COLETIVO VEREDAS | QUE CRISE É ESTA?

Newsletter do Coletivo Veredas para o mês de setembro

No ano de 2019, os grandes “players” do capital mundial se preparavam para um 2020 de crise. As previsões iam desde algo bem pior do que 2008 até uma crise mais prolongada, porém não tão aguda. Mas ninguém previa um ano tranquilo na economia.

O “resto” do mundo parecia normal. Tirando a crise econômica e para a qual os Bancos Centrais, o FMI, o Banco Mundial e os capitalistas se preparavam, nada havia de ameaçador no horizonte.

Chegamos em setembro e um 2020 inteiramente diferente nos contempla.
Veio a pandemia da Covid-19. Ela explodiu neste ano de 2020. Mas é parte de um processo mais longo. Em busca do lucro, o capital vai tornando o planeta cada vez mais geneticamente homogêneo. Destruímos as florestas e as substituímos por plantações de árvores, cereais ou campos para gado; gigantescas fábricas de carne (suínos, galináceos, gado) capazes de processar milhões de toneladas de carne requerem a criação de bilhões de frangos, milhões de porcos, outros milhões de bois e vacas. Para ser de fato lucrativo, os animais a serem processados nestas fábricas devem ser os mais semelhantes possíveis: a homogeneidade genética é imperativa para o lucro, tal como a homogeneidade das toras de eucaliptos aumenta a lucratividade das fábricas de papel e a homogeneidade do Pinus potencializa a lucratividade na produção de móveis ou de materiais para a construção. (Sobre isso, ver a Newsletter do Veredas de 07 de julho).

Para a maior lucratividade do capital, também, homogeneizamos a humanidade. A força de trabalho e o consumo (não as pessoas que trabalham e que consomem, pois as pessoas não contam) precisam ser concentrados em enormes centros urbanos, com o menor custo possível. As cidades cresceram assustadoramente (não é mero acaso que não tenham crescido tanto na Europa desenvolvida!), bilhões de seres humanos vivem em favelas ou assemelhados, com atividades econômicas e uma rotina também muito parecida. O impressionante Planeta Favela, de Mike Davis, não nos deixa mentir. A concentração de renda, já brutal, com a Covid-19, se acelera e promete uma humanidade ainda mais desigual.

Isto é tudo o que é preciso para vivenciarmos epidemias sobre epidemias, como argumentamos na Newsletter 07, acima mencionada. A natureza, pelos próprios processos biológicos, produz incessantemente novos vírus, fungos, bactérias etc. Com um ambiente genético homogêneo e concentrado, basta um micróbio com capacidade para se generalizar entre os humanos para que tenhamos epidemias. Que outras virão, não é uma questão de “se”, mas de “quando”, dizem os cientistas. Lembremos uma vez mais o livro de Laurie Garret, The comming plague, de 1995, que já mostrava a inevitabilidade de epidemias.

Nossa produção de micróbios

Não satisfeitos, ainda damos uma mãozinha. Criamos centros em praticamente cada cidade no planeta, que colocam humanos doentes em contato com micróbios cada vez mais mortais e resistentes aos remédios – que os próprios centros produzem.

Como sabemos há décadas, nenhum remédio mata todos os micróbios. O que o remédio faz, na verdade, é tornar o micróbio tão fraco que o corpo humano é, na maior parte das vezes, capaz de eliminá-lo. Contudo, por vezes, alguns sobrevivem porque são resistentes ao antibiótico ou ao remédio. Este exemplar resistente se prolifera e o remédio começa a perder eficácia. Logo, uma nova geração do micróbio resistente torna o remédio inútil e é preciso desenvolver outro mais forte que, por sua vez, vai alimentar o ciclo: nós mesmos produzimos micróbios (vírus, bactérias, fungos) crescentemente mortais.

Esses centros são os nossos hospitais, fábricas não de saúde, mas de lucros. Fazem parte do complexo médico-hospitalar, o segundo setor do grande capital que mais tem lucrado com a pandemia. O quanto isto ameaça a humanidade é difícil exagerar. Não percam um livro de Michel Odent, com edição pequena, mas com informações interessantíssimas: Poderá a humanidade sobrevier à medicina? O resultado, estamos colhendo de forma dramática nestes dias em que escrevo este texto. No Arquipélago de Fiji, no Pacífico, a perda de eficácia dos antibióticos está se tornando uma ameaça à estrutura de saúde do país. Quando estes micróbios resistentes se esparramarem pelo planeta, “voltaremos à idade das trevas na medicina”, alerta Dr. Paul de Barro, no The Guardian de 10 de setembro último. O que ocorre em FIji é apenas o prolongamento do que já fazemos com a tuberculose, com a malária e com cerca de três dezenas de bacilos e uma infinidade de outros microrganismos. A diferença é que, agora, a escala está se tornando dramática.

Atingimos o ponto de não retorno?
Neste ano o degelo e o aquecimento na Groenlândia chegaram a um ponto irreversível. Independentemente do que façamos, as geleiras da Groenlândia irão desaparecer e logo, no verão, não haverá mais gelo no Polo Norte. Ainda não chegamos a este ponto na Antártida, mas os estudos mais recentes indicam que o degelo lá também se acelera além das previsões mais pessimistas. O gelo reflete o calor mais do que água. Com menos gelo, mais aquecimento e o ciclo se alimenta.

O aquecimento do planeta está provocando incêndios inimagináveis há alguns poucos anos. Hoje, 12 de setembro de 2020, os jornais noticiam que perto de 10% da população do Estado de Oregon, nos EUA, estão deixando suas casas às chamas! A Califórnia também arde. A Austrália que se incendiou o ano passado, se prepara para novos incêndios com a previsão de uma estação de seca prolongada. O mesmo com Portugal. A Amazônia, o Pantanal… Mas vocês já imaginaram incêndios gigantescos ao norte do círculo polar? Isso mesmo, próximo ao Polo Norte? Essa região do planeta ficou por milhões de anos sem incêndios e também por isso acumulou uma enorme quantidade de matéria inflamável em seu solo e subsolo. Essa matéria inflamável contém uma gigantesca reserva aprisionada de gás carbônico, o principal vilão (depois do capital) do aquecimento do planeta.
Pois bem, a Sibéria arde!! No ano passado liberou uma quantidade gigantesca, recorde, de gás carbônico e, neste ano, já liberou até agora 35% mais do que o ano passado! Mais gás carbônico, mais efeito estufa, mais aquecimento… mais incêndios. Onde isso irá parar?

As avaliações mais gerais são também reveladoras. Por exemplo: 68% da população natural no planeta foi eliminada desde 1970 (quando se iniciou a crise estrutural do capital). Esta devastação não apenas não está diminuindo, como ainda está aumentando seu ritmo. Os corais, os manguezais, os pântanos, as últimas florestas não plantadas pelos humanos, tudo está destruído ou será destruído nos próximos poucos anos. Na Europa e nos EUA, as abelhas estão morrendo como nunca, ameaçando a agricultura sem seu trabalho de polinização. Agricultores já pagam a criadores de abelhas em jamantas para levarem para suas fazendas os insetos. Na China, em algumas regiões a polinização está sendo feita… pelos humanos!!! Na Alemanha, o emprego de inseticidas provocou a matança de raposas e deu origem a uma praga de marmotas que está inviabilizando a agricultura em várias regiões. Pássaros morrem como nunca antes na Europa e na América como um todo.

A acidificação dos oceanos, a alteração das correntes marítimas, as mudanças nas massas atmosféricas, a presença praticamente universal de micropartículas de plásticos (que estão impossibilitando a reprodução de um sem número de organismo no solo), não apenas na natureza mas no interior das células humanas; as doenças que se multiplicam junto com as novas condições de vida (câncer, Alzheimer, Parkinson, diabetes), a atual geração de humanos com um terço já contaminado por chumbo na infância, etc.

É possível se continuar por muito mais, contudo, talvez já seja suficiente para que a questão não pareça nem exageradamente dramática nem exageradamente alarmista: chegamos a um ponto de não retorno e vamos fazer do planeta um ambiente inóspito aos humanos? Vamos sobreviver neste planeta? Estaria certo Elon Musk ao projetar foguetes para levar humanos a Marte, porque na Terra a nossa sobrevivência teria data para findar?

As leis gerais
As leis gerais, são gerais porque são gerais. Parece brincadeira, mas não é. Newton teve que explicar isso várias vezes com sua Lei da Gravitação. Marx, uma infinidade de vezes. Porque são gerais, tais leis estão sempre presentes; porque são gerais, não explicam, contudo, toda particularidade e singularidade de cada caso.

Em 1844, nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, Marx já anunciava claramente uma dessas leis gerais: com o ser humano é parte da natureza, destruir a natureza é destruir também o ser humano. E, ainda, como o ser humano é parte da natureza, a destruição do ser humano é também a destruição da natureza. Naqueles momentos em que ele estava abandonando o hegelianismo e iniciando seu aprendizado de economia, não podia ir mais longe. Mas, ao final de sua vida (na terceira edição do Livro I de O Capital), nos deu a sua versão final para esta lei: as relações sociais capitalistas, por serem relações concorrenciais que obrigam à busca de um lucro sempre crescente, não apenas fazem do ser humano um servo do capital, como ainda tornam as relações sociais essencialmente desumanas. Nós destruímos a natureza para produzir lucros e, em função dos mesmos lucros e pelas mesmas ações, destruímos a nós próprios, seres humanos. Nunca produzimos tanta riqueza, e jamais ela foi tão desigualmente distribuída! Nunca tantos passaram fome com tanta comida sobrando! Hoje temos mais suicídios do que mortos em guerras! No passado, nada houve de semelhante.

Essa é uma parte da essência da crise que vivemos.

A outra parte corresponde a uma outra lei geral, esta formulada pela primeira vez por Hegel: a totalidade é mais do que a soma das partes; o universal é a síntese, não a somatória, de suas partes. Essa síntese produz no universal determinações, qualidades, que não estão presentes nos singulares que o compõem.

Esta lei está presente em todo o universo. Que a água (uma totalidade composta por dois gases) possui propriedades distintas dos elementos que a compõe é uma manifestação particular desta lei geral. A vida é a qualidade peculiar de reproduzir a si própria de uma forma, a orgânica, de organização dos átomos que provêm da matéria inorgânica. Os processos sociais são sempre a síntese das consequências práticas dos atos singulares dos indivíduos concretos em tendências históricas universais. Portanto, também as qualidades das tendências históricas universais não estão sempre presentes em cada ato humano. A totalidade, sempre, é mais do que suas partes: é a interação destas que produz uma nova essência, uma nova qualidade, universal.

Teríamos hoje, com as alienações provocadas pelo capital, chegado ao ponto em que a totalidade do planeta adquiriu uma qualidade nova e tenderá no futuro a evoluir por processos que tornarão a vida humana cada vez mais difícil, senão impossível? Teríamos já chegado àquele ponto em que a tendência mais universal da evolução do planeta (e, claro, da própria humanidade) será composta por transformações tão abruptas e tão amplas que nossa forma de vida se tornará inadequada para sobreviver às novas circunstâncias?

Como sempre, porque ainda não aconteceu, o futuro não pode ser conhecido em sua inteireza. O que podemos, a partir do conhecimento do presente, é estimar algumas tendências futuras possíveis. A resposta a esta pergunta, portanto, apenas poderá ser conclusivamente dada no futuro. Isto, contudo, não invalida a questão: já atingimos o ponto de não retorno? Talvez. Mas uma coisa é certa: se não o atingimos, nunca estivemos tão próximos de o atingir.

As duas leis gerais nos sinalizam: sem a superação do sistema do capital, nosso futuro não promete nada de bom para a humanidade.

Quanto à crise econômica? Um tsunami econômico está sendo gestado com a injeção de trilhões de dólares e euros no mercado mundial. Mas, isto, no momento, sequer é a maior preocupação. Era em 2019. Hoje a situação geral é tão mais grave, que a crise econômica deixou de ser a maior das preocupações. O que não significa que não venha a se tornar dramática no futuro próximo.

Material em que se baseia a News Letter de setembro:
1) https://www.cadtm.org/A-pandemia-do-coronavirus-e-parte-de-uma-crise-multidimensional-do-capitalismo
2) Science, 16 de Abril de 2020: Thailand scrambles to contain major outbreak of horse-killing virus. Christa Lesté-Lasserre.
3) New York Times, 25 de maio 2020. Wealthiest Hospitals Got Billions in Bailout for Struggling Health Providers. por Jesse Drucker, Jessica Silver-Greenberg and Sarah Kliff.
4) Nature, 26 June 2020: World’s second-deadliest Ebola outbreak ends in Democratic Republic of the Congo, por Amy Maxmen
5) Nature, 13 de agosto de 2020: AIDS, Malária and Tuberculosis are surging.
6) Nature, 10 de setembro 2020: 10 September 2020: The Arctic is burning like never before — and that’s bad news for climate change.por Alexandra Witze
7) Nature, 10 de setembro 2020: Wildlife in ‘catastrophic decline’ due to human destruction, scientists warn. por By Helen Briggs BBC
8) Nature, 20 maio 2020: 04 May 2020: Profile of a killer: the complex biology powering the coronavirus pandemic. by .David Cyranoski
9) The Guardian, 10 de setembro de 2020: Rampant destruction of forests ‘will unleash more pandemics’ por Robin McKie
10) The Guardian, 13 de maio 2020: Microplastics discovered blowing ashore in sea breezes . Por Karen McVeigh. @karenmcveigh1
11) The Guardian, 30 Julho de 2020: One in three children have dangerous levels of lead in their blood . Por Fiona Harvey.
12) The Guardian, 27 de maio de 2020: ‘Unstoppable’: African swine fever deaths to eclipse record 2019 toll. Por Michael Standaert
13) https://www.economist.com/graphic-detail/2020/08/25/the-greenland-ice-sheet-has-melted-past-the-point-of-no-return
14) The Economist, 22 de Agosto de 2020: How viruses shape the world. They don’t just cause pandemics.
15) The Guardian, 10 de setembro de 2020. Superbugs’ a far greater risk than Covid in Pacific, scientist warns. por Sheldon Chanel in Suva e Ben Doherty
16) “Pode a humanidade sobreviver à medicina?” por: Michel Odent. https://www.institutomichelodent.com.br/livraria-imo.
17) https://observador.pt/2019/09/11/bacterias-estao-cada-vez-mais-resistentes-a-antibioticos/

Falando nisso…

Você conhece os livros publicados pelo Coletivo Veredas?
Gostaríamos de indicar o livro “Abaixo a democracia! Viva a Comuna!“, escrito por Sergio Lessa. Confira no site https://coletivoveredas.com/

Sobre a autor: Sergio Lessa é membro do Coletivo Veredas e estudioso da obra de Lukács.

Resumo: O Texto de Combate “Abaixo a democracia! Viva a Comuna!” Procura responder às seguintes questões: Há uma alternativa à democracia que não seja a ditadura? É possível outra forma de organização da sociedade que não seja nem ditadura nem democracia? A resposta é positiva. Há, sim! Existe sim uma outra organização social que não é nem a democracia nem a ditadura. E é muito superior tanto a uma quanto à outra: é a Comuna.

Edições: 2017, impressa


Reafirmamos que nossa finalidade não é obter lucros com as vendas das produções. Os custos da produção dos materiais são bancados pelos próprios proponentes, sem recursos do Estado, de sindicatos ou outras instituições para-estatais. O objetivo é contribuir com a disseminação do conhecimento numa orientação revolucionária. O COLETIVO VEREDAS não visa lucro, por isso seus livros são baratos. Em nosso site, todos os livros são vendidos a preço de custo acrescidos de frete e podem ser baixados gratuitamente em PDF.


COLETIVO VEREDAS
ESTUDAR PARA LUTAR PELA EMANCIPAÇÃO HUMANA

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LANÇAMENTO: COVID-19, INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA: O NOVO MUNDO É UM JARDIM DE INFÂNCIA OU UMA CELA?

Lançamos hoje o livro “COVID-19, infância e adolescência: o novo mundo é um jardim ou uma cela?”, uma interessante discussão sobre a relação entre políticas públicas, família, infância e juventude na pandemia. A obra conta com seis artigos que nos ajudam a desvelar aspectos peculiares surgidos a partir da expansão mundial do coronavírus, mostrando o potencial enfraquecimento das estruturas que garantem os direitos das crianças e adolescentes, assim como das relações de atenção e cuidado familiar e comunitário.

A obra terá o valor de R$15,00 e frete grátis, podendo ser adquirida por nossa loja online, no link da bio de nosso Instagram ou em https://linktr.ee/tsa.editora

LIVRO PARA DOWNLOAD: EDUCAÇÃO CONTRA O CAPITAL – VOL II, DE IVO TONET

Hoje disponibilizaremos para download o livro “Educação contra o Capital – vol II”, escrito pelo camarada Ivo Tonet, professor de filosofia da Universidade Federal de Alagoas, e que por décadas tem dedicado seus esforços na crítica da sociedade burguesa sob a perspectiva marxista, especialmente na educação, filosofia e serviço social. Registramos ainda a felicidade de editar a obra de um autor que deu considerável contribuição na formação dos indivíduos que compõem este modesto projeto editorial, dentre outras coisas, com sua profunda crítica à democracia burguesa, tendo como objetivo a construção de uma sociedade emancipada, posição da qual partilhamos. O livro pode ser acessado na biblioteca virtual David Graeber, nosso repositório para obras publicadas por nós, ou no site do autor, que também conta com sua vasta obra.

INTERNATIONAL INITIATIVE | DAVID GRAEBER: O INTELECTUAL REVOLUCIONÁRIO MAIS IMPORTANTE DE NOSSO TEMPO!

Comunicado da International Initiative – freedom for Abdullah Öcalan – peace in Kurdistan sobre o falecimento de David Graeber. Texto original aqui


Nossos corações estão cheios de tristeza ao saber que nosso amigo e camarada David Graeber morreu repentina e inesperadamente em 2 de setembro de 2020. Sua morte prematura é uma perda profunda para todos nós. Apresentamos nossas mais profundas condolências à sua família, a todos os seus amigos e a todos os que lhe são próximos.

Se houve algo que se destacou sobre David Graeber, foi sua insistência em ver as coisas de forma diferente. Ele foi capaz de aproximar as coisas de maneiras inteiramente novas e lançar uma nova luz sobre os fenômenos que tomávamos por garantidos. Sua criatividade inigualável o levou a alcançar diferentes disciplinas e períodos de tempo.

David foi sem dúvida um revolucionário e visionário, seja no contexto do Occupy Wall Street, seja da revolução no Curdistão, especialmente em Rojava. Sempre que os oprimidos tentavam tomar as rédeas e construir algo novo, David estava lá para apoiar esses esforços, seja através da teoria ou da ação direta. E enquanto ele fazia isso, enfrentava o mundo, e se necessário, toda a esquerda. Isto pode ser visto em sua forma peculiar de abordagem para o povo curdo. Há mais de cinco anos, David disse que a Revolução de Rojava: “Não, esta é uma verdadeira revolução!”, e entrou em diálogos indiretos com Abdullah Öcalan através de seu ensaio sobre a filosofia política de Öcalan. Em seu ensaio em “Building a Free Life: Dialogues with Abdullah Öcalan” (Construindo uma Vida Livre: Diálogos com Abdullah Öcalan), escreveu:

“Não só se espera que os acadêmicos evitem se envolver na política […] Uma das formas que isso assume é a recusa de acreditar que qualquer pessoa que tenha tomado qualquer ação política eficaz no mundo também pode fazer contribuições importantes para o pensamento humano. Na melhor das hipóteses, eles podem ser objeto de análise. Eles não podem ser considerados como participantes iguais no desenvolvimento de ideias […] Não é surpreendente, então, que a maioria dos intelectuais contemporâneos não tenham ideia do que fazer com as ideias de Abdullah Öcalan.

Conhecemos David pessoalmente desde 2012, quando apresentou a primeira tradução alemã de seu fabuloso livro “Debt: The First 5.000 Years” (Dívida: Os Primeiros 5.000 Anos) em Colônia. Desde então, temos desenvolvido uma forte amizade. Ele contribuiu muito para a compreensão do público internacional sobre o corpus intelectual do movimento de libertação curdo, e por sua vez também fortaleceu nosso pensamento através de sua própria análise.

David era o tipo de ativista-intelectual que nosso mundo precisa urgentemente. Ele não só tinha um coração bondoso e um intelecto sólido, mas era capaz de resistir à uniformidade do mundo acadêmico e de abordar questões que talvez não tivessem sido populares. Profundamente crítico das estruturas de capital e poder, incluindo sua expressão na academia, fazia parte e apoiava os movimentos radicais que mudaram a sociedade para melhor.

David ainda tinha muito a contribuir neste momento crítico da história humana como um brilhante antropólogo, ativista anarquista, amigo da revolução no Curdistão e um importante intelectual revolucionário com capacidades únicas para a produção de significados. Todos sentirão a sua falta. Mas ele continuará vivendo em Rojava e onde quer que haja um espírito humano livre.

RAÚL ZIBECHI: CONFEDERALISMO DEMOCRÁTICO


Quando recebemos notícias da resistência curda em Kobane e nos outros dois cantões autônomos da região de Rojava, as reviravoltas da memória e da consciência nos remetem à guerra e à revolução espanhola. Aquelas comunidades igualitárias de Saragoça, as barricadas dignas e a autogestão em Barcelona, o grito de Buenaventura Durruti na defesa de Madrid: “Levamos um mundo novo nos nossos corações, e esse mundo está crescendo agora mesmo”.

Encontro várias semelhanças que compõem o cerne dos processos de mudança: o povo armado, organizado em batalhões populares; o papel destacado das mulheres em todas as esferas e níveis de ação coletiva; o autogoverno com ampla participação; o fato de que essas mudanças surgem durante uma guerra, ou seja, em uma situação extremamente crítica para a sobrevivência.

Em julho e agosto de 2012, o regime sírio entrou em colapso em Rojava, a região fronteiriça com a Turquia, quando a primavera árabe começou em 2011, foi duramente reprimida pelo governo de Bashar al-Assad, causando uma guerra interna com apoio regional e global. As grandes potências detêm vários grupos armados (geralmente constituídos por mercenários) que lutam contra o regime sírio, apoiados por sua vez por outras potências.

O povo curdo é a maior nação sem Estado do mundo. Os quase 40 milhões de curdos vivem em quatro países: Síria, Iraque, Irã e Turquia. Ocupam uma área de cerca de 400.000 quilômetros quadrados; quase 200.000 no Curdistão turco com cerca de 15 milhões de habitantes, 125.000 no Irã com 13 milhões, 60.000 quilômetros quadrados no Iraque com oito milhões e cerca de 12.000 quilômetros quadrados na Síria com pouco mais de dois milhões de habitantes.

Os curdos foram vítimas das potências coloniais que, no início do século XX, assinaram um acordo secreto para dividir o Império Otomano. Em 16 de maio de 1916, na fase final da Primeira Guerra Mundial, Sir Mark Sykes representando a Grã-Bretanha e François-Georges-Picot representando a França concordaram em dividir o Oriente Médio depois que a guerra acabou e o Império Otomano foi derrotado. O que é agora a Síria, o Líbano e o Sul da Turquia ficaram sob domínio francês, enquanto o que é agora a Jordânia e o Iraque foi atribuído à tutela britânica.

No mesmo período ocorreu a Declaração Balfour (2 de novembro de 1917), na qual o Reino Unido relatou a decisão de apoiar a criação de uma “casa nacional judaica” na Palestina. Foi uma carta do Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico Arthur Balfour ao banqueiro Lionel Walter Rothschild, líder da comunidade judaica na Grã-Bretanha, para obter o apoio da Federação Sionista da Grã-Bretanha e Irlanda. Até hoje, as velhas potências, às quais os Estados Unidos e, em menor grau, a União Soviética aderiram depois de 1945, desempenham um papel dominante no Médio Oriente, tendo prioridade na intervenção nas suas antigas colônias.

Embora o acordo Sykes-Picot tenha fracassado em sua aplicação na Turquia, onde Kemal Atatürk liderou a guerra da independência, o resto do tratado foi aplicado tal como concebido pelos impérios coloniais, assegurou o domínio francês e britânico, mas também gerou as condições dos conflitos atuais. O Estado kemalista proibiu o uso da palavra Curdistão, bem como da sua língua. Os curdos foram dispersos por toda a Turquia, pois suas terras foram expropriadas através da “Lei da Residência Forçada” de 1930. O povo curdo eram considerados “turcos das montanhas”, ou seja, turcos com características particulares devido ao seu habitat montanhoso.

No norte da Síria, durante a guerra civil, foram criadas unidades de proteção popular (YPG) armadas, sob mandato do Comitê Supremo Curdo, para controlar áreas habitadas por curdos. Em julho de 2012, o YPG capturou a cidade de Kobane e uma dúzia de outras cidades, onde o Partido da União Democrática (DUP) e o Conselho Nacional Curdo (KNC) iniciaram uma administração conjunta. Apenas duas grandes cidades maioritárias curdas, Hasaka e Qamishli, permaneceram sob o controle do governo de Damasco.

Meses depois, em janeiro de 2013, os cantões Jazira, Kobane e Afrin proclamaram sua autonomia. São três pequenas unidades territoriais na fronteira com a Turquia, num total de dezenas de milhares de habitantes, onde coexistem vários grupos étnicos e religiosos, rodeados pelo exército turco e pelo Estado Islâmico. São três enclaves não contíguos, separados por centenas de quilômetros e milhares de homens armados que querem destruí-los.


Os movimentos e partidos de esquerda na Turquia nasceram nos anos 70, em resposta aos crimes cometidos pelo Estado turco contra as suas 30 nacionalidades, porque os turcos são uma minoria na Turquia, um país de 70 milhões de habitantes povoados por cerca de 15 milhões de curdos, além de assírios, gregos, armênios, ciganos… Mas essa esquerda ainda não tinha resposta para essas “minorias”.

Em 1978, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão Marxista-Leninista (PKK) foi criado com o objetivo de formar um Curdistão independente. A luta do povo curdo vinha crescendo desde 1973, e a formação do partido foi consequência desse longo processo de autoafirmação das comunidades do Curdistão. O golpe de Estado de 1980 (com o apoio da OTAN e dos EUA, seu aliado estratégico que tem bases militares contra a Rússia) teve como objetivo deter este processo, reprimir tanto os curdos como as outras “minorias”, assim como a esquerda e os novos movimentos.

A maioria dos líderes do PKK se refugiaram nos campos palestinos no Líbano, no vale de Bekaaa, e estabeleceram alianças com a Frente Popular para a Libertação da Palestina, liderada por George Habash. Aí receberam formação e participaram na luta do povo palestiniano, na qual mais de 300 militantes curdos foram mortos ou encarcerados.

Em 1984, o PKK lançou a luta armada no Curdistão porque considerava que sob a ditadura não havia outra forma de ação possível. O PKK acumula a longa resistência curda: entre 1920 e 1940 houve 27 revoltas contra o poder turco. Com a derrota da insurreição de Dersim em 1938, a ocupação do Curdistão turco foi concluída e um longo período de absorção através das escolas e a proibição de falar curdo começou.

Durante a guerra iniciada pelo PKK, houve 5.000 execuções extrajudiciais, milhares de curdos foram presos e centenas de aldeias rurais foram destruídas. O partido obteve amplo apoio, não só entre os curdos, mas também entre outros povos afetados pelo poder turco, como os armênios.

A virada do PKK começou no início da década de 1990, quando o socialismo real caiu. Isto provocou um debate interno sobre o caminho a seguir na nova situação internacional. Este debate interno conduziu à preparação do sexto congresso, que levou o PKK a adotar, em 1998, uma nova estratégia denominada “Confederalismo Democrático”, que levou a organização a abandonar o marxismo-leninismo e o objetivo de criar um Estado-nação curdo.

Para o Estado turco, para os Estados Unidos e para Israel (mas também para as burocracias árabes dominantes) a transformação do PKK é um desafio sem precedentes. Até aquele momento era uma guerrilha nacionalista que enfrentava o exército em montanhas remotas. Mas desde a adoção do Confederalismo Democrático, o PKK passou a ter um projeto mais amplo que envolve múltiplos atores e reflete as mudanças nas sociedades do Oriente Médio. Como resultado dessa mudança, começou a ter relações com as lutas dos povos oprimidos em toda a região.

Por um lado, a proposta de Confederalismo Democrático reflete as mudanças demográficas da população curda. Dos 13 milhões de habitantes de Istambul, seis milhões são curdos, quatro milhões emigrados para a Europa, o que significa que a maioria dos curdos já não vive no Curdistão. Portanto, a luta principal não é mais nacional, mas sim social.

Muitos jornalistas e ativistas ocidentais atribuem a adoção do Confederalismo Democrático à prisão de Abdullah Öcallan e à influência de Murray Bookchin, historiador e ambientalista e fundador da ecologia social. É desnecessário dizer que esta é uma visão colonial. Outros falam da “volta libertária” do PKK. E mais uma acredita que o PKK um partido stalinista que busca ganhar mais apoio no Ocidente.

Pelo contrário, o povo curdo, como os índios latino-americanos, estão concentrados em torno de comunidades camponesas que marcam sua identidade e cultura. Tem uma longa e frutífera história que constitui a sua principal referência cultural e política. A proposta atual está ancorada na recuperação das tradições da Mesopotâmia porque consideram que a civilização não começou com os gregos, e nem que a Revolução Francesa é o ponto de partida das lutas pela emancipação.

A nova orientação do PKK provocou a reação furiosa dos Estados Unidos e seus aliados, que decidiram qualificá-lo de “terrorista” e perseguir seu líder, Abdullah Öcallan, que estava na Síria e foi expulso para a Rússia sob pressão da Turquia. O governo russo também não o tolerou e expulsou-o para Itália. A caminho da África do Sul, Öcallan foi raptado no Quênia pelos serviços secretos israelenses (Mossad) e entregue à Turquia. O presidente do PKK foi condenado a prisão perpétua após a comutação da pena de morte e está confiante de que será libertado.


Quando o conflito entre a oposição e o governo de Damasco se transformou numa guerra aberta, o povo curdo não apoiou nenhum dos lados e procurou o seu próprio caminho, através do autogoverno. Naquela época, descobriram que o Confederalismo Democrático é a melhor forma de coexistência em uma região onde 80% são curdos e 20% pertencem a outros grupos étnicos.

Os três cantões da região de Rojava, denominados comunidades autônomas democráticas: Afrin, Jazira e Kobane, são uma confederação de curdos, árabes, arameus, turcomanos, armênios e chechenos. Eles redigiram uma Constituição, que foi divulgada em outubro de 2014, a que chamam “Carta Constitucional de Rojava”. O preâmbulo “proclama um novo contrato social, baseado na convivência, na compreensão mútua e na paz entre todas as vertentes da sociedade”. Protege os direitos humanos e as liberdades fundamentais e reafirma o direito dos povos à autodeterminação.

As Unidades de Proteção Popular (YPG) são a única força militar dos três cantões, com o dever de proteger e defender a segurança das comunidades autônomas e de seus povos. Eles formaram o Movimento para uma Sociedade Democrática (Tevgera Civaka Demokratîk, conhecido por seu apócrifo Tev-Dem), que é o verdadeiro promotor da mudança. Entre elas está a criação de Unidades de Proteção da Mulher (YPJ) com 10.000 membros que desempenham um papel decisivo na defesa da Rojava. Além do Asayish, uma força policial para controlar as áreas autônomas com cerca de 4.000 membros, um quarto dos quais são mulheres. Essa “polícia” não quer ser chamada assim, porque eles dizem que não servem ao Estado, mas à sociedade.

Os comandantes desses corpos armados são eleitos e, além do uso de armas e disciplina militar, aprendem a história do Curdistão, ética, meditação e cultura popular. A nova administração (a anterior desabou em 2012), é governada pelas comunas ou municípios com base em conselhos de bairro abertos e semanais, que são responsáveis por suas próprias unidades de autodefesa, além de conselhos dedicados à economia, educação, saúde, serviços públicos, juventude e mulheres. Os cantões têm um conselho com a participação de delegados eleitos em cada bairro.

A construção desta estrutura de poder foi possível graças ao trabalho do Tev-Dem, uma grande coligação de grupos que inclui partidos como o PYD (Partido da União Democrática), cooperativas, grupos de jovens e mulheres, centros culturais e academias. Com base nos princípios do autogoverno, a nova administração tomou em suas mãos as terras estatais (planícies dedicadas à monocultura do trigo) e as entregou às cooperativas criadas que estão tentando diversificar a produção de alimentos. Eles continuam a extrair algum óleo que refinam para as necessidades locais.


A criação de comunas autogeridas acontece no meio de uma guerra, algo que confunde alguns, como se pode ver nos relatórios publicados na Europa, onde se perguntam: por que não iniciaram um processo tão interessante numa situação normal, não quando estão sendo mortos por centenas de militares, e de uma forma muito particular pelo genocida Estado Islâmico?

Como é frequente, a pergunta revela a maneira de pensar do questionador. A resposta é que não podia ter acontecido noutra altura. A história das revoluções nos ensina isso. Todos nasceram em meio a guerras, quando a sobrevivência da humanidade estava em risco, quando era necessário organizar-se com outros e outras pessoas para dar continuidade à vida. As revoluções nascem da necessidade, não das Bíblias (e não importa se essas Bíblias são marxistas, anarquistas, cristãs ou social-democratas).

A Revolução Espanhola, a Revolução Russa e a Revolução Chinesa, entre muitas outras, a criatividade humana coletiva que chamamos de revolução, não são opções filosóficas, mas o produto da necessidade.

Mas há outro fato fundamental. Se o poder do Estado sírio não se tivesse desmoronado em Rojava, deixando vastos territórios rurais e urbanos à mercê dos mercenários do Estado Islâmico (dos exércitos turco e sírio e das diversas milícias que lutam pela conquista do petróleo), a autogestão teria sido um sonho de filósofos. Quando o Estado entrou em colapso, o capitalismo e o patriarcado foram expostos. O Estado é o escudo da exploração e da opressão. Sem a sua ajuda, têm enormes dificuldades em reproduzir-se.

No entanto, o determinismo não existe. Os curdos do norte da Síria não encontraram por acaso a tese do Confederalismo Democrático do PKK. Há uma prática anterior, muito mais importante que as teses de Öcallan, embora estas sejam realmente valiosas porque as inspiram. Não são as ideias que mudam o mundo, mas a atividade humana coletiva, muitas vezes impregnada de fragmentos dessas ideias.

Não devemos cair na armadilha colonial de acreditar que o texto e a palavra, como os impostos pelos colonizadores espanhóis na América, são a chave de qualquer mudança. Ao contrário do que muitos acreditam, as ideologias são muito menos decisivas do que a atividade social coletiva. Muito antes da experiência autônoma de Rojava, os militantes do PKK e do Tev-Dem promoveram uma ampla articulação conhecida como Congresso da Sociedade Democrática, onde se articulam mais de 500 organizações sociais, sindicatos e partidos.

Quando ocorrem catástrofes naturais e sociais, e a vida quotidiana se desmorona, as pessoas recorrem à memória das suas experiências coletivas acumuladas nas suas vidas, algo a que podemos chamar “cultura política” ou “formas de fazer”, codificadas como costumes ou hábitos. Se conhecerem apenas uma cultura, a hegemônica, hierárquica, patriarcal, caudilhista, estatista-capitalista, não poderão sair da heteronomia. Mas se suas tradições comunitárias se conservarem vias, autônomas, não capitalistas, não patriarcais, por menores que sejam os espaços e tempos em que foram praticadas, a história pode virar.

Portanto, o que é importante nos períodos “normais” não é quantas pessoas estão envolvidas nessas formas de fazer o que chamamos de “alternativas”. O decisivo é que eles existam, que um setor ativo e dinâmico, mesmo que minoritário, os pratique e divulgue. Em nossa sociedade todos sabem que existem formas mais saudáveis de alimentação, formas não alopáticas ou mercantilizadas de cuidar da saúde, espaços não tão mercantis como shoppings e supermercados, modos de vida diferentes e pequenas organizações que os sustentam. Quando surgirem situações dramáticas, algumas destas experiências multiplicar-se-ão, como já aconteceu tantas vezes.

Rojava é a dupla consequência da guerra civil síria e do intenso trabalho do PKK e de outras organizações curdas. O que é notável é que um partido com raízes marxistas-leninistas foi capaz de promover tal mudança. Não se inspirou em teses anarquistas, mas nas tradições libertárias do povo curdo. Inspirar-se nas tradições comunitárias e libertárias de todos os povos é um bom antídoto para os dogmatismos de todos os tipos.


É evidente que existem certas semelhanças entre as revoluções zapatista e curda. Houve algum encontro secreto entre Marcos e Öcallan? Entre os comandantes do EZLN e os do PKK? Há toda uma bibliografia que faz das conspirações o fio condutor das lutas sociais, que tem a mesma força que o olhar ideológico. Ambos não entendem o fato fundamental: a história é feita pelos povos, com suas lutas, mas também com seus consentimentos. O confronto muda o mundo tanto quanto a conciliação, embora nossa iconografia militante esteja acostumada a posar apenas em atos heroicos, por mais esporádicos e aleatórios que tenham sido na história.

Creio que a coisa comum entre uma experiência e outra são as raízes, é o caminho para a parte mais profunda das pessoas. O Subcomandante Marcos chegou com um pequeno grupo de militantes derrotados de Guevara à Selva Lacandona e ali não teve outro caminho senão “render-se” à lógica das comunidades. Uma história bem conhecida explica que a sua teoria política foi abalada pelo contato com seres humanos reais e que, graças a esses abalos, ele foi capaz de começar a percorrer as comunidades até se tornar um grupo. Ou algo parecido.

O que é comum entre os dois processos é o esforço para mudar o mundo e entender que os caminhos herdados não são os mais apropriados. Que as pessoas saibam e que possamos confiar nelas. Que não sabemos tanto e que devemos aprender com as outras e com os outros de baixo. Eles são os nossos professores. Uma ética de humildade, de vontade de fazer juntos e de não impor o que carregamos em nossos alforjes.

Não é muito importante se em um lugar eles são chamados de conselhos do bom governo e no outro são conselhos locais e de cantão. Em ambos os casos, pode-se ver uma mudança do centro de gravidade para os povos organizados e a confiança de que esses povos são os sujeitos capazes de fazer o que é preciso fazer. O quê? O que estes povos decidem, a qualquer momento, de acordo com as suas convicções.


É impossível conhecer de antemão o futuro da revolução curda. No meio de uma guerra atroz, em que grandes potências, ditaduras ferozes e grupos terroristas estão diretamente envolvidos, será muito difícil para ela sobreviver a essa destruição. Os recentes ataques da Turquia e do Estado islâmico podem ser um sinal do que o futuro imediato reserva. Em todo caso, o que fizeram até agora é suficiente para suscitar o maior entusiasmo, a maior admiração, a mais ampla solidariedade em cada canto do planeta dos oprimidos.

Os grandes processos históricos devem ser traduzidos pelas intenções e não pela medição pragmática dos resultados. É por isso que Rojava merece toda a nossa atenção, todo o nosso apoio e a vontade de aprender, que é o pouco que podemos fazer à distância. Estamos atravessando um período particular da história, muito parecido com o das duas guerras mundiais, quando vários impérios foram derrubados, quando as grandes revoluções aconteceram, mas também a distribuição dos restos desses impérios entre as potências coloniais.

Olhando para trás, Eric Hobsbawm destacou a importância da Revolução Espanhola, que se tornou uma frente de batalha central contra o fascismo. Foi, em sua opinião, a causa mais nobre do século passado, como ele aponta em sua História do século XX: “Para muitos de nós que sobreviveram a ela é a única causa política que, mesmo retrospectivamente, nos parece tão pura e convincente quanto era em 1936”. É a melhor coisa que se pode dizer sobre uma revolução.


Fonte: Tierra y Liberdad, 2016

PRÉ-VENDA: RACISMO E LUTA DE CLASSES NO BRASIL – TEXTOS ESCOLHIDOS DE CLÓVIS MOURA


Abrimos hoje a pré-venda do livro “Racismo e luta de classes no Brasil – textos escolhidos de Clóvis Moura”, uma coletânea de três textos deste autor piauiense, que dedicou grande parte de sua vida ao estudo da questão negra no Brasil, especialmente de suas resistências, como a quilombagem. A presente obra conta com os seguintes textos: “Atritos entre a História, o Conhecimento e o Poder”, “População e miscigenação no Brasil” e “Racismo como arma ideológica de dominação”. Neles, Moura desenvolve uma rica análise sobre a estrutura social, política, econômica, cultural e ideológica do racismo na sociedade brasileira, crítica que atravessa a prática de pesquisa em diversas áreas das ciências humanas e sociais.


“Racismo e luta de classes no Brasil – textos escolhidos de Clóvis Moura” tem o valor de R$ 15,00 e frete grátis para todo o país. Pode ser comprado no link da bio em nosso Instagram ou pelo link: https://linktr.ee/tsa.editora


Durante sua pré-venda, com 50 exemplares disponíveis, será enviado junto do pôster “contra a história dos vencedores”


“Defender a Pátria é, historicamente, esmagar a República de Palmares; é esmagar a República Pernambucana de 1817; a In­confidência Baiana; a Sabinada; a Cabanagem; a Balaiada; Canudos e Contestado; os Mukers; as revoltas escravas; a Revolução Praieira; o movimento da Aliança Nacional Libertadora e os guerrilheiros do Araguaia”. – Clóvis Moura

ABDULLAH ÖCALAN: MINHA SOLUÇÃO PARA A TURQUIA, SÍRIA E OS CURDOS

A revista americana Jacobin publicou um artigo de opinião, editado a partir de escritos e declarações do líder curdo Abdullah Öcalan.

A modernidade capitalista é a crise mais mortal e mais contínua da civilização na história. Em particular, a destruição geral dos últimos duzentos anos interrompeu milhares de ligações evolutivas na natureza. Provavelmente ainda não estamos plenamente conscientes da devastação que isto causou ao mundo vegetal e animal. Entretanto, é claro que, como a atmosfera, ambos os mundos emitem constantemente sinais de socorro.

Por quanto tempo a humanidade pode continuar a suportar esta modernidade, que causou uma devastação ambiental de longo alcance e levou à desintegração da sociedade? Como a humanidade aliviará a dor e a agonia da guerra, do desemprego, da fome e da pobreza?

A afirmação de que o Estado-nação protege a sociedade é uma grande ilusão. Em vez disso, a sociedade tem sido cada vez mais militarizada pelo Estado-nação e completamente submersa em uma espécie de guerra. Eu chamo esta guerra de suicídio da sociedade, imposta de duas maneiras.

Primeiro, o poder e o aparato estatal controlam, oprimem e vigiam a sociedade.

Em segundo lugar, a tecnologia da informação (monopólios de mídia) dos últimos cinquenta anos tem substituído a sociedade real por uma sociedade virtual. Ante os princípios do nacionalismo, da religião, do sexismo, do cientificismo, das artes e da indústria do entretenimento (incluindo esportes, novelas, etc.), com os quais a mídia ataca a sociedade 24 horas por dia, 7 dias por semana, como a sociedade pode ser defendida?

Ficou bastante claro que o estatismo nacional no Oriente Médio é, de fato, uma das ferramentas de dominação da modernidade capitalista. O que o Tratado de Versalhes era para a Europa, o Acordo Sykes-Picot, elaborado entre britânicos e franceses em 1916, é para o Oriente Médio: “Uma paz para acabar com toda a paz”.

Os Estados-nação de hoje têm na região o mesmo significado que os governadores do Império Romano tiveram, mas são ainda mais colaboracionistas com a modernidade capitalista, e estão ainda mais afastados das tradições culturais da região. Eles estão em guerra com seu próprio povo internamente, e uns com os outros externamente. A liquidação da sociedade tradicional significa uma guerra contra os povos, e mapas desenhados com uma régua são um convite às guerras entre Estados. Nenhum dos Estados-nação é adequado para superar uma crise cada vez mais profunda; de fato, sua existência a aprofunda ainda mais.

Na minha opinião, uma terceira guerra mundial está ocorrendo no mundo inteiro, tendo o Oriente Médio como centro de gravidade. Em termos de alcance e duração, esta guerra é mais profunda e mais longa do que as duas primeiras guerras mundiais. O resultado é a decomposição e a desintegração. E isto só pode terminar com a formação de um novo equilíbrio regional ou global. Sustento que o destino da terceira guerra mundial da modernidade capitalista será determinado pelos acontecimentos no Curdistão. Isto se manifesta no que está acontecendo no Iraque e na Síria.

A existência de Estados-nação é uma anomalia na história do Oriente Médio, e a insistência neles leva a desastres. O Estado-nação turco acredita que com um genocídio final dos curdos se tornará eterno, um Estado-nação agora integrado com seu próprio país e nação. Claramente, a menos que a Turquia abandone este paradigma, ela será um mero coveiro dos povos e culturas sociais da região, incluindo o próprio povo turco. A situação futura do Irã, do mesmo modo, permanece incerta tanto para si mesma quanto para a região.

Mas a situação dos curdos, dilacerada pelo estatismo nacional no Oriente Médio, impondo diferentes formas de aniquilação e assimilação a cada uma dessas partes, é uma catástrofe completa. Os curdos estão, por assim dizer, condenados a uma agonia mortal de longo prazo.

A luta curda

Entretanto, as condições amadureceram e os curdos, através de sua luta, podem emergir do processo de genocídio. Isto só é possível através do projeto de uma nação democrática, baseada em cidadãos livres e iguais, existindo juntos em solidariedade, englobando todas as realidades culturais e religiosas. Este é, portanto, um projeto elaborado para ser forjado em conjunto com os outros povos da região. A metodologia para atingir esse objetivo está sendo desenvolvida passo a passo.

Rojava e todo o norte e leste da Síria, liderada por uma auto-administração autônoma, multi-étnica e multi-religiosa baseada na liberdade das mulheres, está se elevando como um farol da liberdade. Isto apresenta uma solução modelo tanto para os povos do Oriente Médio quanto para os Estados-nação. O modelo não propõe a negação dos Estados-nação, mas propõe que eles estejam sujeitos a uma solução democrática e constitucional. Isto garantirá a existência e a autonomia tanto da “nação do Estado”, a nação construída pelo Estado, quanto da nação democrática.

A rica herança de entidades étnicas, religiosas e confessionais e suas culturas nesta região só pode se manter unida através desta mentalidade de nação democrática, que promove a paz, a igualdade, a liberdade e a democracia. Cada cultura, por um lado, é construída como um grupo nacional democrático. Eles podem então viver em um nível superior de união nacional democrática com outras culturas com as quais já vivem juntos.

A solução da nação democrática proposta pelos curdos permitiu-lhes eliminar o ISIS, resultado do monismo religioso, em nome de toda a humanidade. Este é sem dúvida o resultado de nosso paradigma baseado na liberdade das mulheres, o que faz dele um modelo a ser seguido pelo mundo inteiro.

Lutando pelo futuro

Hoje, os acontecimentos no norte e leste da Síria atingiram um ponto importante. O reconhecimento da administração norte e leste síria e da democracia local que ela representa para os povos árabes, curdos, armênios, assírios e outros será um passo muito importante tanto para a Síria quanto para o Oriente Médio em geral. Nosso apelo para que as pessoas retornem da Europa, da Turquia e de outros lugares será possível quando for declarada uma constituição democrática para a Síria.

Nossa visão do conflito curdo-turco que já dura quase um século é clara. Temos desenvolvido uma solução democrática para a questão curda desde 1993. Nossa posição, como vimos nas conversações de 2013 com o Estado-nação turco em İmralı, expressa na Declaração de Newroz, quando entramos no processo de diálogo, é hoje mais importante do que nunca. Reforçamos esta posição na declaração de sete pontos que apresentamos em 2019. Enfatizamos a necessidade de reconciliação social e negociação democrática para substituir a cultura da polarização e do conflito.

Hoje, os problemas podem ser resolvidos não com as ferramentas físicas da violência, mas com um poder brando. Em condições favoráveis, poderiam estabelecer mecanismos para eliminar o conflito dentro de uma semana. Quanto ao Estado turco, ele se encontra em uma encruzilhada. Pode continuar seu caminho em direção ao colapso como outros Estados-nação da região, ou entrar em uma paz digna e uma solução democrática significativa.

Em última análise, tudo será determinado pela luta entre as partes. O sucesso da luta empreendida pelos curdos através da política de paz e da política democrática determinará o resultado final. E a liberdade prevalecerá.

* * *


Abdullah Öcalan é o fundador do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerado um dos mais importantes representantes políticos dos curdos e um destacado estrategista. Desde seu sequestro no Quênia em 1999 e posterior julgamento e sentença de morte, comutado em prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional, ele tem sido mantido em total isolamento na ilha de İmralı. Por quase onze anos, ele foi o único prisioneiro ali.

Öcalan escreveu extensivamente sobre história, filosofia e política, e é considerado uma figura-chave para uma solução política do problema curdo. Como ele foi mantido completamente incomunicável e não pôde consultar seus advogados ou receber visitas regulares por muitos anos, este artigo de opinião foi editado a partir de seus recentes escritos e declarações na prisão. Seus trabalhos recentes incluem The Sociology of Freedom (2020) e The Political Thought of Abdullah Öcalan (2017).


FONTE: Kurdistán América Latina/Jacobin/ANF

LANÇADA EM PORTUGUÊS A REVISTA LÊGERÎN

Acaba de ser lançada em português a Revista Lêgerîn, um importante veículo de divulgação da luta curda e da defesa do Confederalismo Democrático. A edição, que conta com diversos e interessantes debates, demonstra a vitalidade e potência do pensamento de libertação curdo, que tanto pode colaborar para refletirmos sobre a América Latina em Geral, e o Brasil em específico. A Revista pode ser acessada gratuitamente em seu site, através do link: http://bit.do/legerin01

CHILE | AMPLAS MANIFESTAÇÕES PELA NAÇÃO MAPUCHE CONTRA A “HORDA RACISTA”

Tradução do texto produzido pela Equipe de Comunicações Mapuche


A noite de 1º de agosto se tornou um dos momentos mais miseráveis e decadentes da história dos últimos 30 anos no que diz respeito às práticas racistas, considerando o grave desfecho de hordas de capachos anti-Mapuche e agentes do Estado nas comunas da Região da Araucania, ambiente impulsionado por grupos ligados aos interesses do latifúndio colonialista e por empresários hiper-ideologizados de extrema direita.

Enquanto membros das comunidades mapuches mantiveram a ocupação dos municípios comunais de Victoria, Collipulli, Galvarino, Angol, Curacautín e Traiguén na província de Malleco, como forma de protesto contra a discriminação e o estado crítico em que vivem 27 prisioneiros mapuches nas cadeias de Algol, Lebu e Temuco, grupos em hordas, no meio ao toque de recolher, sob o controle exclusivo dos militares e de carabineros (a partir das 22 horas), realizaram ataques que procuravam linchar seus ocupantes, incluindo mulheres e crianças, como se pretendia em Curacautín.

A ação foi realizada sob a inação de agentes do Estado, que permitiram a livre movimentação de grupos armados, destruindo várias infra-estruturas municipais e queimando dois veículos de membros da comunidade Mapuche que estavam na ocupação de Curacautín, enquanto pulavam e gritavam “Quem não pula é Mapuche”, como ficou conhecido pelos registros audiovisuais do momento.

Uma situação semelhante foi vivida nos municípios de Victoria e Traiguén, incluindo um grande incêndio no município de Ercilla e outro considerável em Traiguén, As redes sociais apontaram que houve tentativas publicitárias de culpá-los por certos ataques que ocorreram durante a noite em meio do toque de recolher, enquanto grupos racistas andavam livremente, sem nenhum controle, em diferentes comunas da região, “assim como os patriotas de Ku Klux Klan”.

A Defensoría Popular apresentou neste domingo a primeira ação legal contra o Ministério do Interior, Victor Perez, “pelos atos de violência sofridos por diferentes comunidades indígenas nas primeiras horas da noite passada, particularmente nas comunas de Curacautín e Victoria”.

O Ministro Pérez, ligado a Paul Shaffer e grupos criminosos de lesa humanidade em Colonia Dignidad, visitou Araucanía e é acusado de ter desencadeado a atmosfera de violência e de não ter feito nada para evitar os ataques, apesar de estar ciente dos atos.

Antes desses graves eventos, a chamada “Asociación para la Paz y la Reconciliación de La Araucanía (APRA)”, ligada a grupos empresariais e latifundiários que mantêm conflitos de terra com as comunidades mapuches, é acusada de gerar uma campanha que tem sido considerada de ódio, violência e racismo, com chamadas abertas através de redes sociais para gerar ataques e fazer numerosas acusações de “terrorismo mapuche”, promovendo um permanente ambiente de confronto.

Deve-se notar que o Interferencia vinculou o presidente da APRA, Francisco Alanis Porcella, ex-sogro de Martín Pradenas, acusado de estupro e abuso sexual, a fazer parte de uma ação judicial contra a família da jovem estuprada e morta, Antonia Barra, para “abster-se de fazer publicações ofensivas ou desqualificativas” contra a acusada.


Amplo repúdio à horda racista

Em resposta aos vários episódios de racismo, grandes manifestações começaram a ocorrer em diferentes partes do Chile em rejeição aos atos anti-Mapuche, realizando concentrações massivas, que continuam a ser convocadas durante toda a semana, condenando energicamente as práticas racistas e violentas dessas turbas.

A Confederação Mapuche de Neuquén, por outro lado, expressou sua solidariedade com as comunidades Ngulche e apontou o seguinte: “Mais uma vez os latifundiários e a direita chilena mostram sua brutalidade. Com um plano pouco original, expressando seu racismo e violência, ontem à noite em Curacautin invadiram a ocupação pacífica da Municipalidade com golpes e cantos racistas, deixando dezenas de feridos entre a família Mapuche, em face da passividade das forças armadas. É a mesma brutalidade que eles usaram na Pacificação da Araucania, na Conquista do Deserto, em cada golpe de estado e em cada Mapuche assassinado.

Apontam: “O povo chileno deve se manifestar contra a violência racista. Não vamos replicar o ódio racial que eles querem instalar. Não é o povo chileno contra o povo mapuche. São mais uma vez os empresários e latifundiários que vêem na justiça histórica de reparação ao povo Mapuche a perda de seus privilégios que conseguiram à custa do genocídio no passado e da desigualdade social nos dias de hoje. O futuro é a unidade da grande maioria contra aquela minoria privilegiada que reprime para não perder os privilégios que nos roubou durante um século. Dentro da estrutura do Estado Plurinacional onde exerceremos plenamente nossa Autodeterminação como Nação Originária”.


Prisioneiros mapuches em greve de fome

Atualmente há uma greve de fome que atingiu um estado crítico, com 27 prisioneiros nessa condição. Nove começaram no dia 4 de maio com mais de 90 dias de jejum, cuja lista é a seguinte: Centro Penitenciario de Angol desde 4 de maio; Sergio Levinao Levinao, Victor Llanquileo Pilquimán, Juan Queipul Millanao, Juan Calbucoy Montanares, Freddy Marileo Marileo, Danilo Nahuelpi Millanao, Reinaldo Penchulef Sepúlveda e Hantu Llanca Quidel e Antu Llanca Quidel (desde 18 de maio). Centro Penitenciario Temuco de 4 de maio; Machi Celestino Córdova Tránsito, tradicional autoridade espiritual do povo Mapuche. Centro Penitenciario de Lebu desde 5 de julho; Eliseo Raiman Coliman, Matías Leviqueo Concha, Carlos Huichacura Leviqueo, Manuel Huichacura Leviqueo, Esteban Huichacura Leviqueo, Guillermo Camus Jara, Cesar Millanao Millanao, Orlando Saez Ancalao, Damian Saez Saez Saez, Robinson Parra Saez e Oscar Pilquiman Pilquiman. No Centro Penitenciario Temuco desde 19 de julho; Se somam Daniel Canio Tralcal, Facundo Jones Huala, José Cáceres Salamanca, Juan Cheuqueta Cheuquepil, Fermín Marquez Inal, Cristhofer Pino Curin, Victor Marileo Ancapi.

A este respeito, foi apontado que o governo está sendo excessivamente severo com os presos políticos mapuches, desconsiderando as organizações de direitos humanos, ao colocar a integridade física dos presos em sério risco, recusando-se a estabelecer canais de diálogo e uma solução para as demandas dos presos mapuches em greve de fome, que têm sido submetidos à perseguição e criminalização abusiva pelo Estado e certos grupos econômicos.

Uma das denúncias feitas é que o governo excluiu este grupo do âmbito de aplicação da Ley penitenciaria Covid 19, que foi aplicada a mais de um terço da população carcerária no Chile, discriminação que envolveria a responsabilidade direta do Ministro da Justiça, Hernán Larraín, que também negou aos presos mapuches uma série de medidas que o próprio sistema carcerário concede, como o acesso a Centros de Estudo e Trabalho ou o direito à educação ou treinamento, bem como a aplicação de normas internacionais sobre direitos indígenas, como a Convenção 169 da OIT.


Fonte: Rebelion.org

PRÉ-VENDA DO LIVRO “EDUCAÇÃO CONTRA O CAPITAL – VOL II, DE IVO TONET


É com enorme felicidade que damos início a pré-venda do livro “Educação contra o capital – vol II“, escrito pelo professor Ivo Tonet. Na obra, o autor dá continuidade ao rico debate que tem desenvolvido no campo da educação sob a ótica do marxismo, especialmente sobre os limites da educação oferecida pelo Estado burguês, e as possibilidades de uma educação emancipadora, ferramenta para a construção de uma sociedade socialista.

Em meio a permanente crise em que os poderosos nos forçam a viver, e as incertezas educacionais provocadas pela maior pandemia do século, ampliadas pela avidez do mercado em edificar lucros sob a nossa miséria e morte, o livro de Tonet é um didático e inspirador registro de que a transformação da realidade material e concreta rumo a uma sociedade sem explorados nem exploradores depende, antes de mais nada, de nossa ação coletiva e de uma outra educação.

Educação contra o capital – vol II” conta com 80 páginas e quatro poderosos ensaios, podendo ser adquirido no valor de R$ 20,00 com frete grátis para todo o país. Acesse aqui nossa loja virtual.


“A opção é sua, educador: orientar todo o seu esforço, a sua dedicação, o seu empenho na direção de uma causa superior – a emancipação humana – ou gastar as suas energias contribuindo para a reprodução desse sistema social cada vez mais desumano. E não há neutralidade possível. A omissão, neste, como em outros casos, já é uma tomada de posição e, infelizmente, em favor da pior causa” – Ivo Tonet em “Educação contra o capital – vol II”.