você pode adquiri-lo e recebê-lo na porta de seu bunker em questão de horas, dias… ou semanas, porque a máquina descobriu, oh surpresa, que o pagamento também depende da circulação da mercadoria, e que, se esse processo parar ou atrasar, a besta sofre… então sua distribuição e entrega também são negócios.

Mas, como zapatistas que somos, estudamos e analisamos. E queremos confrontar as conclusões a que chegamos com cientistas, artistas, filósofos e analistas críticos de todo o mundo.

Mas não apenas, também e especialmente com aqueles que, na vida cotidiana de suas lutas, sofreram e alertaram para as desgraças que estão por vir. Porque, no que diz respeito às questões sociais, temos em alta estima a análise e avaliação de quem arrisca sua pele na luta contra a máquina, e somos céticos em relação àqueles que, de um ponto de vista externo, opinam, avaliam, aconselham, julgam e condenam ou absolvem.

Mas, cuidado, consideramos que este olhar crítico “outsider” é necessário e vital, pois nos permite ver coisas que não são vistas no calor da luta e, atentamente, nos fornece conhecimento sobre a genealogia da besta, suas transformações e seu funcionamento.

Em suma, queremos conversar e, sobretudo, queremos ouvir quem está na luta. E não nos importa sua cor, tamanho, raça, sexo, religião, militância política ou trilha ideológica, se é que coincide no retrato falado da máquina assassina.

Porque se, quando falamos do criminoso, alguém o identifica com o destino fatídico, má sorte, “a ordem natural das coisas”, raiva divina, ociosidade ou descuido, então não temos interesse em ouvir nem em falar. Para descobrir estas explicações, tudo o que precisamos fazer é assistir às novelas e ir às redes sociais em busca de confirmação.

Ou seja, pensamos ter estabelecido quem é o criminoso, seu modus operandi e o crime em si. Estas 3 características são sintetizadas em um sistema, ou seja, em uma forma de se relacionar com a humanidade e a natureza: o capitalismo.

Sabemos é um crime em curso e que sua realização será desastrosa para o mundo inteiro. Mas esta não é a conclusão que estamos interessados em corroborar.

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Porque acontece que, também pelo estudo e análise, descobrimos algo que pode ou não ser importante. Depende.

Partindo do princípio de que este planeta será aniquilado, pelo menos como o percebemos até agora, temos investigado as opções possíveis.

Quer dizer, o navio afunda e lá em cima eles dizem que está tudo bem, que é passageiro. Sim, como quando o petroleiro Prestige afundou na costa da Europa (2002) – Galiza foi a primeira testemunha e vítima – e as autoridades empresariais e governamentais disseram que apenas alguns poucos esguichos de combustível haviam sido derramados. O desastre não foi pago pelo chefe, nem por seus supervisores e capatazes. Foi pago, e continua sendo pago, pelos povos que vivem da pesca ao longo dessas costas. Eles e seus descendentes.

E por “Barco” nos referimos ao planeta homogeneizado e hegemonizado por um sistema: o capitalismo. É claro, podem dizer que “esse não é o nosso barco”, mas o afundamento atual não é apenas de um sistema, mas do mundo inteiro, completo, total, até o canto mais remoto e isolado, e não apenas de seus centros de poder.

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Entendemos que alguém pense, e atue de acordo, que ainda é possível remendar, soldar, pintar um pouco aqui e ali, para reequipar o barco. Para mantê-lo flutuante não importa o que aconteça, mesmo vendendo a fantasia de que são possíveis megaprojetos que não só não aniquilam cidades inteiras, mas também não afetam a natureza.

Que existam pessoas que pensem que é suficiente ser muito determinado e se esforçar muito na maquiagem (pelo menos até que os processos eleitorais terminem). E que acreditam que a melhor resposta às exigências de “Nunca mais” – repetidas em todos os cantos do planeta – são promessas e dinheiro, programas políticos e dinheiro, boas intenções e dinheiro, bandeiras e dinheiro, fanatismos e dinheiro. Que sejam fiéis crentes de que os problemas do mundo se resumem a uma falta de dinheiro.

E o dinheiro precisa de estradas, grandes projetos civilizatórios, hotéis, shopping centers, fábricas, bancos, mão-de-obra, consumidores,… polícia e exércitos.

As chamadas “comunidades rurais” são classificadas como “carentes de desenvolvimento” ou “atrasadas” porque a circulação de dinheiro, ou seja, de mercadorias, é inexistente ou muito baixa. Não importa que, por exemplo, sua taxa de feminicídio e violência de gênero seja menor em comparação com a das áreas urbanas. As conquistas do governo são medidas pelo número de áreas destruídas e repovoadas por produtores e consumidores de bens, graças à reconstrução daquele território. Onde antes havia um campo de milho, uma fonte, uma floresta, agora há hotéis, shopping centers, fábricas, usinas termoelétricas, … violência de gênero, perseguição ao diferente, tráfico de drogas, infanticídio, tráfico humano, exploração, racismo, discriminação. Em resumo: c-i-v-i-l-i-l-i-z-a-ç-ã-o.

A ideia deles é que a população camponesa se tornará empregada desta “urbanização”. Continuarão vivendo, trabalhando e consumindo em sua localidade, mas o proprietário de todo seu entorno é um conglomerado industrial-comercial-financeiro-militar cuja sede está no ciberespaço e para quem esse território conquistado é apenas um ponto no mapa, uma porcentagem dos lucros, uma mercadoria. E o verdadeiro resultado será que a população nativa terá que migrar, porque o capital chegará com seus próprios funcionários “qualificados”. A população nativa terá que regar jardins e limpar estacionamentos, lojas e piscinas onde antes havia campos, florestas, litorais, lagoas, rios e nascentes.

O que se esconde é que, por trás das expansões (“guerras de conquista”) dos Estados – seja interna (“incorporação de mais população à modernidade”), ou externa com diferentes álibis (como a do governo israelense em sua guerra contra a Palestina) -, existe uma lógica comum: a conquista de um território pela mercadoria, ou seja, por dinheiro, ou seja, por capital.

Mas entendemos que essas pessoas, para se tornarem o caixa que administra os pagamentos e cobranças que dão vida à máquina, formam partidos políticos eleitorais, frentes – amplas ou estreitas – para disputar o acesso ao governo, alianças “estratégicas” e rupturas, e todas as nuances em que os esforços e vidas são comprometidos que, por trás de pequenos sucessos, escondem grandes fracassos. Uma pequena lei aqui, um diálogo oficial aqui, uma nota jornalística ali, um tuíte aqui, um tuíte ali, um like acolá, e ainda, para dar um exemplo de um crime global em andamento, os femicídios estão em ascensão. Enquanto isso, a esquerda sobe e desce, a direita sobe e desce, o centro sobe e desce. Como cantava a inesquecível Marisol de Málaga, “a vida é uma tômbola”: todos (acima) ganham, todas (abaixo) perdem.

Mas a “civilização” é apenas um álibi frágil para uma destruição brutal. O veneno continua jorrando (não mais do Prestige – ou não apenas deste navio), e o sistema inteiro parece estar disposto a intoxicar cada último canto do planeta, pois a destruição e a morte são mais rentáveis do que deter a máquina.

Estamos certos de que você será capaz de acrescentar cada vez mais exemplos. Amostras de um pesadelo irracional e ao mesmo tempo atuante.

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Assim, há várias décadas nos concentramos na busca de alternativas. A construção de jangadas, cayucos, lanchas e até mesmo embarcações maiores (a 6ª como uma arca improvável), têm um horizonte bem definido. Em algum lugar será necessário desembarcar.

Limos e lemos. Estudamos e continuamos a fazer isso. Analisamos antes e agora. Abrimos nosso coração e nosso olhar, não para as ideologias atuais ou antiquadas, mas para as ciências, para as artes, e para nossas histórias como povos originários. E com estes conhecimentos e ferramentas, descobrimos que existe, neste sistema solar, um planeta que poderia ser habitável: o terceiro planeta do sistema solar e que, até agora, aparece em livros escolares e científicos com o nome de “Terra”. Para maiores referências, é entre Vênus e Marte. Ou seja, de acordo com certas culturas, é entre o amor e a guerra.

O problema é que este planeta já é uma pilha de escombros, verdadeiros pesadelos reais e horrores tangíveis. É pouco o que está de pé. Até a mortalha que esconde a catástrofe está rasgando. Portanto, como direi? A questão não é conquistar esse mundo e desfrutar dos prazeres de quem vence. É mais complicado e requer, sim, um esforço mundial: ele deve ser feito de novo.

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Agora, de acordo com as grandes produções cinematográficas de Hollywood, a saída para a catástrofe mundial (sempre algo externo – alienígenas, meteoros, pandemias inexplicáveis, zumbis parecidos com candidatos a algum cargo público -), é o produto de uma união de todos os governos do mundo (encabeçada pelos gringos)… ou, pior, do governo estadunidense sintetizado em um indivíduo, ou indivídua (porque a máquina já aprendeu que a farsa deve ser inclusiva), que pode ter as características raciais e de gênero politicamente corretas, mas carrega em seu peito a marca da Hidra.

Mas, longe dessas ficções, a realidade nos mostra que tudo é negócio: o sistema produz destruição e vende ingressos para fugir dele… para o espaço. E com certeza, nos escritórios das grandes corporações, existem brilhantes projetos de colonização interestelar… com a propriedade privada dos meios de produção incluída. Em outras palavras, o sistema é movido, em sua totalidade, para outro planeta. O “all included” refere-se àqueles que trabalham, aqueles que vivem dos que trabalham e sua relação de exploração.

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Mas às vezes eles não olham apenas para o espaço. O capitalismo “verde” se esforça por zonas “protegidas” no planeta. Bolhas ecológicas onde a besta pode se abrigar enquanto o planeta se cura das picadas (o que levaria apenas alguns milhões de anos).

Quando a máquina fala de “um novo mundo” ou “humanizar o planeta”, está pensando em territórios para conquistar, despovoar e destruir, e depois repovoar e reconstruir com a mesma lógica que agora tem o mundo inteiro frente ao abismo, sempre disposto a dar o passo em frente que o progresso exige.

Você pode pensar que não é possível que alguém seja tão imbecil a ponto de destruir a casa onde mora. “A rã não bebe toda a água da poça que habita“, diz um provérbio do povo originário Sioux. Mas se você tentar aplicar a lógica racional ao funcionamento da máquina, não vai entender (bem, nem a máquina). As avaliações morais e éticas não têm nenhuma utilidade. A lógica da besta é o lucro. É claro, agora você pode se perguntar como é possível que uma máquina irracional, imoral e estúpida governe os destinos de todo um planeta. Ah, (suspiro), isso está em sua genealogia, em sua própria essência.

Mas, deixando de lado o exercício impossível de dotar o irracional de racionalidade, você chegará à conclusão de que é necessário destruir esta monstruosidade, que, não, não é diabólica. Infelizmente, é humano.

E, é claro, você estuda, lê, confronta, analisa e descobre que existem grandes propostas para avançar. Desde aqueles que propõem raspagens e maquiagens, até aqueles que recomendam aulas de moral e lógica para a besta, passando por sistemas novos ou antigos.

Sim, os entendemos, a vida é uma merda e é sempre possível refugiar-se nesse cinismo tão superestimado nas redes sociais. O finado SupMarcos costumava dizer: “o ruim não é que a vida seja uma merda, mas que te forçam a comê-la e ainda esperam que você seja grato por isso“.

Mas suponha que não, que você saiba que a vida realmente é uma droga, mas sua reação não é recuar para dentro de si mesmo (ou de seu “mundo”, que depende do número de seus “seguidores” nas mídias sociais lá fora). E então você decide abraçar, com fé, esperança e caridade, uma das opções apresentadas a você. E você escolhe o melhor, o maior, o mais bem-sucedido, o mais famoso, aquele que está ganhando… ou aquele que está perto de você.

Grandes projetos de sistemas políticos novos e velhos. Atrasos impossíveis do relógio da história. Nacionalismos patrióticos. Futuros compartilhados a força de que tal opção tomando o poder e permanecendo nele até que tudo seja resolvido. Sua torneira está vazando? vote por tal. Muito barulho na vizinhança? vote nessa. Subiu o custo do transporte, alimentação, medicinas, energia, escolas, roupas, entretenimento, cultura? Teme a migração? Lhe incomodam pessoas de pele escura, de crenças diferentes, línguas incompreensíveis, de diferentes estaturas e complexidades? Vote em…

Há até mesmo aqueles que não diferem do objetivo, mas do método. E logo repetem acima do que criticaram abaixo. Com malabarismos asquerosos e argumentando estratégias geopolíticas, é dado apoio àqueles que se repetem no crime e na estupidez. Exige-se que os povos resistam às opressões em benefício da “correlação de forças internacionais e da ascensão da esquerda na região”. Mas a Nicarágua não é Ortega-Murillo e não vai demorar muito para que a besta entenda isso.

Em todas essas grandes ofertas de soluções no supermercado mortal do sistema, muitas vezes não se diz que elas são a imposição brutal de uma hegemonia e um decreto de perseguição e morte ao que não é homogêneo para o vencedor.

Os governos governam para seus seguidores, nunca por aqueles que não o são. As estrelas da mídia social alimentam suas hostes, mesmo à custa do sacrifício da inteligência e da vergonha. E o “politicamente correto” engole sapos, que mais tarde devorarão aqueles que aconselham resignação “para não beneficiar o inimigo principal”.

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É o zapatismo uma grande resposta, uma mais, aos problemas do mundo?

Não. O zapatismo é um monte de perguntas. E a menor pode ser a mais perturbadora: E você?

Diante da catástrofe capitalista, o zapatismo propõe um velho-novo sistema social idílico, e com ele uma repetição das imposições de hegemonias e homogeneidades que agora são “boas”?

Não. Nosso pensamento é tão pequeno quanto nós: são os esforços de cada pessoa, em sua geografia, de acordo com seu calendário e forma, que permitirão, talvez, liquidar o criminoso, e, simultaneamente, refazer tudo. E tudo é tudo.

Cada um, de acordo com seu calendário, sua geografia, seu caminho, terá que construir seu caminho. E, assim como nós, os povos zapatistas, irá tropeçando e se levantando, e o que construir terá o nome que quiser ter. E só será diferente e melhor do que já sofremos antes, e do que sofremos hoje, se reconhecer o outro e o respeitar, se renunciar a impor seu pensamento ao que é diferente, e se finalmente perceber que existem muitos mundos e que sua riqueza nasce e brilha em sua diferença.

Isso é possível? Nós não sabemos. Mas sabemos que, para descobrir, devemos lutar pela Vida.

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Então, o que estamos fazendo nesta Travessia pela Vida se não aspiramos a ditar caminhos, rotas, destinos? O que, se não buscamos adeptos, votos, likes? O que, se não vamos julgar e condenar ou absolver? O que, se não pedimos fanatismo para um novo credo antigo? O que, não buscamos passar para a História e ocupar um nicho no panteão mofado do espectro político?

Bem, para ser honesto com vocês como zapatistas que somos: não só vamos apenas confrontar nossas análises e conclusões com o outro que luta e pensa criticamente.

Vamos agradecer ao outro por sua existência. Agradecer-lhes os ensinamentos que sua rebeldia e sua resistência nos deram. Para entregar a flor prometida. Abraçar o outro e dizer-lhe ao ouvido que não está sozinho, sozinhoa, sozinha. Para lhe sussurrar que vale a pena a resistência, a luta, a dor por aqueles que já não estão mais aqui, a raiva de que o criminoso está impune, o sonho de um mundo que não é perfeito, mas melhor: um mundo sem medo.

E também, e acima de tudo, vamos procurar cumplicidade… pela a vida.


SupGaleano.

Junho de 2021, Planeta Terra.

CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO: REVISTA TSA N. 04

É com prazer que convidamos a todas e todos para colaboração na quarta edição da Revista Terra sem Amos (ISSN: 2675-3650 online | 2675-3642 impressa), com o tema “Movimento estudantil, autonomia e ação direta“. Nossa intenção com esta nova edição é criar uma rede de debates sobre a luta autônoma do movimento estudantil brasileiro em diferentes geografias e calendários, traçando histórias de luta, estratégias de combate e possibilidades de transformação que escapam dos muros escolares e universitários. As normas podem ser consultadas neste link.

Limite para envio de trabalhos: 15 de setembro de 2021.
Data de lançamento: 20 de setembro de 2021.

KURDISTAN AMÉRICA LATINA | 3 DE JULHO: CONVOCAÇÃO PARA O DIA INTERNACIONAL DE AÇÃO “DEFENDER O CURDISTÃO”.

A Iniciativa Internacional “Defender o Curdistão” convocou um dia de ação global como parte de sua campanha “Defender o Curdistão contra a Ocupação Turca!” a fim de mobilizar contra as políticas neo-otomanas expansionistas da Turquia.
As reivindicações aos antigos territórios do Império Otomano e as visões de grande poder de Ancara são atualmente particularmente evidentes na parte sul do Curdistão (Bashur, norte do Iraque).

Durante dois meses, a região foi atacada em violação ao direito internacional, sem que a comunidade internacional dissesse nada a respeito. As reações habituais da União Europeia (UE) e da OTAN às agressões militares da Turquia em seus países vizinhos, tais como “condenamos estas medidas” ou “estamos preocupados”, estão ausentes desta vez.

Abaixo publicamos a declaração completa sobre a convocatória:


Em 23 de abril, o Estado turco lançou uma campanha militar em larga escala visando o sul do Curdistão (norte do Iraque), atacando as regiões de Zap, Avashin e Metina. Desde então, esta invasão não provocada tem crescido em intensidade e alcance. Durante anos, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan tem procurado assegurar a posição da Turquia como um agente de poder regional no Oriente Médio às custas dos povos da região, proclamando repetidamente seu desejo de conquistar um território que alguma vez esteve sob o controle do Império Otomano. Seu primeiro objetivo é capturar as duas partes do Curdistão adjacentes à Turquia, Rojava (norte da Síria) e Curdistão do Sul (norte do Iraque). Em 2018, o exército turco e suas forças jihadistas invadiram e ocuparam a outrora pacífica região de maioria curda de Afrin, na Síria, e em 2019 esta ocupação se estendeu a outras áreas do norte da Síria, causando centenas de vítimas civis e migrações em massa.

Os guerrilheiros curdos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) estão resistindo às campanhas militares de agressão e ocupação de Erdogan. Esta resistência curda organizada é a única força que impede a expansão do Erdogan no Curdistão e no Oriente Médio. Em 2014, quando o grupo terrorista genocida Estado Islâmico (ISIS) ocupou áreas na Síria e no Iraque e surgiu como uma grande ameaça à segurança global, o PKK impediu o ISIS de eliminar a minoria religiosa Yezidi na região do Sinjar (Shengal) no Iraque.

A OTAN acredita que precisa manter relações com o estado membro turco, por razões geopolíticas e geoestratégicas, e não desafia a política expansionista do regime. Permanecendo em silêncio para apaziguar Erdogan, eles se tornam cúmplices de sua agressão. Erdogan, sabendo que não enfrentará consequências nem mesmo para os piores crimes, está violando abertamente o direito internacional. Seu regime tem usado armas químicas e combatentes jihadistas aliados nesta guerra atual em Zap, Avashin e Metina, enquanto seus drones armados assassinam e aterrorizam a população civil. No entanto, as Nações Unidas, a União Europeia, os Estados Unidos e o Conselho da Europa se juntam à OTAN para permanecer em silêncio.

No início de junho, uma delegação internacional de paz viajou ao sul do Curdistão, juntando-se a várias organizações de todo o mundo para lançar a iniciativa internacional “Defender o Curdistão contra a ocupação turca”. Ao chamar a atenção para a agressão militar turca, eles corajosamente quebraram o silêncio internacional em torno desta guerra. Infelizmente, o Partido Democrático do Curdistão (KDP), o partido no poder no sul do Curdistão, tomou medidas para criminalizar os esforços de oposição à guerra em curso, obstruindo o trabalho da delegação de paz. Além disso, de acordo com a atual política de apaziguamento dos Estados europeus em relação ao regime Erdogan, a delegação também foi criminalizada na Alemanha, e vários membros do grupo, incluindo aqueles com imunidade parlamentar, foram impedidos de sair de Düsseldorf em 12 de junho. Entretanto, apesar desses obstáculos, a delegação de paz conseguiu sensibilizar a população para a crise atual e gerar uma onda de solidariedade internacional.

Agora apelamos às pessoas em todas as cidades europeias para saírem às ruas em 3 de julho em apoio à iniciativa internacional para DEFENDER o Curdistão contra a ocupação turca, e para exigir o fim imediato da agressão militar turca contra o Curdistão do Sul e a retirada de todas as forças turcas e combatentes jihadistas apoiados pela Turquia.


Fonte: Kurdistán América Latina

EZLN | CHEGAMOS.

20 de junho de 2021.

Seriam às 06:59 – Hora do México – do da 20 de junho de 2021, quando, de La Montaña e através de um horizonte nublado, se avistou a terra da Península Ibérica. Seriam 09:14:45 quando o navio ancorou na Baía de Baiona ou Bayona, Galícia, Estado Espanhol, Europa. De lá é próximo, “a um passo”, a geografia chamada Portugal, e um pouco ao Nordeste se avista Vigo. Tod@s bem de saúde. Por questões de papelada e etcétera, La Montaña e o Esquadrão 421 permanecerão aqui até terça-feira 22 às 1700 – data e horário em Vigo-, quando ocorrerá o desembarque. A Guarda Civil do Estado Espanhol abordou no navio, tomou os dados da tripulação e dos passageiros, verificou os passaportes e realizou a verificação de rotina. Sem novidades. Condições climáticas: nublado, leve, mas chuvas frequentes, 15 graus centígrados.

Pouco tempo depois, vários veleiros se aproximaram com compas da Europa insubmissa, para dar boas-vindas… ou para comprovar se os rumores que correm pelos bairros, campos e montanhas do mundo eram verdadeiros: “os Zapatistas invadiram a Europa”.

Em terra, ao pé do que parece ser um farol, outro grupo gritava algo como “Nos rendemos!”… Nah, é brincadeira. Gritam que Zapata Vive, que bem-vind@s, que… não se entende bem. Carregam cartazes e desenhos. Até onde pudemos ver, não há sinais obscenos – o que pode indicar que eles ainda não nos repudiaram… Alguma pessoa mal orientada carrega uma placa que diz: “Comedor La Palomita Insurrecta. Caldo Gallego, Empanadas Ídem e Xoubas. Descontos especiais para invasor@s, besouros e gato-cachorro“. Outro cartaz diz: “Tirem-me daqui!“. As pessoas mais cautelosas usam os cartazes como guarda-chuvas.

O céu europeu chora comovido. Suas lágrimas se misturam com aquelas que umedecem as bochechas – bronzeadas pelo sol, mar, angústias e adrenalina-, do intrépido Esquadrão 421. Em seus passos, em seus olhares, em seus batimentos cardíacos, os povos maias – assim dirá a lenda-, atravessaram o Atlântico em 50 dias e noites, em sua longa e movimentada travessia pela vida.

Fora está frio, mas dentro, na geografia do coração, algo como um sentimento aquece a alma. Nas montanhas do sudeste mexicano, o sol sorri e, da equipe de som, as primeiras notas de uma cumbia saem alegremente.

Claro, falta o desembarque, o translado da delegação aérea, a organização da agenda, os encontros,… e a festa da palavra.

Ou seja, falta tudo.

SupGaleano.
Junho de 2021.


Música: La Cumbia del Sapito – Alfredo y sus Teclados

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LANÇAMENTO: REVISTA TSA3 – NOVOS JUNHOS VIRÃO

É com muito prazer que hoje lançamos a terceira edição da Revista Terra sem Amos, com o tema “Novos Junhos Virão: reflexões sobre o levante dos marginalizados de junho de 2013“. A edição conta com sete potentes estudos sobre a maior e mais potente manifestação de massas no Brasil do século XXI, que 8 anos atrás abalou a estrutura do poder no país e questionava as bases da exploração e opressão do povo. Este fenômeno, caracterizado por vezes como levante ou insurreição popular, de caráter multitudinário, inspirou e ainda inspira uma série de ações em diversos movimentos sociais e organizações políticas, em especial toda a sorte de coletivos e individualidades que reivindicam a autonomia, a independência, a horizontalidade e a ação direta como princípios estruturais.

Esta edição também é nossa manifestação pública de reivindicação de J2013 como um marco da luta popular no Brasil, do qual nós, enquanto editora radical que defende pelos livros o estabelecimento de uma nova, melhor e mais justa ordem societária, também fazemos parte.

A revista pode ser adquirida em nossa loja, através deste link, por R$15,00 ou acessada gratuitamente aqui

Colaboraram com esta edição as seguintes autoras e autores, com seus respectivos trabalhos:

2013: introdução à recusa
Guilherme Moraes de Oliveira

Capitalismo brasileiro: classes médias e classes populares nas mobilizações de 2013
Glauber Franco de Oliveira

Pensar 2013 como quem enfrenta as nuvens de gás: rotas de fuga, abrigos e possibilidades de reencontro
Leila Saraiva

A identificação e a contraidentificação nos discursos das mídias jornalísiticas nas manifestações de junho de 2013
Ciro Antonio das Mercês Carvalho

Um espectro ronda a esquerda: Junho de 2013
Patricia Kawaguchi

Megaeventos esportivos e a ascensão neofascista no Brasil pós 2013
Igor D’Icarahy

Revolução e crise pandêmica: Por que sair às ruas em meio a pandemia da covid-19?
Lucas Oliveira Alvares e Daniele Lopes Ferreira

KURDISTÁN AMÉRICA LATINA | O FANTASMA DA ABSTENÇÃO MASSIVA RONDA AS ELEIÇÕES IRANIANAS

“Desta vez, não vão nos enganar”, explica Neda(1); uma professora iraniana de francês em Teerã. “Nem eu nem nenhum outro membro de minha família iremos votar este ano”, confirma também Reyhaneh, de 35 anos. As eleições presidenciais iranianas, marcadas para 18 de junho, estão se aproximando, mas a população parece desinteressada por elas e alguns até apelam para as redes sociais para boicotá-las com a hashtag #nãovaitervoto.

Na verdade, os iranianos não confiam mais nas promessas de reforma. O Presidente Hasan Rohani está chegando ao final de seu mandato de oito anos – o período máximo permitido pela Constituição – sem ter conseguido melhorar a situação econômica. Além da má administração econômica, a população também sofre com a retomada das sanções internacionais contra a República Islâmica do Irã após a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear de maio de 2018, assinado inicialmente em julho de 2015 em Viena. “Talvez eu vá votar se conseguirmos salvar o acordo nuclear”, diz Ahmad, de Teerã. “Porque com essas sanções, nenhum presidente poderá fazer nada para o país e pelo o povo”, acrescenta.

A sorte está lançada

Além dos problemas econômicos que enfrentam diariamente – a inflação de 40%, a queda no valor da moeda nacional (o rial), o aumento da taxa de desemprego – os iranianos não esqueceram nem a repressão violenta das manifestações de novembro de 2019, que causaram mais de 400 mortes segundo os especialistas da ONU, nem a queda, meses depois, do avião ucraniano derrubado por engano pela defesa antiaérea iraniana, no qual seus 176 ocupantes foram mortos.

A esta desilusão soma-se a decisão, no final de maio, do Conselho de Guardiães – um órgão composto por seis religiosos nomeados pelo líder supremo e outros seis juristas eleitos pela Assembleia Iraniana, com poderes para vetar os candidatos às eleições – de descartar as candidaturas dos reformistas próximos ao presidente de saída, bem como qualquer rival sério do candidato ultra-conservador Ibrahim Raisi, que perdeu há quatro anos para o próprio Hasan Rohani.

Para muitos iranianos, a sorte está lançada: Ibrahim Raisi tem um caminho claro para a vitória. “Em certo momento, o regime precisou de alguém como Mohammad Khatami – presidente reformista de 1997 a 2005 – e assim eles fizeram de tudo para que ele vencesse. Em outro momento, precisavam de alguém como Mahmoud Ahmadinejad – presidente conservador de 2005 a 2013 – e também providenciaram para que ele fosse eleito. Como não pensar que desta vez não será diferente?”, pergunta Vali, um iraniano que costumava estar envolvido na política de seu país.

A guerra de sucessão para o posto de líder

Conhecido por ser o chefe do judiciário e chefe da poderosa fundação religiosa Astan-e Qods-e Razavi, Ibrahim Raisi também é apoiado pelo líder supremo de 82 anos Ali Khamenei e parece bem posicionado para substituí-lo. Para Clément Therme, doutor história internacional e especialista no Irã, o verdadeiro desafio destas eleições é a sucessão do líder supremo. “O desafio não é quem vai ganhar estas eleições, mas sim a guerra de sucessão para o posto de líder”, explica o especialista. “Todos os candidatos estão se posicionando antecipadamente para ter influência na sucessão”, acrescenta ele.

Mas Ibrahim Raisi também é acusado de crimes contra a humanidade por ter condenado milhares de prisioneiros à morte em 1988. Sua chegada ao poder, como presidente, poderia então complicar as relações entre o Irã e o Ocidente, e isso no contexto da negociação para salvar o acordo nuclear. “Estamos presumivelmente caminhando para um próximo governo fundamentalista ou conservador iraniano. Eles se opuseram ao JCPOA – acordo nuclear – desde o início, portanto não há garantia de que a nova administração iraniana, se de fato for conservadora ou fundamentalista, manterá o acordo”, explica Roozbeh Mirebrahimi, um jornalista e pesquisador iraniano independente estabelecido em Nova York.

“Se não votar, pessoas incompetentes chegarão ao poder”.

De acordo com as pesquisas, a abstenção será a verdadeira vencedora destas eleições. Um duro golpe para o regime que geralmente usa a alta taxa de participação para se legitimar. De fato, já em fevereiro de 2020, durante as eleições legislativas, a abstenção atingiu cerca de 57%, algo que nunca havia acontecido desde a Revolução de 1979.

Entretanto, para Mariam, 30, não votar pode ser perigoso. “Também fiquei surpresa com a decisão do Conselho de Guardiães e no início eu também não queria votar (…), mas depois disse a mim mesmo que se eu não votar, pessoas incompetentes chegarão ao poder. Como foi o caso durante o primeiro mandato de (Mahmoud) Ahmadinejad ou, mais recentemente, nas eleições legislativas de fevereiro de 2020, que resultaram na chegada de Mohammad Qalibaf (conservador) como presidente da Assembleia (Majles)”, lamenta a jovem mulher.

Por isso, para evitar que os conservadores cheguem ao poder, Mariam votará no reformista Abdolnaser Hemmati, ex-governador do Banco Central Iraniano. Entretanto, para Vali, votar no candidato menos mau também não é uma solução. “Eles sempre nos atraem às urnas, assustando-nos com a chegada deste ou daquele candidato”. Mas eu tenho votado nos reformistas desde 1997, e o que mudou? Nada, na verdade. Eles são todos iguais, os reformistas piores que os conservadores e os conservadores piores que os reformistas!”, conclui, resignado.


Notas:
(1) Os nomes próprios daqueles que deram seus testemunhos foram mudados por motivos de segurança.

FONTE: Sara Saidi / El Salto Diario/ Kurdistán América Latina